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Aspergilose: o que saber sobre essa infecção fúngica complexa

Thursday, October 23, 2025
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Aspergilose: o que saber sobre essa infecção fúngica complexa

O que é a aspergilose?

A aspergilose é uma infecção ou reação de hipersensibilidade causada pela inalação de esporos do fungo Aspergillus, um gênero de fungos filamentosos amplamente distribuído no meio ambiente. Esses fungos são comumente encontrados no solo, em matéria orgânica em decomposição, em poeira e em ambientes com alta umidade, como áreas com mofo.

A doença pode se manifestar de diferentes formas, dependendo do equilíbrio entre a virulência do fungo e a resposta imunológica do hospedeiro. As principais apresentações clínicas incluem:

  1. Aspergilose broncopulmonar alérgica
  2. Aspergilose invasiva
  3. Aspergiloma (ou bola fúngica)
  4. Aspergilose pulmonar crônica

Cada forma apresenta características clínicas distintas e afeta diferentes grupos de pacientes, desde indivíduos saudáveis até imunossuprimidos.

Quais são as causas da aspergilose?

A aspergilose é causada principalmente por espécies do gênero Aspergillus, sendo o Aspergillus fumigatus o agente etiológico mais comum, seguido por A. flavus, A. niger e A. terreus.

Esses fungos são ubíquos, e seus esporos (leves e facilmente transportados pelo ar) são inalados diariamente por praticamente todas as pessoas. No entanto, a infecção ocorre predominantemente em indivíduos com fatores de risco, como:

A exposição a ambientes com alta concentração de esporos, como obras, demolições ou áreas agrícolas, também aumenta o risco.

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Qual é o substrato fisiopatológico da aspergilose?

A fisiopatologia da aspergilose varia conforme a forma clínica.

  • Na aspergilose broncopulmonar alérgica, a inalação de esporos desencadeia uma resposta imune de hipersensibilidade tipos I e III, caracterizada por inflamação eosinofílica intensa e obstrução brônquica por muco espesso, geralmente em pacientes asmáticos ou com fibrose cística.
  • Na aspergilose invasiva, comum em pacientes imunossuprimidos, o fungo invade tecidos (principalmente pulmões e seios paranasais) devido à incapacidade do sistema imune de conter seu crescimento. A invasão vascular leva a necrose hemorrágica, infartos teciduais e disseminação hematogênica.
  • O aspergiloma forma-se em cavidades pulmonares preexistentes, nas quais os esporos se aglutinam e formam uma massa fúngica sem invadir o tecido adjacente.
  • Já a aspergilose pulmonar crônica é caracterizada por infecção persistente e destruição tecidual progressiva em pacientes com reserva pulmonar limitada.

Quais são as características clínicas da aspergilose?

As manifestações clínicas dependem da forma da doença e do estado imunológico do paciente.

  • Na aspergilose broncopulmonar alérgica, os sintomas incluem sibilos, tosse persistente, expectoração de tampões mucosos acastanhados, febre e dispneia, sintomas frequentemente confundidos com exacerbações de asma.
  • A aspergilose invasiva costuma se apresentar com febre persistente, tosse, dor torácica pleurítica, hemoptise e sintomas sistêmicos, como perda de peso e fadiga. Em casos graves, pode haver acometimento do sistema nervoso central, rins, pele e coração.
  • O aspergiloma é muitas vezes assintomático, sendo descoberto incidentalmente em exames de imagem; quando sintomático, manifesta-se por tosse e hemoptise, que pode ser grave.
  • A aspergilose pulmonar crônica apresenta curso insidioso, com tosse produtiva, perda de peso e fadiga, evoluindo lentamente.

Como o médico diagnostica a aspergilose?

O diagnóstico da aspergilose é desafiador e requer correlação entre dados clínicos, radiológicos e laboratoriais.

A suspeita baseia-se na história clínica e nos fatores de risco. A tomografia computadorizada de tórax pode mostrar sinais típicos, como o “sinal do halo” na aspergilose invasiva ou uma massa intracavitária móvel com nível aéreo no aspergiloma.

Entre os exames laboratoriais, destacam-se a detecção de antígenos fúngicos (galactomanana e β-D-glucano) no soro ou lavado broncoalveolar, especialmente úteis na aspergilose invasiva. A cultura e a biópsia podem confirmar o diagnóstico, embora a presença de Aspergillus nas vias aéreas nem sempre signifique infecção ativa.

Na forma alérgica, observa-se elevação de IgE total e específica, eosinofilia periférica e precipitação de anticorpos IgG contra Aspergillus. Em casos complexos, pode ser necessária biópsia pulmonar com exame histopatológico, evidenciando hifas septadas com ramificação dicotômica.

Como o médico trata a aspergilose?

O tratamento varia de acordo com a forma clínica.

  • Na aspergilose broncopulmonar alérgica, utilizam-se corticosteroides orais ou inalatórios para controlar a inflamação, frequentemente associados a antifúngicos como itraconazol para reduzir a carga antigênica.
  • A aspergilose invasiva requer antifúngicos sistêmicos de alta potência, sendo o voriconazol o tratamento de primeira linha, seguido por anfotericina B lipossomal ou isavuconazol em casos refratários ou intolerância.
  • O aspergiloma assintomático pode ser apenas observado, mas episódios de hemoptise grave exigem embolização arterial ou ressecção cirúrgica.
  • Na aspergilose pulmonar crônica, o tratamento antifúngico prolongado (por exemplo, itraconazol ou voriconazol por vários meses) é associado ao manejo das doenças pulmonares subjacentes.

Sempre que possível, deve-se otimizar a função imune, reduzindo imunossupressores ou controlando comorbidades.

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Como evolui a aspergilose?

A evolução também depende da forma clínica, além do estado imunológico e da precocidade do diagnóstico.

  • A aspergilose broncopulmonar alérgica pode ser controlada com terapia adequada, mas recorrências podem causar bronquiectasias irreversíveis.
  • A aspergilose invasiva tem prognóstico reservado, com mortalidade superior a 50% em pacientes imunossuprimidos, especialmente em casos disseminados.
  • O aspergiloma pode permanecer estável por anos, mas há risco de hemoptise maciça.
  • A aspergilose pulmonar crônica tende a evoluir lentamente, podendo causar destruição progressiva do parênquima pulmonar e insuficiência respiratória se não tratada.

Como prevenir a aspergilose?

A prevenção é difícil devido à ubiquidade do fungo. Em pacientes de alto risco, recomenda-se evitar ambientes com mofo ou poeira, usar máscaras de alta filtragem (como N95) em locais de risco e manter sistemas hospitalares de ar com filtros HEPA.

A profilaxia antifúngica com itraconazol, voriconazol ou posaconazol pode ser indicada em transplantados ou imunossuprimidos graves. O controle rigoroso de doenças pulmonares crônicas e o uso racional de corticosteroides também reduzem significativamente o risco de infecção.

Quais são as complicações possíveis da aspergilose?

As complicações variam conforme a forma da doença.

Na forma alérgica, a inflamação crônica pode levar a bronquiectasias e fibrose pulmonar. A aspergilose invasiva pode evoluir com disseminação hematogênica, originando abscessos cerebrais, endocardite, endoftalmite e envolvimento renal. O aspergiloma pode causar hemoptise maciça e potencialmente fatal, e a forma crônica pode progredir para insuficiência respiratória avançada.

Além disso, o uso prolongado de antifúngicos pode ocasionar toxicidade hepática, renal ou interações medicamentosas significativas, especialmente com anfotericina B ou azólicos.

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Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites do Ministério da Saúde e da Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Estado do Rio de Janeiro.

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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