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Dermatoses na gravidez

Wednesday, December 15, 2021
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Dermatoses na gravidez

O que são dermatoses na gravidez?

Dermatoses da gravidez são manifestações cutâneas fisiológicas ou patológicas específicas do período de gravidez ou alteradas por ele. De um modo geral, elas podem ser classificadas em três grupos principais:

  1. Dermatoses fisiológicas da gravidez
  2. Dermatoses alteradas pela gravidez
  3. Dermatoses específicas da gravidez

Quais são as causas determinantes das características assumidas pelas dermatoses durante a gravidez?

As características assumidas pelas dermatoses na gravidez se dão em razão das alterações imunológicas, metabólicas, hormonais e vasculares do período gestacional. Elas acontecem devido às grandes elevações de estrogênio, progesterona, beta-HCG, prolactina e uma variedade de hormônios e mediadores que alteram completamente as funções do organismo.

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Quais são as características clínicas das dermatoses na gravidez?

Algumas das alterações cutâneas que ocorrem durante a gravidez são tão comuns e transitórias que sequer chegam a ter alguma importância clínica, mas há outras que indicam ou expressam problemas de maior significação. O fato de que algumas alterações dermatológicas sejam descritas como fisiológicas não minimiza o desconforto sentido pelas grávidas. A ocorrência delas pode ser esteticamente significativa e comprometer a dimensão biológica, emocional e social da gestante.

1. Dermatoses fisiológicas da gravidez

  • As alterações de pigmentação incluem a hiperpigmentação e o melasma. A maioria das grávidas experimenta um aumento da pigmentação nas áreas já pigmentadas, como mamilos, aréolas, genitália externa, face interna das coxas, axilas e linha alba (linha média do abdome). Pode ocorrer também hiperpigmentação de sardas, nevos e cicatrizes preexistentes. Frequentemente, essa hiperpigmentação melhora após o parto. O melasma ou “máscara gravídica”, por sua vez, caracteriza-se por mancha escurecida irregular e simétrica, localizada na face. Quase sempre, o melasma desaparece após o parto, mas os raios ultravioleta não só o agravam como também podem favorecer a manutenção da lesão no pós-parto.
  • O hirsutismo (aparecimento ou aumento de pelos) leve a moderado, principalmente na face, é frequentemente observado na gravidez e é resultado das alterações endócrinas no período, regredindo nos primeiros 6 meses pós-parto.
  • Nas unhas pode ocorrer um rápido crescimento, o que comumente resulta em perda do brilho, onicólise distal (destruição das unhas) e hiperqueratose subungueal.
  • Quanto às alterações glandulares, ocorre um aumento da atividade das glândulas écrinas, que liberam sua secreção sem que haja perda do citoplasma da célula secretora, resultando em aumento da incidência da miliária, da hiperidrose e do eczema disidrótico. As glândulas sebáceas tendem a aumentar sua função, principalmente no 3º trimestre da gravidez, pelo aumento dos estrógenos circulantes. O surgimento e o curso da acne são imprevisíveis, mas em muitas gestantes surge pela primeira vez na gravidez. A melhora de doenças preexistentes, como a hidradenite, por exemplo, sugere diminuição da atividade das glândulas apócrinas na gestação.
  • No que se refere ao tecido conectivo, há a formação de estrias durante o 6º e 7º meses de gestação em 90% das mulheres. Os principais fatores relacionados a elas parecem ser uma combinação da influência genética com a distensão mecânica dos tecidos e com o aumento dos níveis séricos de cortisol e de estrógeno.
  • As alterações vasculares são comuns e são causadas principalmente pela manutenção dos elevados níveis de estrógenos. O aumento da vascularização da vagina, aranhas vasculares e eritema palmar são comuns e costumam desaparecer no pós-parto. Varicosidades e hemorroidas são frequentes na gravidez, embora a trombose venosa profunda seja rara.
  • Hiperemia, edema gengival e gengivite são extremamente frequentes nas grávidas, principalmente no 3º trimestre da gravidez, tendendo a melhorar no pós-parto.

2. Dermatoses alteradas pela gravidez

Entre as dermatoses e/ou tumores preexistentes que são alterados pela gravidez na sua apresentação ou no seu curso (pioram durante a gestação), contam-se:

  • As infecções podem ocorrer com maior frequência devido à diminuição da imunidade celular. A candidíase e a tricomoníase são frequentes na gravidez. O condiloma acuminado pode crescer rapidamente e obstruir o canal de parto. A infecção pelo herpes simples não é modificada pela gravidez, mas é relacionada à morbidade e à mortalidade fetal. No caso da varicela, as complicações podem ser maternas e/ou fetais, como: pneumonia materna, morte materna, parto prematuro e varicela congênita. Na gravidez, pode ocorrer exacerbação da hanseníase, maior frequência dos estados reacionais e aumento da resistência à quimioterapia.
  • Quanto às doenças autoimunes, o lúpus cutâneo crônico não é afetado e a gravidez é, em geral, bem tolerada. Se a concepção ocorre durante atividade lúpica ou se o lúpus surge na gestação, a incidência de complicações aumenta e o lúpus sistêmico materno pode afetar a criança (lúpus neonatal). A esclerodermia e a dermatomiosite geralmente não são alteradas pela gestação, mas em alguns casos podem ocorrer complicações graves.
  • Quanto ao tecido conectivo, as pacientes têm risco aumentado de sangramentos no pós-parto, ruptura de grandes vasos, lacerações uterinas e prolapso uterino. As pacientes podem ter também risco aumentado de sangramento do trato gastrointestinal, epistaxe e insuficiência cardíaca com arritmias ventriculares.
  • Alguns tumores podem sofrer mudanças na cor e aumentar de tamanho ou número durante a gravidez. Os acrocórdons são tumores benignos e pedunculados que surgem frequentemente nos últimos meses da gestação. Os nevos podem aumentar em número, tamanho ou tornar-se mais pigmentados na gravidez sem que isso represente sinal de malignidade. Parece não haver aumento da incidência nem alteração no prognóstico do melanoma.
  • Algumas observações indicam que a dermatite atópica melhora com a gravidez; a amamentação pode levar ao eczema dos mamilos; o puerpério aumenta a incidência de dermatite de contato e há exacerbação do eritema multiforme, do eritema nodoso e da acantose nigricans; parece ocorrer uma piora da porfiria cutânea tardia, sem prejuízo ao feto.

3. Dermatoses específicas da gravidez

As dermatoses específicas da gravidez, por seu turno, constituem um grupo de dermatoses inflamatórias raras, pruriginosas, que só ocorrem no ciclo gravídico e puerperal. Embora raras, elas podem ter um elevado risco de efeitos adversos no feto. Entre elas se encontram:

  • A colestase intra-hepática da gravidez, que ocorre principalmente no 3º trimestre em aproximadamente 1 a 2% das gestações. Ela é caracterizada pelo prurido localizado no abdome, nas palmas das mãos, nas plantas dos pés ou até de forma generalizada. O prurido remite após o parto, mas pode persistir por algumas semanas no puerpério. Existem relatos de aumento do risco de prematuridade, mecônio no líquido amniótico e morte fetal.
  • O herpes gestacional, chamado também penfigoide gestacional, que é uma doença rara que acomete aproximadamente uma em cada 50.000 gestações. Alterações imunológicas e predisposição genética parecem ser os principais fatores causais. Ocorre no 2º ou no 3º trimestre. Caracteriza-se pelo súbito aparecimento de lesões eritêmato edematosas, urticariformes, extremamente pruriginosas, que progridem rapidamente para uma erupção bolhosa generalizada poupando face, mucosas, palmas das mãos e plantas dos pés. Não há risco materno, mas existem referências de tendência a recém-nascidos pequenos para a idade gestacional e prematuridade.
  • O surgimento de pápulas e placas urticariformes e pruriginosas na gravidez, às vezes referido como erupção polimorfa da gravidez, que é a mais comum das dermatoses específicas, ocorrendo em aproximadamente uma em cada 130 a 300 gestações. A causa permanece obscura, mas condições relacionadas são: ganho de peso materno ou fetal excessivo, gestações múltiplas, primíparas e distensão abdominal gerada pela gravidez.
  • O prurigo gestacional, que é caracterizado pelo aparecimento de nódulos na pele que coçam bastante e que podem deixar manchas e cicatrizes. É a dermatose específica de início mais precoce, entre a 25ª e 30ª semana gestacional. Ocorre em uma a cada 300 gestações e a sua causa é desconhecida. Caracteriza-se por múltiplas pápulas escoriadas no abdome e nas faces extensoras dos membros. A mãe e o feto não são gravemente afetados; exceto pelo incômodo do prurido que a mãe sofre. A doença permanece por toda gestação com melhora após o parto, podendo permanecer por poucos dias do puerpério. A doença pode recorrer nas futuras gestações. Os exames laboratoriais são normais e o histopatológico é inespecífico. O tratamento é sintomático e geralmente insatisfatório.
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Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da Biblioteca Virtual em Saúde, do National Institutes of Health e da American Association of Family Physicians.

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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