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Síndrome de Ganser – como ela é?

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O que é a síndrome1 de Ganser?

Síndrome1 de Ganser, pseudodemência histérica ou psicose2 da prisão é uma condição rara e controversa em que há uma simulação de transtorno dissociativo com sintomas3 psiquiátricos severos, exuberantes e inusitados. Durante o exame desses pacientes é comum respostas incoerentes, movimentos de intimidação e discurso despropositado com objetivo de convencer o observador de que ele está de fato louco.

A síndrome1 de Ganser foi originalmente descrita pelo psiquiatra Sigbert Ganser, em 1897, em prisioneiros alemães, o qual a considerou como fazendo parte do espectro dos transtornos histéricos.

Qual é a causa da síndrome1 de Ganser?

As questões etiológicas nunca foram definitivamente resolvidas para a síndrome1 de Ganser. Pouco se sabe sobre as motivações desse distúrbio incomum, mas acredita-se que ele seja pelo menos potencializado por um estresse extremo. Outro fator que pode contribuir para a eclosão da síndrome1 de Ganser é o desejo de esquivar-se de alguma responsabilidade ou uma situação desagradável.

Existem também problemas físicos que podem causar os sintomas3 dessa síndrome1, como o alcoolismo, traumatismo4 craniano e o derrame5 cerebral. A maioria das pessoas com essa condição também tem um distúrbio de personalidade antissocial ou histriônica. Ganser a via como uma forma de "histeria crepuscular", enquanto outros sugeriam que seria fingimento, psicose2 ou dissociação.

A síndrome1 de Ganser pode ocorrer também em pessoas com outros transtornos mentais, como esquizofrenia6, transtornos depressivos, estados tóxicos, paresias e transtornos factícios (sintomas3 físicos ou psicológicos intencionalmente produzidos ou simulados com o fim de assumir o papel de doente).

Um enigma central da síndrome1 de Ganser é se ela poderia ser simultaneamente uma representação cultural e patológica da loucura, enquanto fatores cognitivos7, orgânicos, afetivos, motivacionais e sociais convergiriam para uma ideia ingênua de como deveria ser a doença mental, especialmente através do fornecimento de respostas aproximadas.

Saiba mais sobre "Transtornos dissociativos", "Histeria" e "Personalidade histriônica".

Qual é o substrato fisiológico8 da síndrome1 de Ganser?

Existem várias teorias sobre qual a condição subjacente à da síndrome1 de Ganser e que a torna possível. Anteriormente, ela foi classificada como um distúrbio factício, mas o DSM-IV a colocou como um distúrbio dissociativo.

Há quem postule uma correlação entre as respostas aproximadas da síndrome1 e amnésia9, sugerindo que ambas possuem também um mecanismo dissociativo subjacente. Muitos associam os transtornos dissociativos à histeria, psicose2, conversão, personalidade múltipla e possíveis fingimentos. Apesar disso, a condição permanece em questão devido a associações dela a distúrbios psiquiátricos estabelecidos, bem como a estados orgânicos. Há ainda os que consideram que a síndrome1 de Ganser é uma doença em si, fundamentalmente psicótica, enquanto outros a consideram um distúrbio histérico. 

Quais são as características clínicas da síndrome1 de Ganser?

Pessoas com síndrome1 de Ganser apresentam episódios curtos de comportamento estranho, semelhantes aos mostrados por pessoas com outras doenças mentais graves. A pessoa pode parecer confusa, fazer declarações absurdas e relatar alucinações10, como a experiência de sentir coisas que não existem ou ouvir vozes.

Um sintoma11 clássico da síndrome1 é quando a pessoa dá respostas sem sentido a perguntas simples. Por exemplo, perguntado quantas pernas um cavalo possui, os pacientes de Ganser responderão, por exemplo, "5". Além disso, uma pessoa com essa condição pode relatar problemas físicos, como a incapacidade de mover parte do corpo, chamada "paralisia12 histérica", perda de memória subsequente ao episódio, “turvação da consciência", distúrbio de conversão somatiforme, alucinações10, recuperação súbita e espontânea, amnésia9, experiência psicossocial traumática pré-mórbida e/ou traumatismo4 craniano.

Como o médico diagnostica a síndrome1 de Ganser?

O diagnóstico13 é sempre desafiador, não apenas porque há alguma desonestidade por parte do paciente, mas também porque ela é muito rara. Psiquiatras e psicólogos usam entrevistas e ferramentas de avaliação especialmente projetadas para avaliar uma pessoa para um distúrbio factício.

O médico baseia seu diagnóstico13 na exclusão de doenças físicas ou mentais reais e na observação da atitude e do comportamento do paciente. Além disso, devem descartar possíveis problemas físicos, como acidente vascular cerebral14 ou traumatismo4 craniano como causa dos sintomas3, antes de considerar o diagnóstico13 da síndrome1 de Ganser.

Alguns dados clínicos podem ajudar a diferenciar a síndrome1 de Ganser de uma verdadeira doença mental:

  1. Os episódios da síndrome1 de Ganser geralmente são transitórios.
  2. Episódios estão ligados a alguma situação estressante (a síndrome1 foi descrita em prisioneiros alemães que aguardavam julgamento).
  3. O paciente demonstra entender a pergunta (o que acostuma não acontecer com o doente mental verdadeiro), embora forneça uma resposta errada. Por exemplo: para a pergunta "quanto são 2 + 2?" oferece a resposta "5!".
  4. Geralmente o paciente da síndrome1 de Ganser age de maneira adequada com relação à realidade, o que não acontece com o verdadeiro doente mental.
  5. Nas doenças mentais em geral há lucidez da consciência enquanto a síndrome1 de Ganser parece transcorrer num estado dissociativo da consciência.

A diferença entre a simulação e a síndrome1 de Ganser está em que a simulação é uma imitação voluntária e consciente, enquanto a síndrome1 de Ganser é um distúrbio inconsciente ou, pelo menos, semi-inconsciente, em que o paciente procura parecer doente e não imitar uma doença mental específica.

Como o médico trata a síndrome1 de Ganser?

Em muitos casos, os sintomas3 parecem diminuir depois de alguns dias e os pacientes ficam com amnésia9 do período do episódio. A hospitalização pode ser necessária durante a fase aguda dos sintomas3 e o atendimento psiquiátrico, se o paciente representar um perigo para si próprio ou para os outros, faz-se necessário. Uma consulta neurológica é aconselhada para descartar qualquer causa orgânica. A psicoterapia também pode ser recomendada para garantir e manter a segurança.

Os pacientes com síndrome1 de Ganser se recuperam rápida e completamente. Como a síndrome1 pode ser uma resposta à deterioração psíquica, sua resolução pode ser seguida por outros sintomas3 psiquiátricos, como esquizofrenia6 e depressão, daí a lógica por trás da recomendação da psicoterapia. Medicação não é necessária na maioria dos casos.

Como evolui a síndrome1 de Ganser?

É difícil prever quando os sintomas3 da síndrome1 de Ganser provavelmente desaparecerão. Isso ocorre em parte porque as pessoas apresentam sintomas3 falsos, não apenas em resposta a um evento estressante, mas porque a condição geralmente reflete a capacidade limitada de alguém de lidar efetivamente com o estresse quando ele ocorre.

Leia sobre "Estresse", "Histeria conversiva" e "Saúde15 mental".

 

Referências:

Referências: As informações veiculadas neste texto foram extraídas dos sites da Sciense Direct e da U.S. National Library of Medicine.

ABCMED, 2020. Síndrome de Ganser – como ela é?. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/psicologia-e-psiquiatria/1366948/sindrome-de-ganser-como-ela-e.htm>. Acesso em: 24 out. 2020.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Síndrome: Conjunto de sinais e sintomas que se encontram associados a uma entidade conhecida ou não.
2 Psicose: Grupo de doenças psiquiátricas caracterizadas pela incapacidade de avaliar corretamente a realidade. A pessoa psicótica reestrutura sua concepção de realidade em torno de uma idéia delirante, sem ter consciência de sua doença.
3 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
4 Traumatismo: Lesão produzida pela ação de um agente vulnerante físico, químico ou biológico e etc. sobre uma ou várias partes do organismo.
5 Derrame: Conhecido popularmente como derrame cerebral, o acidente vascular cerebral (AVC) ou encefálico é uma doença que consiste na interrupção súbita do suprimento de sangue com oxigênio e nutrientes para o cérebro, lesando células nervosas, o que pode resultar em graves conseqüências, como inabilidade para falar ou mover partes do corpo. Há dois tipos de derrame, o isquêmico e o hemorrágico.
6 Esquizofrenia: Doença mental do grupo das Psicoses, caracterizada por alterações emocionais, de conduta e intelectuais, caracterizadas por uma relação pobre com o meio social, desorganização do pensamento, alucinações auditivas, etc.
7 Cognitivos: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
8 Fisiológico: Relativo à fisiologia. A fisiologia é estudo das funções e do funcionamento normal dos seres vivos, especialmente dos processos físico-químicos que ocorrem nas células, tecidos, órgãos e sistemas dos seres vivos sadios.
9 Amnésia: Perda parcial ou total da memória.
10 Alucinações: Perturbações mentais que se caracterizam pelo aparecimento de sensações (visuais, auditivas, etc.) atribuídas a causas objetivas que, na realidade, inexistem; sensações sem objeto. Impressões ou noções falsas, sem fundamento na realidade; devaneios, delírios, enganos, ilusões.
11 Sintoma: Qualquer alteração da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. O sintoma é a queixa relatada pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
12 Paralisia: Perda total da força muscular que produz incapacidade para realizar movimentos nos setores afetados. Pode ser produzida por doença neurológica, muscular, tóxica, metabólica ou ser uma combinação das mesmas.
13 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
14 Acidente vascular cerebral: Conhecido popularmente como derrame cerebral, o acidente vascular cerebral (AVC) ou encefálico é uma doença que consiste na interrupção súbita do suprimento de sangue com oxigênio e nutrientes para o cérebro, lesando células nervosas, o que pode resultar em graves conseqüências, como inabilidade para falar ou mover partes do corpo. Há dois tipos de derrame, o isquêmico e o hemorrágico.
15 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
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