Gostou do artigo? Compartilhe!

Ciclotimia e suas diferenças em relação aos transtornos bipolares

A+ A- Alterar tamanho da letra
Avalie este artigo

O que é ciclotimia?

A ciclotimia, também conhecida como transtorno ciclotímico do humor, é um transtorno afetivo que faz parte do espectro dos transtornos bipolares, mas é considerado uma forma mais leve da doença. É caracterizada por oscilações espontâneas e recorrentes do humor que envolvem alterações entre episódios de leves depressões e leves exaltações do ânimo (hipomania), intercaladas por períodos de relativa normalidade.

Na ciclotimia os intervalos livres dessas oscilações não são maiores de dois meses. Essas oscilações de humor comprometem o modo como as pessoas exercem suas atividades do dia a dia, sem, contudo, torná-las inviáveis.

Quais são as causas da ciclotimia?

Não se conhece as causas específicas da ciclotimia, como da maioria dos transtornos mentais, mas ela é atribuída a uma associação de fatores: mudanças na neurobiologia cerebral, eventos ambientais, experiências traumáticas, períodos prolongados de estresse e fatores genéticos. Um histórico familiar de oscilações do humor aumenta a possibilidade de o paciente sofrer de ciclotimia.

Qual é o substrato fisiopatológico da ciclotimia?

Hoje em dia, tem se dado grande importância à química cerebral no que se refere aos transtornos de humor, incluída a ciclotimia. Estudos exaustivos e minuciosos têm sido feitos a respeito dos chamados neurotransmissores dopamina1, serotonina e noradrenalina2. Por exemplo, a depressão pode estar relacionada a níveis baixos de serotonina, enquanto a hipomania pode estar associada a níveis elevados de dopamina1.

Além disso, o sistema endócrino3 também parece desempenhar um papel na ciclotimia e os níveis hormonais, especialmente os hormônios relacionados ao estresse, podem afetar o humor e contribuir para a manifestação dos sintomas4. Fatores genéticos também estão presentes, embora não possam ser especificamente determinados.

Leia sobre "Distimia", "Transtorno bipolar do humor", "Depressões" e "Depressão maior".

Quais são as características clínicas da ciclotimia?

A ciclotimia pode ocorrer em qualquer idade, mas é mais comum entre os 13 e os 18 anos e as mulheres parecem ser mais afetadas que os homens. Os sintomas4 da ciclotimia podem incluir, durante os episódios de hipomania, períodos de:

  • humor eufórico;
  • otimismo excessivo;
  • aumento da energia;
  • pensamentos acelerados;
  • diminuição da necessidade de sono;
  • comportamentos impulsivos;
  • entre outros.

Em contraste, durante os episódios de depressão leve, os indivíduos podem apresentar:

  • sentimentos de tristeza;
  • desesperança;
  • baixa energia;
  • perda de interesse em atividades cotidianas;
  • e dificuldade em tomar decisões.

Alguns pacientes podem experimentar “períodos mistos”, durante os quais sintomas4 hipomaníacos e depressivos ocorrem combinadamente, se alternando de uma maneira muito rápida.

Como o médico diagnostica a ciclotimia?

Não existe um exame objetivo que diagnostique a ciclotimia. O diagnóstico5 é estabelecido clinicamente por um psicólogo ou médico psiquiatra com base nos sintomas4 relatados pelo paciente ou seus familiares. A ciclotimia e o transtorno bipolar são distúrbios que fazem parte do espectro das doenças afetivas, mas são distintos e necessitam ser diferenciados.

Diferenças entre a ciclotimia e os transtornos bipolares

A ciclotimia e o transtorno bipolar diferem entre si em intensidade, duração, caracterização sintomática6 e impacto funcional. A ciclotimia é considerada uma forma mais leve de variação do humor, embora não haja uma divisória nítida entre ambos. O transtorno bipolar é mais grave e caracteriza-se por episódios distintos de mania (grande exaltação do humor) e depressão maior.

Cada uma das oscilações de humor na ciclotimia dura um tempo curto. No transtorno bipolar, a duração espontânea dos episódios pode se estender por meses. Enquanto os intervalos livres podem durar anos no transtorno bipolar, não superam dois meses em pacientes ciclotímicos. Em ambos os casos, o distúrbio total pode durar pela vida inteira.

Durante as oscilações de humor, pacientes ciclotímicos conservam uma ideação normal em relação à realidade enquanto nas fases maníacas dos transtornos bipolares a ideação se torna extravagante e até mesmo delirante, muitas vezes fugindo ao contato com a realidade. Além do mais, os pacientes exibem grande expansividade, irritabilidade, hiperatividade, diminuição da necessidade de sono, pensamentos acelerados e comportamentos de risco. Nas fases depressivas maiores seus sintomas4 são mais corporificados e caracterizados por tristeza profunda, perda de interesse, alterações no apetite e sono, sentimentos de desesperança e possível ideação suicida e cometimento do suicídio.

Durante os períodos de ciclotimia, os indivíduos podem ter pouca ou nenhuma interrupção significativa em seu funcionamento social ou ocupacional, enquanto ela pode ser máxima nos casos de transtorno bipolar e inclusive inabilitar a pessoa para quaisquer atividades sociais.

Como o médico trata a ciclotimia?

Muitas vezes, o transtorno ciclotímico é tão leve que o paciente nem recorre ao médico, só o fazendo naqueles casos mais incomodativos. O transtorno ciclotímico não tem cura, mas os sintomas4 podem ser tratados tanto por meios psicológicos (psicoterapias) quanto médicos, com uso de medicamentos, visando reduzir os sintomas4, prevenir o retorno deles e evitar que se desenvolva para transtorno bipolar.

A psicoterapia ajuda o paciente a lidar de maneira saudável com suas emoções exaltadas ou depressivas. Os medicamentos (estabilizadores do humor, ansiolíticos e antipsicóticos leves) ajudam a controlar as oscilações e conseguir uma melhor estabilização do humor. O tratamento deve ser continuado durante toda a vida mesmo nos períodos de aparente remissão, pelo risco de que a enfermidade volte a incidir.

A compreensão de familiares e amigos é muito importante e o esclarecimento deles sobre o transtorno deve ser oferecido para evitar julgamentos e atitudes que possam prejudicar ainda mais o paciente. 

Como evolui a ciclotimia?

Não se sabe quantas pessoas desenvolvem seus sintomas4 para uma desordem bipolar, mas muitas veem seus distúrbios hipomaníacos ou depressivos piorarem durante a vida. Em outras pessoas, o processo parece estabilizar-se e elas têm de conviver com a condição pelo resto de suas vidas.

Quais são as complicações possíveis com a ciclotimia?

Não tratada, a ciclotimia pode resultar em problemas que afetem a vida diária do paciente e um risco maior de desenvolver transtorno bipolar. O uso de substâncias viciantes é também comum, além de que o paciente pode ter transtornos de ansiedade e ter um risco aumentado de ideação suicida e suicídio verdadeiro.

Saiba mais sobre "Depressão em crianças", "Personalidade borderline",  "Surto psicótico" e "Suicídio na adolescência".

 

Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da Mayo Clinic e da Cleveland Clinic.

ABCMED, 2023. Ciclotimia e suas diferenças em relação aos transtornos bipolares. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/psicologia-e-psiquiatria/1460240/ciclotimia-e-suas-diferencas-em-relacao-aos-transtornos-bipolares.htm>. Acesso em: 25 fev. 2024.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Dopamina: É um mediador químico presente nas glândulas suprarrenais, indispensável para a atividade normal do cérebro.
2 Noradrenalina: Mediador químico do grupo das catecolaminas, liberado pelas fibras nervosas simpáticas, precursor da adrenalina na parte interna das cápsulas das glândulas suprarrenais.
3 Sistema Endócrino: Sistema de glândulas que liberam sua secreção (hormônios) diretamente no sistema circulatório. Em adição às GLÂNDULAS ENDÓCRINAS, o SISTEMA CROMAFIM e os SISTEMAS NEUROSSECRETORES estão inclusos.
4 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
5 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
6 Sintomática: 1. Relativo a ou que constitui sintoma. 2. Que é efeito de alguma doença. 3. Por extensão de sentido, é o que indica um particular estado de coisas, de espírito; revelador, significativo.
Gostou do artigo? Compartilhe!

Pergunte diretamente a um especialista

Sua pergunta será enviada aos especialistas do CatalogoMed, veja as dúvidas já respondidas.