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O que você deve saber sobre antidepressivos

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O que é a depressão?

A depressão é um distúrbio da afetividade caracterizado pela presença de tristeza, pessimismo e baixa autoestima. Sob a denominação de depressão encontram-se, na verdade, várias doenças diferentes, por isso é mais correto falar-se em síndrome1 depressiva que de depressão.

Algumas depressões são verdadeiras doenças, tendo uma base etiológica orgânica em alterações bioquímicas do cérebro2, principalmente com relação aos neurotransmissores (serotonina, noradrenalina3 e, em menor proporção, dopamina4) e outros processos que ocorrem dentro das células nervosas5. Outras situações, habitualmente também chamadas de depressão, são, na realidade, reações depressivas a insucessos vivenciais.

As primeiras são ditas depressões endógenas e, as outras, depressões reativas. Fala-se também de depressões endorreativas quando uma predisposição depressiva endógena é desencadeada por um acontecimento vivencial.

Saiba mais sobre "Depressão maior", "Depressões" e "Tipos psicológicos".

O que são antidepressivos?

Os antidepressivos são substâncias consideradas eficazes na remissão de sintomas6 de pelo menos um grupo de pacientes com transtornos de síndromes depressivas. Eles agem melhor nas depressões endógenas que nas outras, em que podem ter apenas um efeito placebo7. Algumas substâncias com atividade antidepressiva podem ser eficazes também em transtornos psicóticos e terem outros papeis farmacológicos, como analgésicos8, por exemplo.

Quimicamente falando, há três classes principais de antidepressivos:

(1) os antidepressivos tricíclicos, que contém em sua estrutura química um triplo anel benzênico;

(2) os inibidores seletivos da recaptação de serotonina e/ou noradrenalina3 (ISRS), que recaptam essas substâncias liberadas nas sinapses;

(3) os inibidores da monoaminoenzimaoxidase (IMAO9), que inibem a ação desta enzima10 nas fendas sinápticas.

Os medicamentos antidepressivos não tratam a causa da depressão e sim os seus sintomas6. Todos eles são capazes de elevar o humor básico patologicamente deprimido e devem ser distinguidos dos psicoestimulantes por certas características clínicas:

  1. Os psicoestimulantes elevam o humor de pessoas normais; os antidepressivos apenas têm esse efeito em pessoas deprimidas.
  2. A ação dos psicoestimulantes é imediata, a dos antidepressivos demora de 7 a 10 dias.
  3. Os psicoestimulantes podem causar euforia; os antidepressivos não têm esse efeito, embora possam causar as chamadas “viradas maníacas” em pacientes que sofrem de psicose11 maníaco-depressiva ou transtorno bipolar do humor.
  4. Os antidepressivos não causam dependência; os psicoestimulantes podem causá-la.
  5. Os antidepressivos sempre são medicamentos; os psicoestimulantes, além de medicamentos, são também drogas, como a cocaína, por exemplo, ou outras substâncias químicas.
  6. Os psicoestimulantes apresentam “efeito rebote”, isto é, à euforia inicial segue-se um fase de depressão.
Leia sobre "Transtorno bipolar do humor" e "Dependência de cocaína".

Qual é o mecanismo de ação dos antidepressivos?

Os neurônios12 não se conectam fisicamente uns com os outros. Entre eles há uma fenda preenchida por líquido no qual abundam principalmente a serotonina, a dopamina4 e a noradrenalina3. As depressões se devem a alterações nessas substâncias, chamadas neurotransmissores, e os antidepressivos visam corrigi-las, aumentando a concentração delas nas fendas sinápticas.

Embora os conhecimentos sobre a bioquímica da depressão e a ação dos antidepressivos ainda sejam rudimentares e empíricos, a Associação Americana de Psiquiatria sugere que os antidepressivos devam ser prescritos por, pelo menos, 4 a 5 meses após a melhora ou remissão total dos sintomas6 depressivos, porque esse seria o tempo preciso para fazer as correções bioquímicas necessárias.

Os antidepressivos tricíclicos são os mais eficazes no tratamento da depressão profunda; os ISRS são mais seguros, mas só são eficazes em depressão moderada, enquanto os inibidores da monoamina oxidase (IMAO9) têm longa duração de ação.

Quais são os principais efeitos colaterais13 dos antidepressivos?

Embora sejam eficazes contra a depressão, os antidepressivos não são sustâncias inócuas, podendo causar diminuição da libido14, disfunção sexual, síndrome1 de privação, mania/hipomania, sintomas6 típicos da esquizofrenia15, quadro psicótico agudo16, perigo de suicídio logo após o início da terapia, boca17 seca pela redução do fluxo salivar, perda de apetite, constipação18 intestinal, aumento da pressão arterial19, enjoos, dor de cabeça20, aumento da temperatura corporal, etc.

Como a serotonina tem importante papel no processo da coagulação21, é de se esperar um aumento no tempo de sangramento do paciente que usa antidepressivos.

Chama-se de síndrome serotoninérgica22 ao conjunto de sintomas6 causados pelo excesso de serotonina na fenda sináptica. Ocorre, por exemplo, quando da associação entre os antidepressivos ISRS e IMAO9.

Veja também sobre "Esquizofrenia15", "Suicídio", "Síndrome serotoninérgica22" e "Psicoterapias".

 

ABCMED, 2017. O que você deve saber sobre antidepressivos. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/psicologia-e-psiquiatria/1286033/o-que-voce-deve-saber-sobre-antidepressivos.htm>. Acesso em: 19 jan. 2019.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Síndrome: Conjunto de sinais e sintomas que se encontram associados a uma entidade conhecida ou não.
2 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
3 Noradrenalina: Mediador químico do grupo das catecolaminas, liberado pelas fibras nervosas simpáticas, precursor da adrenalina na parte interna das cápsulas das glândulas suprarrenais.
4 Dopamina: É um mediador químico presente nas glândulas suprarrenais, indispensável para a atividade normal do cérebro.
5 Células Nervosas: Unidades celulares básicas do tecido nervoso. Cada neurônio é formado por corpo, axônio e dendritos. Sua função é receber, conduzir e transmitir impulsos no SISTEMA NERVOSO.
6 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
7 Placebo: Preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição a um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico.
8 Analgésicos: Grupo de medicamentos usados para aliviar a dor. As drogas analgésicas incluem os antiinflamatórios não-esteróides (AINE), tais como os salicilatos, drogas narcóticas como a morfina e drogas sintéticas com propriedades narcóticas, como o tramadol.
9 IMAO: Tipo de antidepressivo que inibe a enzima monoaminoxidase (ou MAO), hoje usado geralmente como droga de terceira linha para a depressão devido às restrições dietéticas e ao uso de certos medicamentos que seu uso impõe. Deve ser considerada droga de primeira escolha no tratamento da depressão atípica (com sensibilidade à rejeição) ou agente útil no distúrbio do pânico e na depressão refratária. Pode causar hipotensão ortostática e efeitos simpaticomiméticos tais como taquicardia, suores e tremores. Náusea, insônia (associada à intensa sonolência à tarde) e disfunção sexual são comuns. Os efeitos sobre o sistema nervoso central incluem agitação e psicoses tóxicas. O término da terapia com inibidores da MAO pode estar associado à ansiedade, agitação, desaceleração cognitiva e dor de cabeça, por isso sua retirada deve ser muito gradual e orientada por um médico psiquiatra.
10 Enzima: Proteína produzida pelo organismo que gera uma reação química. Por exemplo, as enzimas produzidas pelo intestino que ajudam no processo digestivo.
11 Psicose: Grupo de doenças psiquiátricas caracterizadas pela incapacidade de avaliar corretamente a realidade. A pessoa psicótica reestrutura sua concepção de realidade em torno de uma idéia delirante, sem ter consciência de sua doença.
12 Neurônios: Unidades celulares básicas do tecido nervoso. Cada neurônio é formado por corpo, axônio e dendritos. Sua função é receber, conduzir e transmitir impulsos no SISTEMA NERVOSO. Sinônimos: Células Nervosas
13 Efeitos colaterais: 1. Ação não esperada de um medicamento. Ou seja, significa a ação sobre alguma parte do organismo diferente daquela que precisa ser tratada pelo medicamento. 2. Possível reação que pode ocorrer durante o uso do medicamento, podendo ser benéfica ou maléfica.
14 Libido: Desejo. Procura instintiva do prazer sexual.
15 Esquizofrenia: Doença mental do grupo das Psicoses, caracterizada por alterações emocionais, de conduta e intelectuais, caracterizadas por uma relação pobre com o meio social, desorganização do pensamento, alucinações auditivas, etc.
16 Agudo: Descreve algo que acontece repentinamente e por curto período de tempo. O oposto de crônico.
17 Boca: Cavidade oral ovalada (localizada no ápice do trato digestivo) composta de duas partes
18 Constipação: Retardo ou dificuldade nas defecações, suficiente para causar desconforto significativo para a pessoa. Pode significar que as fezes são duras, difíceis de serem expelidas ou infreqüentes (evacuações inferiores a três vezes por semana), ou ainda a sensação de esvaziamento retal incompleto, após as defecações.
19 Pressão arterial: A relação que define a pressão arterial é o produto do fluxo sanguíneo pela resistência. Considerando-se a circulação como um todo, o fluxo total é denominado débito cardíaco, enquanto a resistência é denominada de resistência vascular periférica total.
20 Cabeça:
21 Coagulação: Ato ou efeito de coagular(-se), passando do estado líquido ao sólido.
22 Síndrome serotoninérgica: Síndrome serotoninérgica ou síndrome da serotonina é caracterizada por uma tríade de alterações do estado mental (ansiedade, agitação, confusão mental, hipomania, alucinações e coma), das funções motoras (englobando tremores, mioclonias, hipertonia, hiperreflexia e incoordenação) e do sistema nervoso autônomo (febre, sudorese, náuseas, vômitos, diarreia e hipertensão). Ela pode ter causas diversas, mas na maioria das vezes ocorre por uma má interação medicamentosa, quando dois ou mais medicamentos que elevam a neurotransmissão serotoninérgica por meio de distintos mecanismos são utilizados concomitantemente ou em overdose.
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