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A ciência por trás do vínculo com animais

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Sobre o elo emocional com animais domésticos

O vínculo entre humanos e animais domésticos é uma das conexões mais profundas e universais da experiência humana. Desde os primórdios da civilização, os animais têm desempenhado papéis essenciais na vida das pessoas, seja como companheiros, aliados de trabalho ou símbolos culturais. No entanto, o elo emocional que as pessoas desenvolvem com eles vai muito além das utilidades práticas, revelando uma dimensão singular de afeto, empatia e conexão espiritual.

Esse laço, muitas vezes inexplicável, é construído sobre alicerces de confiança, cuidado mútuo e uma compreensão instintiva que ultrapassa as barreiras de linguagem e espécie. Assim, compreender esse elo envolve analisar suas raízes históricas, os benefícios psicológicos e sociais que proporciona, os desafios éticos que impõe e a forma como reflete aspectos profundos da nossa humanidade.

Raízes históricas do vínculo com animais

A relação entre humanos e animais remonta a milhares de anos. Evidências arqueológicas sugerem que os primeiros cães foram domesticados há cerca de 20.000 a 40.000 anos, provavelmente como resultado de uma parceria simbiótica: humanos ofereciam restos de comida, enquanto lobos1, predecessores dos cães, proporcionavam proteção e ajuda na caça. Essa convivência inicial não era apenas funcional, mas também lançou as bases para um apego afetivo.

Pinturas rupestres, como as encontradas em cavernas europeias, retratam animais não apenas como presas, mas como figuras reverenciadas, sugerindo que nossos antepassados viam neles não apenas recursos, mas também espíritos, aliados ou membros simbólicos da comunidade.

Ao longo dos séculos, os animais assumiram diferentes funções nas sociedades humanas, desde cavalos que transportavam guerreiros até gatos venerados no Egito Antigo como protetores espirituais. Essa coexistência prolongada moldou nossa capacidade de estabelecer vínculos afetivos com outras espécies.

Na contemporaneidade, cães, gatos, pássaros e até répteis tornaram-se parte das famílias, muitas vezes preenchendo lacunas emocionais em um mundo marcado pelo isolamento social.

A natureza do elo emocional

A força desse vínculo parece residir na autenticidade da relação. Diferentemente das interações humanas, frequentemente permeadas por mal-entendidos, expectativas ou conflitos, o relacionamento com um animal costuma ser desprovido de julgamento. Um cão não se importa com sua aparência, status social ou erros passados; ele responde ao afeto com lealdade incondicional. Um gato pode oferecer companhia silenciosa, transmitindo conforto sem exigir nada além de cuidado básico. Essa reciprocidade cria um espaço seguro para a expressão emocional, especialmente em momentos de vulnerabilidade.

Pesquisas em psicologia e neurociência demonstram que a interação com animais desencadeia a liberação de ocitocina2 (hormônio3 associado ao vínculo e à sensação de bem-estar) tanto em humanos quanto em animais. Ao acariciar um cão ou trocar olhares com um gato, o cérebro4 responde de forma semelhante à observada em interações com entes queridos. Isso explica por que tantas pessoas descrevem seus animais de estimação como “melhores amigos” ou até “filhos”.

Além disso, muitos animais demonstram sensibilidade às emoções humanas: cães, por exemplo, podem perceber tristeza ou ansiedade em seus tutores e reagir com gestos de conforto, como deitar-se ao lado ou lamber o rosto.

Benefícios psicológicos e sociais

O elo com animais oferece benefícios amplos à saúde5 mental e física. Estudos mostram que a convivência com animais de estimação pode reduzir o estresse, baixar a pressão arterial6 e melhorar a saúde5 cardiovascular. Em pessoas com ansiedade, depressão ou estresse pós-traumático, a presença de um animal pode ter efeito terapêutico. Programas de terapia assistida por animais, com cães, cavalos e outros, têm se mostrado eficazes em hospitais, escolas e centros de reabilitação, contribuindo para a melhora da comunicação, autoestima e resiliência emocional.

Animais também atuam como facilitadores sociais: passear com um cão pode estimular conversas com desconhecidos, criando oportunidades de interação que talvez não ocorreriam espontaneamente.

Para idosos, crianças ou pessoas que vivem sozinhas, um animal oferece propósito e rotina, ajudando a combater a solidão. Durante a pandemia7 de Covid-19, por exemplo, muitos relataram que seus animais foram fundamentais para enfrentar o isolamento e a incerteza.

O uso de animais na terapia

Os benefícios desse elo inspiraram a chamada terapia assistida por animais, ou pet terapia, abordagem que utiliza a interação com animais treinados para promover saúde5 física, mental e emocional. Essa prática tem se mostrado eficaz em diferentes contextos, auxiliando na redução do estresse, melhora do humor e até diminuição do tempo de internação.

A terapia pode envolver cães, cavalos, pássaros e outros animais, sempre sob condução de profissionais habilitados. Seu objetivo é criar uma relação benéfica entre paciente e animal, utilizando a interação para alcançar metas terapêuticas.

O contato com animais estimula a liberação de hormônios como a ocitocina2, que promove bem-estar e relaxamento. Além disso, proporciona alegria, conforto e companhia, combate a solidão e incentiva a prática de atividades físicas e a interação social, benefícios especialmente relevantes em ambientes hospitalares ou de reabilitação. Em crianças com autismo, pode auxiliar no desenvolvimento da comunicação e das habilidades sociais. Em alguns casos, há evidências de melhora no controle da dor e na regulação da pressão arterial6.

A terapia assistida por animais também encontra aplicação no ambiente escolar, favorecendo o desenvolvimento de crianças com necessidades especiais e ajudando no combate ao bullying. Pode ser indicada para a recuperação de pacientes com lesões8 cerebrais, distúrbios motores ou transtornos psicológicos. É essencial que essa prática seja realizada segundo protocolos rigorosos, garantindo o bem-estar tanto dos pacientes quanto dos animais.

Leia também sobre "Cão: o melhor amigo da sua saúde5", "Estresse" e "Ansiedade".

 

Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da Mayo Clinic Press e do Hospital da Fundação Oswaldo Aranha.

ABCMED, 2025. A ciência por trás do vínculo com animais. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/vida-saudavel/1493560/a-ciencia-por-tras-do-vinculo-com-animais.htm>. Acesso em: 28 ago. 2025.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Lobos: Lobo Frontal Lobo Parietal Lobo Temporal Lobo Occipital
2 Ocitocina: Hormônio produzido pelo hipotálamo e armazenado na hipófise posterior (neuro-hipófise). Tem a função de promover as contrações uterinas durante o parto e a ejeção do leite durante a amamentação.
3 Hormônio: Substância química produzida por uma parte do corpo e liberada no sangue para desencadear ou regular funções particulares do organismo. Por exemplo, a insulina é um hormônio produzido pelo pâncreas que diz a outras células quando usar a glicose para energia. Hormônios sintéticos, usados como medicamentos, podem ser semelhantes ou diferentes daqueles produzidos pelo organismo.
4 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
5 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
6 Pressão arterial: A relação que define a pressão arterial é o produto do fluxo sanguíneo pela resistência. Considerando-se a circulação como um todo, o fluxo total é denominado débito cardíaco, enquanto a resistência é denominada de resistência vascular periférica total.
7 Pandemia: É uma epidemia de doença infecciosa que se espalha por um ou mais continentes ou por todo o mundo, causando inúmeras mortes. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a pandemia pode se iniciar com o aparecimento de uma nova doença na população, quando o agente infecta os humanos, causando doença séria ou quando o agente dissemina facilmente e sustentavelmente entre humanos. Epidemia global.
8 Lesões: 1. Ato ou efeito de lesar (-se). 2. Em medicina, ferimento ou traumatismo. 3. Em patologia, qualquer alteração patológica ou traumática de um tecido, especialmente quando acarreta perda de função de uma parte do corpo. Ou também, um dos pontos de manifestação de uma doença sistêmica. 4. Em termos jurídicos, prejuízo sofrido por uma das partes contratantes que dá mais do que recebe, em virtude de erros de apreciação ou devido a elementos circunstanciais. Ou também, em direito penal, ofensa, dano à integridade física de alguém.
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