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Despersonalização: parece que sou um observador externo da minha própria vida!

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O que é despersonalização?

O distúrbio de despersonalização pertence ao grupo dos chamados distúrbios dissociativos. É marcado por períodos de sentimento de estar desconectado ou desapegado de seu corpo e dos seus pensamentos. Essa sensação é acompanhada da sensação de estar desconectado do ambiente, dita desrealização, pelo que se costuma referir ao transtorno como despersonalização/desrealização. Esse transtorno produz a sensação de ser um observador externo da própria vida, vendo-a de fora.

Perto da metade das pessoas já tiveram pelo menos uma experiência transitória de despersonalização ou desrealização, mas somente cerca de 2% delas preenchem os critérios para serem diagnosticadas como tendo transtorno de despersonalização-desrealização. O transtorno só deve ser considerado presente se a despersonalização ou desrealização ocorrerem independentemente de outros transtornos mentais ou físicos, é persistente ou recorrente e prejudica o funcionamento pessoal.

Os sentimentos de despersonalização e desrealização podem ser muito perturbadores e podem parecer à pessoa que ela está vivendo um sonho. As pessoas com o distúrbio de despersonalização / desrealização não perdem contato com a realidade. Eles percebem que suas percepções estranhas não são reais. Isso as diferencia dos psicóticos.

Quais são as causas da despersonalização?

Transtorno de despersonalização/desrealização ocorre igualmente em homens e mulheres. A média de idade no início do transtorno é em torno dos 16 anos, mas ele pode começar no início ou no meio da infância. Apenas 5% dos casos se desenvolvem depois dos 25 anos e raramente começa depois dos 40 anos.

A causa exata do distúrbio de despersonalização-desrealização não é bem conhecida, mas sabe-se que algumas pessoas podem estar mais vulneráveis a sofrer o distúrbio do que outras, possivelmente devido a fatores genéticos e ambientais. Este transtorno é quase sempre desencadeado por um estresse grave. A despersonalização/desrealização também pode ocorrer como sintoma1 em diversos outros transtornos mentais como depressão e ansiedade, assim como pelo uso de drogas ilícitas2 e por distúrbios físicos, tais como distúrbios convulsivos.

Fatores que podem aumentar o risco do distúrbio incluem certos traços particularidades de personalidade; trauma grave, durante a infância ou vida adulta; estresse severo, com relacionamentos, questões financeiras ou relacionados ao trabalho; depressão ou ansiedade, especialmente depressão severa ou prolongada ou ansiedade com ataques de pânico.

Saiba mais sobre "Transtornos dissociativos", "Depressões", "Ansiedade não patológica", "Transtorno de ansiedade generalizada" e "Transtorno do pânico".

Quais são as principais características clínicas da despersonalização?

Grande número de pessoas têm uma experiência passageira de despersonalização-desrealização em algum momento. Esses episódios são de intensidade variável e podem durar algumas horas, dias, semanas, meses ou, às vezes, anos.

As pessoas que sofrem anormalmente do transtorno dizem que se sentem como robôs ou autômatos, sem controle do que fazem ou falam. Podem também sentir-se emocional e fisicamente entorpecidos ou se sentirem desconectados da realidade, com pouca ou nenhuma emotividade. Alguns pacientes não conseguem reconhecer ou descrever suas emoções, mas frequentemente se sentem desconectados de suas memórias e são incapazes de lembrá-las claramente.

A preocupação de "estar enlouquecendo", que costuma acompanhar esses pacientes, pode fazer com que eles se preocupem em verificar se realmente existem e em determinar o que é realmente real.

Os pacientes podem se sentir como se uma parede de vidro os separasse de seus ambientes. O mundo parece sem vida, sem cor ou artificial, e os objetos podem parecer desfocados ou incomumente nítidos. Os sons podem parecer mais altos ou mais baixos do que são e o tempo pode parecer estar transcorrendo muito lentamente ou muito rapidamente.

Os sintomas3 quase sempre são angustiantes, graves ou intoleráveis, mas os pacientes sempre retêm o conhecimento de que suas experiências irreais não são reais, sabem que é apenas a maneira como as percebem. Essa consciência diferencia o transtorno de despersonalização/desrealização de um transtorno psicótico, em que o discernimento sempre está ausente.

Como diagnosticar a despersonalização?

O diagnóstico4 é eminentemente5 clínico e se baseia nos sintomas3 relatados pelo paciente e/ou seus familiares, depois que outras causas possíveis forem descartadas.

Em geral, os sintomas3 causam sofrimento significativo ou prejudicam muito o funcionamento social ou ocupacional. Por vezes, os sintomas3 podem ocorrer no curso de outra doença ou transtorno (convulsões, abuso de fármacos, transtorno do pânico, transtorno depressivo maior, outro transtorno dissociativo, etc.).

A ressonância magnética6 e o eletroencefalograma7 devem ser feitos para descartar causas físicas, especialmente se os sintomas3 ou a progressão são atípicos. Testes toxicológicos de urina8 também podem ser indicados. Testes psicológicos, entrevistas e questionários estruturados especiais são úteis.

Leia sobre "Testes de personalidade" e "Testes psicológicos na seleção de pessoal".

Como o médico trata a despersonalização?

O tratamento consiste em psicoterapia mais terapia medicamentosa para qualquer comorbidade9 como depressão e/ou ansiedade.

O tratamento da despersonalização/desrealização deve abordar todos os estresses associados ao início do transtorno, assim como estressores10 anteriores que possam ter predisposto os pacientes à despersonalização e/ou desrealização. Várias formas de psicoterapias têm sucesso em alguns pacientes. Por exemplo: técnicas cognitivas, técnicas comportamentais e terapia psicodinâmica. Vários fármacos foram utilizados, mas nenhum demonstrou eficácia decisiva.

Alguns pacientes parecem ser ajudados por inibidores de recaptura de serotonina, lamotrigina, antagonistas opioides, ansiolíticos e antidepressivos. Contudo, esses fármacos podem funcionar tendo como alvo outros transtornos mentais que costumam acompanhar a despersonalização, como a ansiedade e a depressão.

Como evolui em geral a despersonalização?

Pacientes com transtorno de despersonalização/desrealização geralmente melhoram após algum tempo, sem intervenção médica. A recuperação completa, sem sequelas11, é possível para a maioria dos pacientes, em especial se os sintomas3 resultaram de estresses tratáveis ou transitórios. Em poucos casos, a despersonalização e a desrealização se tornam mais crônicas e refratárias12, mas mesmo nestes casos os sintomas3 de despersonalização ou desrealização persistentes ou recorrentes podem causar apenas comprometimento leve.

Alguns poucos pacientes se tornam incapacitados pela sensação crônica de estranheza, pela ansiedade ou depressão associada ou por ambas.

Veja também sobre "Depressão bipolar e unipolar", "Antidepressivos", "Estresse" e "Esgotamento mental ou síndrome13 de Burnout".

 

Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas dos sites da Mayo Clinic e da Cleveland Clinic.

ABCMED, 2019. Despersonalização: parece que sou um observador externo da minha própria vida!. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/psicologia-e-psiquiatria/1351658/despersonalizacao-parece-que-sou-um-observador-externo-da-minha-propria-vida.htm>. Acesso em: 22 fev. 2020.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Sintoma: Qualquer alteração da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. O sintoma é a queixa relatada pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
2 Ilícitas: 1. Condenadas pela lei e/ou pela moral; proibidas, ilegais. 2. Qualidade das que não são legais ou moralmente aceitáveis; ilicitude.
3 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
4 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
5 Eminentemente: De modo eminente; em alto grau; acima de tudo.
6 Ressonância magnética: Exame que fornece imagens em alta definição dos órgãos internos do corpo através da utilização de um campo magnético.
7 Eletroencefalograma: Registro da atividade elétrica cerebral mediante a utilização de eletrodos cutâneos que recebem e amplificam os potenciais gerados em cada região encefálica.
8 Urina: Resíduo líquido produzido pela filtração renal no organismo, estocado na bexiga e expelido pelo ato de urinar.
9 Comorbidade: Coexistência de transtornos ou doenças.
10 Estressores: Que ou o que provoca ou conduz ao estresse.
11 Sequelas: 1. Na medicina, é a anomalia consequente a uma moléstia, da qual deriva direta ou indiretamente. 2. Ato ou efeito de seguir. 3. Grupo de pessoas que seguem o interesse de alguém; bando. 4. Efeito de uma causa; consequência, resultado. 5. Ato ou efeito de dar seguimento a algo que foi iniciado; sequência, continuação. 6. Sequência ou cadeia de fatos, coisas, objetos; série, sucessão. 7. Possibilidade de acompanhar a coisa onerada nas mãos de qualquer detentor e exercer sobre ela as prerrogativas de seu direito.
12 Refratárias: 1. Que resiste à ação física ou química. 2. Que resiste às leis ou a princípios de autoridade. 3. No sentido figurado, que não se ressente de ataques ou ações exteriores; insensível, indiferente, resistente. 4. Imune a certas doenças.
13 Síndrome: Conjunto de sinais e sintomas que se encontram associados a uma entidade conhecida ou não.
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