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Transtornos dissociativos

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O que são transtornos dissociativos?

A consciência normalmente é uma, mas pode, patologicamente, perder sua unicidade e desdobrar-se em duas ou mais manifestações. Nisso consistem os chamados transtornos dissociativos. Eles são transtornos mentais que envolvem experimentar uma desconexão e falta de continuidade entre pensamentos, memórias, ações e identidade. Funcionam como um mecanismo de defesa que permite às pessoas escaparem de uma realidade desagradável de forma involuntária1 e doentia.

Alguns distúrbios dissociativos, que ocorrem após um evento traumático, podem ser muito rápidos, e outros muito duradouros (semanas ou meses), e geralmente se resolvem por si mesmos. No passado, estes transtornos eram classificados entre diversos tipos de histeria.

Quais são as causas dos transtornos dissociativos?

As causas são pouco conhecidas. Os distúrbios dissociativos se desenvolvem como uma reação a um trauma insuportável e procuram manter afastadas as memórias difíceis. As experiências traumáticas que podem levar a transtornos dissociativos são das mais diversas naturezas como, por exemplo, abuso físico, sexual ou emocional; experiências traumatizantes na guerra; sequestro; ou mesmo um procedimento médico invasivo.

Qual é o substrato psicológico dos transtornos dissociativos?

Os transtornos dissociativos são de causas psicogênicas, visto que ocorrem em estreita relação temporal com eventos traumáticos, problemas insolúveis e insuportáveis ou relações interpessoais difíceis. Os sintomas2 físicos, se existem, frequentemente reproduzem a ideia que o sujeito faz de uma doença física determinada.

Desligar-se momentaneamente da realidade é um mecanismo de defesa normal que ajuda a pessoa a lidar com um momento traumático difícil. É uma forma de negação, como se "isso não estivesse acontecendo comigo". Isso se torna patológico quando é muito intenso e/ou duradouro e interfere desfavoravelmente no cotidiano da pessoa.

Saiba mais sobre "Agressão sexual", "Estupro" "Estresse pós-traumático", "Histeria conversiva" e "Transtorno do Pânico".

Quais são as principais características clínicas dos transtornos dissociativos?

Os períodos de dissociação podem durar um tempo relativamente curto (horas ou dias) ou muito longos (semanas ou meses). Às vezes, podem durar anos.

Há três tipos principais de distúrbios dissociativos:

1. Transtorno Dissociativo de Identidade (da personalidade)

Anteriormente denominado transtorno de personalidade múltipla, é o transtorno em que duas ou mais identidades se alternam no controle da mesma pessoa. Além disso, a pessoa alega não conseguir se lembrar de eventos rotineiros, informações pessoais importantes e/ou eventos traumáticos ou estressantes. O distúrbio dissociativo de identidade é uma forma grave de dissociação, um processo mental que produz uma falta de conexão nos pensamentos, memórias, sentimentos, ações ou senso de identidade de uma pessoa.

2. Transtorno de Despersonalização / Desrealização

O distúrbio de despersonalização é marcado por períodos de sentimento de estar desconectado ou desapegado de seu corpo e de seus pensamentos. Essa sensação costuma ser acompanhada da sensação de estar desconectado do ambiente, dita desrealização, pelo que se costuma referir ao transtorno como despersonalização-desrealização. Geralmente, ele produz a sensação de ser um observador externo da própria vida, vendo-a de fora.

Perto da metade das pessoas já tiveram pelo menos uma experiência transitória de despersonalização ou desrealização, mas somente cerca de 2% delas preenchem os critérios para serem diagnosticadas como tendo transtorno de despersonalização-desrealização. O transtorno só deve ser considerado presente se a despersonalização ou desrealização ocorrerem independentemente de outros transtornos mentais ou físicos, forem persistentes ou recorrentes e prejudicarem o funcionamento pessoal. Os sentimentos de despersonalização e desrealização podem ser muito perturbadores e podem parecer à pessoa que ela está vivendo um sonho.

As pessoas com o distúrbio de despersonalização / desrealização não perdem contato com a realidade. Eles percebem que suas percepções estranhas não são reais. Isso os diferencia dos psicóticos.

3. Amnésia3 Dissociativa

A amnésia3 é a falta de capacidade total ou parcial de lembrar-se de experiências. Se a amnésia3 for causada por transtornos psicológicos em vez de uma doença física, ela é dita amnésia3 dissociativa (anteriormente chamada de amnésia3 psicogênica4). Em casos graves, a pessoa não consegue se lembrar de seu nome, família, amigos e histórico pessoal. Os períodos cobertos pela dissociação podem ser de dias, meses, vários anos ou mesmo serem definitivos.

A amnésia3 dissociativa é provocada por um trauma psicológico de grande intensidade. Ela é mais frequente em mulheres que em homens, normalmente por terem passado ou testemunhado eventos muito traumáticos, como abusos, estupro, guerras, genocídio, acidentes, desastres naturais ou morte de um ente querido. Ela também pode surgir de preocupações com problemas financeiros graves ou um sério conflito interno, como, por exemplo, sentimento de culpa, dificuldades insolúveis ou crimes cometidos. Também parece haver um fator genético envolvido na amnésia3 dissociativa, já que parentes próximos têm a tendência de desenvolver amnésia3.

Os sintomas2 dos transtornos dissociativos dependem em parte do tipo de distúrbio dissociativo que o paciente tem. De um modo geral, pode ocorrer perda de memória (amnésia3) de determinados períodos, eventos, pessoas e informações pessoais; uma sensação de estar desapegado de si mesmo e de suas emoções; uma percepção das pessoas e das coisas ao seu redor como distorcidas e irreais; um senso borrado de identidade; estresse ou problemas significativos em seus relacionamentos, trabalho ou outras áreas importantes de sua vida; incapacidade de lidar bem com o estresse emocional ou profissional; problemas de saúde5 mental, como depressão, ansiedade e pensamentos e comportamentos suicidas.

Como o médico diagnostica os transtornos dissociativos?

O diagnóstico6 de transtorno dissociativo depende sobretudo dos relatos fornecidos pelo paciente e por seus familiares e de serem avaliados por um especialista que tenha um bom entendimento sobre eles. Não existe exame laboratorial que possa diagnosticar o transtorno dissociativo de maneira inequívoca.

Como o médico trata os transtornos dissociativos?

O tratamento para distúrbios dissociativos pode variar de acordo com o tipo de distúrbio, mas sempre inclui psicoterapia e o uso de medicamentos. Embora o tratamento possa ser difícil, muitas pessoas aprendem novas maneiras de lidar com ele e levam uma vida produtiva e saudável.

Embora não existam medicamentos para tratar especificamente os distúrbios dissociativos, o médico pode prescrever antidepressivos, ansiolíticos ou antipsicóticos para ajudar a controlar os sintomas2 associados.

Leia sobre "Transtorno de despersonalização", "Transtorno de identidade", "Amnésias7" e "Psicoterapia".

 

Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas dos sites da Mayo Clinic e do NHS – National Health Service – UK.

ABCMED, 2019. Transtornos dissociativos. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/psicologia-e-psiquiatria/1353623/transtornos+dissociativos.htm>. Acesso em: 5 dez. 2019.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Involuntária: 1.    Que se realiza sem intervenção da vontade ou que foge ao controle desta, automática, inconsciente, espontânea. 2.    Que se encontra em uma dada situação sem o desejar, forçada, obrigada.
2 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
3 Amnésia: Perda parcial ou total da memória.
4 Psicogênica: 1. Relativo à psicogenia ou psicogênese, ou seja, relativo à origem e desenvolvimento do psiquismo. 2. Relativo a ou próprio de fenômenos somáticos com origem psíquica.
5 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
6 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
7 Amnésias: Perda parcial ou total da memória.
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