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Inércia do sono

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O que é inércia do sono?

Comportamentalmente, a inércia do sono é um estado fisiológico1 de desempenho cognitivo2 e sensório-motor prejudicado que está presente imediatamente após o despertar. É aquela situação em que popularmente costuma-se dizer que a pessoa “ainda não acordou completamente”. Ocorre na transição do sono para a vigília, período no qual o indivíduo ainda está meio grogue e experimenta sentimentos de sonolência, desorientação e declínio da destreza motora.

O comprometimento da inércia do sono pode levar várias horas para se dissipar, mas na maioria dos casos ela é experimentada por 15 a 30 minutos após o despertar. A inércia do sono é preocupante quando a pessoa tem que tomar decisões ou operar tarefas críticas logo após o despertar. Nessas situações, representa um risco ocupacional devido aos déficits cognitivos3 e motores que podem estar presentes. No entanto, a inércia do sono não é uma doença e, na maioria das vezes e para a maioria das pessoas, é uma parte normal da vida e não há nada com o que se preocupar.

Fisiologia4 da inércia do sono

Desde a década de 60, sabe-se que o dormir é um processo que se realiza por ciclos. Após os estágios eletroencefalográficos nomeados de I, II, III e IV, ocorre uma fase do sono chamada sono R.E.M. (Rapid Eyes Moviments), completando um ciclo de sono. Após isso, se reinicia um novo ciclo. Cada um deles dura cerca de 90 minutos e a pessoa sadia faz 4 a 6 desses ciclos a cada noite de sono normal.

Ao final de cada ciclo, há um leve e rápido despertar, do qual o próprio sujeito pode não chegar a se dar conta. É aquela situação notada por quem observa o dorminte, que ele se mexe na cama, podendo chegar mesmo a se sentar, rumina algo, ajeita as cobertas e volta a dormir, sem lembrar de nada na manhã seguinte.

Para que uma pessoa sinta que teve uma noite de sono satisfatória, ela precisa cumprir regular e completamente cada um dos ciclos do sono. Se uma pessoa acordar espontaneamente, sempre acordará ao fim de um desses ciclos, plenamente vigil. Se acordar por algum estímulo externo (um despertador, por exemplo), ela pode acordar em meio a um dos seus estágios, ainda meio grogue. A isso se denomina inércia do sono.

Saiba mais sobre "Ciclos do sono", "Distúrbios do sono" e "Insônia".

Quais são as causas da inércia do sono?

Se alguém foi muito privado de sono ou foi acordado de um estágio de sono profundo, a inércia do sono pode ser mais grave do que o normal e pode levar mais tempo para ser superada. A privação anterior de sono aumenta a porcentagem de tempo gasto em sono de ondas lentas e, portanto, um indivíduo que foi anteriormente privado do sono tem uma maior chance de sentir inércia do sono.

Estudos mostraram que o despertar abrupto durante o sono do estágio 3 produz mais inércia do sono do que o despertar durante os estágios 1 e 2. Quimicamente, os níveis de adenosina no cérebro5 aumentam progressivamente com a privação do sono e retornam ao normal durante o sono. Ao despertar antes de concluir um ciclo de sono, grandes quantidades de adenosina serão ligadas a receptores no cérebro5, a atividade neural diminui e uma sensação de cansaço estará presente, como resultado. Ao acordar, os indivíduos mostram uma falta de fluxo sanguíneo para o cérebro5. Os níveis de fluxo sanguíneo cerebral e a velocidade dele levarão até 30 minutos para aumentar e atingir os níveis diurnos normais, e isso contribui para a inércia do sono.

Quais são as principais características clínicas da inércia do sono?

Os sintomas6 mais comuns da inércia do sono são torpor7, definido como um estado de sonolência ou desorientação, no qual há um amortecimento da acuidade sensorial, do processamento mental, destreza motora prejudicada e diminuição da capacidade cognitiva8, com aumento associado no tempo de reação e queda na atenção. Há também déficits na memória espacial e relatos de fadiga9 subjetiva aumentada.

Estes sintomas6 são expressos com a maior intensidade imediatamente após o despertar e se dissipam após um tempo. A duração dos sintomas6 é de 15 a 30-60 minutos após o acordar, potencialmente se estendendo por várias horas. As tarefas que requeiram operações cognitivas complexas terão déficits maiores que uma tarefa motora simples. É comum que haja mudanças de humor, tornando a pessoa mais irritada e intolerante.

Como se reconhece a inércia do sono?

O meio principal de reconhecer a inércia do sono é pelo relato da própria pessoa e pela observação de seus desempenhos. Para medir as deficiências cognitivas e motoras associadas à inércia do sono, uma bateria de testes pode ser utilizada, incluindo tarefa de vigilância psicomotora10, tarefa de subtração descendente, tarefa de tempo de reação auditiva e tarefa de toque de dedo.

Leia sobre "Apneia11 do sono", "Sono dos bebês12 e crianças" e "Solilóquio — falar dormindo".

Como manejar a inércia do sono?

Na maioria das pessoas a solução consiste em dar tempo para que a inércia do sono desapareça por si. É importante combater a inércia do sono naquelas pessoas que ao serem acordadas devem responder imediatamente a uma chamada. A inércia do sono pode representar um risco à segurança no trabalho. Alguns métodos têm sido sugeridos para combater a inércia do sono:

Tirar um cochilo

Quando uma pessoa é privada de sono, re-entrar nele pode reduzir a fadiga9 mental e física, mas também pode induzir mais inércia do sono. O início do sono de ondas lentas (sono profundo) ocorre aproximadamente 30 minutos após o adormecimento; portanto, um cochilo deve ser limitado a menos de 30 minutos para evitar que a vigília retorne durante o sono de ondas lentas e assim melhorar a inércia do sono. Além disso, o despertar espontâneo de um cochilo curto alivia a desorientação da inércia do sono de um despertar forçado.

Cafeína

A cafeína presente no café ou no chá bloqueia os receptores de adenosina no cérebro5; ao fazer isso, limita os efeitos dela no cérebro5 e aumenta o estado de alerta e a atenção. Pesquisas mostraram que, associada a um cochilo curto, o consumo de cafeína antes do cochilo pode aliviar os efeitos da inércia do sono. No entanto, o grau individual de consumo e tolerância à cafeína pode ser responsável pela variação na sua eficácia em reduzir os sintomas6 de inércia do sono.

Luz leve

A luz natural fornecida pelo nascer do sol da manhã pode contribuir para uma redução dos efeitos da inércia do sono. Pesquisas que simulam o aumento da luz ao amanhecer mostraram que ela potencializa a resposta do cortisol ao despertar, o qual está associado ao retorno a um estado cognitivo13 alerta.

Outros estímulos

Alguns outros estímulos que poderiam minimizar os efeitos da inércia do sono são o som e a temperatura. Há evidências de que a presença de sons leves (música, por exemplo) e uma diminuição acentuada na temperatura das extremidades podem reverter os sintomas6 de inércia do sono. Acredita-se que o ruído aumente a atenção ao despertar.

Veja também sobre "Privação do sono", "Polissonografia14,  e "Hipersonia".

 

ABCMED, 2019. Inércia do sono. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/sinais.-sintomas-e-doencas/1335018/inercia+do+sono.htm>. Acesso em: 16 set. 2019.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Fisiológico: Relativo à fisiologia. A fisiologia é estudo das funções e do funcionamento normal dos seres vivos, especialmente dos processos físico-químicos que ocorrem nas células, tecidos, órgãos e sistemas dos seres vivos sadios.
2 Desempenho cognitivo: Desempenho dos processos de aprendizagem e de aquisição de conhecimento através da percepção.
3 Cognitivos: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
4 Fisiologia: Estudo das funções e do funcionamento normal dos seres vivos, especialmente dos processos físico-químicos que ocorrem nas células, tecidos, órgãos e sistemas dos seres vivos sadios.
5 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
6 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
7 Torpor: 1. Sentimento de mal-estar caracterizado pela diminuição da sensibilidade e do movimento; entorpecimento, estupor, insensibilidade. 2. Indiferença ou apatia moral; indolência, prostração. 3. Na medicina, ausência de reação a estímulos de intensidade normal.
8 Cognitiva: 1. Relativa ao conhecimento, à cognição. 2. Relativa ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
9 Fadiga: 1. Sensação de enfraquecimento resultante de esforço físico. 2. Trabalho cansativo. 3. Redução gradual da resistência de um material ou da sensibilidade de um equipamento devido ao uso continuado.
10 Psicomotora: Própria ou referente a qualquer resposta que envolva aspectos motores e psíquicos, tais como os movimentos corporais governados pela mente.
11 Apnéia: É uma parada respiratória provocada pelo colabamento total das paredes da faringe que ocorre principalmente enquanto a pessoa está dormindo e roncando. No adulto, considera-se apnéia após 10 segundos de parada respiratória. Como a criança tem uma reserva menor, às vezes, depois de dois ou três segundos, o sangue já se empobrece de oxigênio.
12 Bebês: Lactentes. Inclui o período neonatal e se estende até 1 ano de idade (12 meses).
13 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
14 Polissonografia: Exame utilizado na avaliação de algumas das causas de insônia.
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