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Depressão endógena

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Atualmente é muito comum o paciente ir ao médico de qualquer especialidade e sair de lá com um diagnóstico1 de depressão e com a recomendação de tomar um antidepressivo. Na prática, o termo depressão tornou-se um grande guarda-chuva que abriga desde os quadros depressivos mais graves até os sintomas2 vagos e inespecíficos de todo mal-estar e os dissabores com acontecimentos negativos da vida cotidiana.

E a depressão diagnosticada pelos clínicos quase nunca é qualificada, embora haja inúmeros tipos de depressão, cada uma delas com suas características próprias e demandando diferentes tratamentos. A maioria delas são reações a eventos desafortunados, sejam acontecimentos pontuais e passageiros ou insatisfações permanentes com a vida (depressões reativas). Muitas vezes são maneiras de medicalização indevida de problemas sociais, transformando em diagnósticos clínicos as brigas entre marido e mulher, as perdas econômicas, as demissões do emprego, a separação dos namorados e coisas afins.

Muitas vezes, tudo isso resulta de uma confusão da mera tristeza com a depressão. Para as formas reativas, os antidepressivos não têm mais que um efeito placebo3. Melhores efeitos teriam os psicoestimulantes, mas eles também não são a maneira correta de se tratar esses casos.

Saiba mais sobre "Transtorno bipolar do humor", "Depressões" e "Depressão maior".

O que é a depressão endógena?

A expressão máxima da depressão doença é a antigamente chamada depressão endógena, quase sempre ligada à antiga Psicose4 Maníaco-Depressiva, que corresponde hoje à Depressão Maior do Transtorno Bipolar do Humor. Ela é uma depressão “que vem de dentro” e é devida a fatores biológicos, e por isso pode ocorrer mesmo quando tudo à volta parece ser um “céu de brigadeiro”.

Toda forma de depressão tem algumas manifestações em comum:

  • tristeza;
  • desânimo;
  • apatia5;
  • pessimismo;
  • dificuldades de concentração;
  • irritabilidade;
  • perda de interesse nas atividades diárias;
  • sentimentos de desvalorização de si mesmo ou de culpa;
  • dificuldade de usufruir dos prazeres da vida;
  • perda de interesses;
  • lentidão psicomotora6;
  • dores pelo corpo;
  • alterações do sono e/ou do apetite;
  • ganho ou perda de peso;
  • e ideação suicida.

Mas, em cada forma de depressão, cada uma dessas manifestações pode ter maior ou menor prevalência7 e formas específicas podem surgir. Juntamente aos sintomas2, algumas outras características clínicas ajudam a definir o tipo de depressão. Assim, em relação à depressão endógena, temos:

  1. Não necessita de uma situação externa desencadeadora; ela se dá a partir de fatores internos. Tudo pode estar correndo muito bem e inclusive ser um momento de júbilo ou sucesso, mas a pessoa se deprime assim mesmo.
  2. Os sintomas2 têm grande intensidade. É comum que as pessoas não consigam sair da cama e os sentimentos negativos, não tratados a tempo, podem chegar a constituir verdadeiros delírios de ruína. Tendo como pano de fundo as manifestações gerais das depressões, destacam-se entre os sintomas2 um intenso sentimento de culpa; uma tristeza expressa nas feições faciais, nos gestos e nas posturas; grande isolamento social; choro excessivo; pensamentos suicidas; repetição incessante de pensamentos negativos; e risco real de suicídio.
  3. Os sintomas2 são muito corporificados e não se passam apenas no espaço mental. Enquanto nas depressões reativas é possível “deixar provisoriamente os sintomas2 de lado” para desfrutar um momento de júbilo (ir a uma festa, comemorar um aniversário, fazer uma viagem, etc.), nas depressões endógenas a mesma coisa não acontece.
  4. Comumente, as depressões endógenas são periódicas, sucedidas por outras crises depressivas da mesma natureza ou por fases de exaltação do humor. O intervalo entre esses episódios pode durar anos (às vezes dez ou mais) ou, mais raramente, podem ser únicos ou perdurar por toda a vida.
  5. Os casos excepcionalmente graves incluem delírios depressivos de culpa, ruína e niilismo, que compreendem a negação da existência de órgãos ou partes do corpo e as alucinações8 congruentes com o humor depressivo.
  6. Há uma grande tendência de ocorrência familiar (hereditária).

Quais são as causas da depressão endógena?

Como ocorre na maioria dos transtornos mentais, não se sabe exatamente o que causa a depressão endógena. As causas parecem ser multifatoriais: genéticas, biológicas, psicológicas e ambientais, todas elas presentes em todos os casos, em maior ou menor grau.

Todos os tipos de depressão têm um forte componente genético; mas isso é especialmente verdade no caso das depressões endógenas. Substâncias produzidas no cérebro9, conhecidas como neurotransmissores, exercem uma enorme influência na maneira como nos sentimos. Em uma depressão endógena, os níveis de algumas delas estão muito alterados. Entre os neurotransmissores, os mais relacionados ao início da depressão são os níveis baixos de serotonina e de dopamina10.

Alguns níveis baixos de certas substâncias corporais, como testosterona ou vitamina11 D, também podem estar por trás de alguns tipos de depressão endógena.

Do ponto de vista psicológico, uma das principais causas de qualquer transtorno de humor é a maneira como a pessoa pensa. As crenças de que as coisas nunca vão melhorar, ou ruminar constantemente os próprios problemas, pode eventualmente levar esse distúrbio psicológico a perdurar ao longo do tempo. Outras características, como pessimismo ou mesmo introversão, podem contribuir para o aparecimento de uma depressão endógena.

Finalmente, um estilo de vida sedentário, má alimentação, falta de sono, estresse no trabalho ou falta de apoio social adequado tornam mais provável o desenvolvimento de uma depressão endógena. Esses fatores sozinhos não são suficientes para causar um distúrbio mental, mas podem aumentar as chances de uma pessoa sofrer com um deles.

Como o médico trata a depressão endógena?

O tratamento da depressão endógena deve ser sempre conduzido por um psiquiatra. Ele compreende fundamentalmente o uso de medicações antidepressivas e deve ser complementado com psicoterapia, mudanças de hábitos pessoais e adoção de uma dieta sadia.

Os surtos depressivos tenderiam a durar espontaneamente de seis a nove meses, sem tratamento, mas podem ser abortados muito mais rapidamente pelas medicações, as quais, no entanto, devem ser mantidas por aquela duração, para evitar o risco de reincidência12.

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Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da Mayo Clinic e da Cleveland Clinic.

ABCMED, 2022. Depressão endógena. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/psicologia-e-psiquiatria/1425235/depressao+endogena.htm>. Acesso em: 1 out. 2022.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
2 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
3 Placebo: Preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição a um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico.
4 Psicose: Grupo de doenças psiquiátricas caracterizadas pela incapacidade de avaliar corretamente a realidade. A pessoa psicótica reestrutura sua concepção de realidade em torno de uma idéia delirante, sem ter consciência de sua doença.
5 Apatia: 1. Em filosofia, para os céticos e os estoicos, é um estado de insensibilidade emocional ou esmaecimento de todos os sentimentos, alcançado mediante o alargamento da compreensão filosófica. 2. Estado de alma não suscetível de comoção ou interesse; insensibilidade, indiferença. 3. Em psicopatologia, é o estado caracterizado por indiferença, ausência de sentimentos, falta de atividade e de interesse. 4. Por extensão de sentido, é a falta de energia (física e moral), falta de ânimo; abatimento, indolência, moleza.
6 Psicomotora: Própria ou referente a qualquer resposta que envolva aspectos motores e psíquicos, tais como os movimentos corporais governados pela mente.
7 Prevalência: Número de pessoas em determinado grupo ou população que são portadores de uma doença. Número de casos novos e antigos desta doença.
8 Alucinações: Perturbações mentais que se caracterizam pelo aparecimento de sensações (visuais, auditivas, etc.) atribuídas a causas objetivas que, na realidade, inexistem; sensações sem objeto. Impressões ou noções falsas, sem fundamento na realidade; devaneios, delírios, enganos, ilusões.
9 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
10 Dopamina: É um mediador químico presente nas glândulas suprarrenais, indispensável para a atividade normal do cérebro.
11 Vitamina: Compostos presentes em pequenas quantidades nos diversos alimentos e nutrientes e que são indispensáveis para o desenvolvimento dos processos biológicos normais.
12 Reincidência: 1. Ato ou efeito de reincidir ou repetir. 2. Obstinação, insistência, teimosia.
13 Gravidez: Condição de ter um embrião ou feto em desenvolvimento no trato reprodutivo feminino após a união de ovo e espermatozóide.
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