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Ciclos do sono

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O que é o sono?

O sono é um estado ordinário de consciência, transitório e reversível, em que há suspensão temporária da atividade perceptivo-sensorial e motora voluntária, que se alterna com a vigília. O estado de sono é caracterizado por um padrão de ondas elétricas cerebrais diferentes do padrão que caracteriza o estado de vigília e dos demais estados de consciência.

Dormir, nesta acepção, significa passar do estado de vigília para o estado de sono. Antigamente pensava-se que o sono era um processo contínuo, começando no adormecer e terminando no despertar. Hoje em dia, graças em parte ao EEG (eletroencefalograma1), sabe-se que se trata de um processo que se passa em ciclos, envolvendo múltiplos e complexos mecanismos fisiológicos e comportamentais.

Saiba mais sobre "Como é o sono" e "Eletroencefalograma1".

O que são os ciclos do sono?

No ser humano o sono é formado por ciclos de quatro estágios que duram de 70 a 110 minutos (média de 90 minutos) cada um e que se repetem quatro ou cinco vezes durante uma noite de sono de oito horas. Os fins e os mecanismos do sono ainda não são inteiramente claros para a ciência, mas têm sido objeto de intensas investigações recentes muito reveladoras.

No sono podem ser identificados no EEG dois estados distintos: (1) o sono dito de ondas lentas ou sono não REM (NREM), e (2) o sono de ondas cerebrais rápidas ou sono REM.

O sono não REM é dividido em três fases ou estágios, segundo a progressão da sua profundidade.

Já o sono REM caracteriza-se pela atividade cerebral de baixa amplitude e mais rápida, por episódios de movimentos oculares rápidos (donde sua denominação em inglês de REM (rapid eyes moviments) e de relaxamento muscular máximo. Além disso, este estágio também se caracteriza por ser a fase onde ocorrem os sonhos. O sono REM é também chamado sonho paradoxal2, uma vez que o traçado eletroencefalográfico está muito próximo ao traçado de vigília, embora o indivíduo esteja profundamente adormecido no sentido comportamental.

Como se formam os ciclos do sono?

O sono NREM e o sono REM alternam-se ciclicamente ao longo da noite. Normalmente o sono NREM concentra-se na primeira parte da noite, enquanto o sono REM predomina na segunda parte. A distribuição dos estágios de sono durante a noite pode ser alterada por vários fatores, como idade, ritmo circadiano3, temperatura ambiente, ingestão de drogas ou por determinadas doenças.

De um modo geral, o sono se destina à recuperação pelo organismo de um possível débito energético estabelecido durante a vigília. Além dessa, outras funções são atribuídas, especialmente ao sono REM, tais como manutenção do equilíbrio geral do organismo, das substâncias químicas no cérebro4 que regulam o ciclo vigília-sono, consolidação da memória, regulação da temperatura corporal, dentre outras. 

Leia sobre "Melatonina", "Perda de memória" e "Temperatura corporal".

Quais são as fases do sono?

Durante o sono, o indivíduo passa por ciclos repetitivos, começando pelo estágio N1 e progredindo até o estágio N3 do sono NREM, regride para o estágio N2, e entra em sono REM. Volta de novo ao estágio N2 e assim repete novamente durante todo o tempo do sono.

Nos primeiros ciclos do sono, os períodos de NREM têm uma duração maior que o período REM. À medida que o sono vai progredindo, o estágio N3 começa a encurtar e o período REM começa a aumentar. O sono NREM ocupa cerca de 75% do tempo do sono e divide-se em três períodos distintos conhecidos como estágios N1, N2 e N3.

  1. O estágio N1 começa com uma sonolência. Dura aproximadamente cinco minutos e é caracterizado por um EEG semelhante ao do estado de vigília, sendo o indivíduo facilmente despertável.
  2. O estágio N2 caracteriza-se pelo fato de o indivíduo já dormir, porém não profundamente. O EEG mostra frequências de ondas mais lentas e o estágio dura cerca de cinco a quinze minutos. Nessa fase, o despertar mediante estímulos é mais difícil do que no estágio anterior. Aqui a atividade onírica já pode surgir sob a forma de sonho com uma história mais bem integrada.
  3. O estágio N3 tem a duração de cerca de quinze a vinte minutos, inicialmente, seguidos por quarenta minutos de sono profundo. É muito mais difícil acordar alguém nessa fase de sono. Depois, a pessoa retorna ao início do terceiro estágio (por cinco minutos) e ao segundo estágio (por mais quinze minutos) e então entra no sono REM.

Nos estágios NREM do sono, verifica-se a secreção de grandes quantidades do hormônio5 do crescimento, promovendo o crescimento e reparação tecidual. O sono NREM tem, pois, um papel anabólico, sendo essencialmente um período de conservação e recuperação de energia física.

O sono REM tem características especiais e típicas. Caracteriza-se por uma intensa atividade registrada no EEG, seguida por flacidez e paralisia6 funcional dos músculos7 esqueléticos. Nesta fase, a atividade cerebral é semelhante à do estado de vigília, embora o indivíduo esteja profundamente adormecido. Por isso, o sono REM é também denominado por vários autores como sono paradoxal2.

Nesta fase do sono, a atividade onírica é intensa, sendo sobretudo sonhos envolvendo situações emocionalmente muito fortes. Essa fase representa 20 a 25% do tempo total de sono e surge em intervalos de sessenta a noventa minutos. É essencial para o bem-estar físico e psicológico do indivíduo.

Durante essa fase ocorre maior consumo de oxigênio pelo cérebro4, aumento do tônus muscular8, da temperatura corporal e da pressão arterial9, ereção10 peniana e, regularmente um movimento rápido dos olhos11, horizontalmente e de forma conjugada, entre outros fenômenos positivos, demonstrando ser essa uma fase de grande atividade fisiológica12. Quando, por qualquer motivo, o indivíduo é privado do sono REM, ele tende a ser compensado nas noites seguintes, por maiores extensões de sua duração.

Veja também sobre "Insônia", "Pavor noturno", "Distúrbios do sono" e "Polissonografia13".

 

ABCMED, 2017. Ciclos do sono. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/vida-saudavel/1305553/ciclos+do+sono.htm>. Acesso em: 24 abr. 2019.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Eletroencefalograma: Registro da atividade elétrica cerebral mediante a utilização de eletrodos cutâneos que recebem e amplificam os potenciais gerados em cada região encefálica.
2 Paradoxal: Que contém ou se baseia em paradoxo(s), que aprecia paradoxo(s). Paradoxo é o pensamento, proposição ou argumento que contraria os princípios básicos e gerais que costumam orientar o pensamento humano, ou desafia a opinião consabida, a crença ordinária e compartilhada pela maioria. É a aparente falta de nexo ou de lógica; contradição.
3 Ritmo circadiano: Também conhecido como ciclo circadiano, o ritmo circadiano representa o período de um dia (24 horas) no qual se completam as atividades do ciclo biológico dos seres vivos. Uma das funções deste sistema é o ajuste do relógio biológico, controlando o sono e o apetite. Através de um marca-passo interno que se encontra no cérebro, o ritmo circadiano regula tanto os ritmos materiais quanto os psicológicos, o que pode influenciar em atividade como: digestão em vigília, renovação de células e controle de temperatura corporal.
4 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
5 Hormônio: Substância química produzida por uma parte do corpo e liberada no sangue para desencadear ou regular funções particulares do organismo. Por exemplo, a insulina é um hormônio produzido pelo pâncreas que diz a outras células quando usar a glicose para energia. Hormônios sintéticos, usados como medicamentos, podem ser semelhantes ou diferentes daqueles produzidos pelo organismo.
6 Paralisia: Perda total da força muscular que produz incapacidade para realizar movimentos nos setores afetados. Pode ser produzida por doença neurológica, muscular, tóxica, metabólica ou ser uma combinação das mesmas.
7 Músculos: Tecidos contráteis que produzem movimentos nos animais.
8 Tônus muscular: Estado de tensão elástica (contração ligeira) que o músculo apresenta em repouso e que lhe permite iniciar a contração imediatamente depois de receber o impulso dos centros nervosos. Num estado de relaxamento completo (sem tônus), o músculo levaria mais tempo para iniciar a contração.
9 Pressão arterial: A relação que define a pressão arterial é o produto do fluxo sanguíneo pela resistência. Considerando-se a circulação como um todo, o fluxo total é denominado débito cardíaco, enquanto a resistência é denominada de resistência vascular periférica total.
10 Ereção: 1. Ato ou efeito de erigir ou erguer. 2. Inauguração, criação. 3. Levantamento ou endurecimento do pênis.
11 Olhos:
12 Fisiológica: Relativo à fisiologia. A fisiologia é estudo das funções e do funcionamento normal dos seres vivos, especialmente dos processos físico-químicos que ocorrem nas células, tecidos, órgãos e sistemas dos seres vivos sadios.
13 Polissonografia: Exame utilizado na avaliação de algumas das causas de insônia.
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