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Identidade pessoal - Como ela é construída?

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O que é identidade pessoal?

A identidade pessoal refere-se ao conjunto de traços de personalidade, modelação corporal e modos de expressão que caracterizam uma pessoa. A questão da identidade pessoal diz respeito a como uma pessoa em um dado momento reconhece ser a mesma pessoa que em um outro momento.

A identidade pessoal exige um conjunto de condições necessárias e suficientes para a constância da identidade da pessoa, mesmo com suas mudanças através do tempo. A identidade pessoal é referida às vezes como um problema diacrônico (relativo à compreensão do fato em sua evolução no tempo), mas a questão sincrônica (que ocorre ao mesmo tempo), por sua vez, é também fundamental e diz respeito a quais características ou traços definem uma determinada pessoa num dado momento.

A identidade pessoal leva ao desenvolvimento de uma imagem pessoal e a ligação dela com determinado grupo humano, além dos laços biológicos comuns, que unem um agregado de indivíduos. No entanto, a identidade pessoal contrasta com a identidade étnica ou nacional, que consiste, grosso modo, na identificação com o grupo étnico ou nação a que se assume pertencer. A identidade étnica significa que uma pessoa é, ao mesmo tempo, igual e diferente de todas as outras do mesmo grupo.

A identidade pessoal, nesse sentido, é contingente e temporária: a maneira como me defino como pessoa pode ter sido diferente no passado, embora algo permaneça sempre o mesmo. Esse é o caso dos imigrantes que devem assumir uma nova identidade sem abandonar a antiga.

Leia sobre: "O desenvolvimento da personalidade", "A estrutura da personalidade" e "Testes de Personalidade".

Como se constrói uma identidade pessoal?

A identidade pessoal parece já estar firmemente estabelecida desde a infância. Embora “na vida a única coisa constante seja a mudança”, e a lei da mudança pareça se aplicar a tudo, ela não vale integralmente para a identidade pessoal. A impressão que se tem é que uma pessoa foi sempre a mesma, apesar das mudanças que faça. Ela é sempre idêntica a si mesma, mesmo quando revisa antigos atos, pensamentos e escritos e fica surpresa com aquele “eu” de então: “como foi possível pensar assim?!”

A identidade de uma pessoa é algo permanente, a despeito de sua evolução constante que se atualiza de acordo com suas experiências vitais, com novos aprendizados e relacionamentos, com as mudanças em suas crenças e formas de vivenciar o mundo.

A identidade pessoal é construída a partir de um processo pelo qual as pessoas criam sua própria imagem e consolidam um conjunto de crenças sobre o tipo de pessoa que são e as propriedades que as diferenciam das demais. A identidade é uma construção que proporciona uma sensação de permanência e singularidade que se refere ao que se é, sendo a todo momento aquele ser “idêntico a si mesmo” e que confere à pessoa a certeza de ser única e irrepetível. É o ponto de referência que a diferencia dos outros.

  1. Do ponto de vista psicológico, a identidade pessoal é uma interação de diferentes processos, como memória, pensamentos, crenças, emoções, temperamento e caráter. Para esta abordagem, a identidade pessoal é uma propriedade mental do ser humano que não pode ser localizada biologicamente.
  2. Do ponto de vista somático, a identidade pessoal reside na materialidade do corpo. Ou seja, somos o que somos graças ao corpo que temos. Altura, peso, olhos1 azuis, cabelos castanhos, pele2 clara, testa larga, queixo protuso, etc. criam uma identidade corpórea.
  3. Mas, a identidade pessoal é mais que isso: ela depende também da narrativa que os outros fazem sobre a pessoa e que ela própria faz sobre si mesma. A identidade é também uma história mediada pela linguagem. Uma pessoa é simpática ou não, carrancuda ou não, otimista ou não, conforme a designam. Um determinado papel psicológico não apenas descreve o que a pessoa é, mas aquilo que a designaram ser.

Esses três enfoques funcionam sempre integradamente.

A identidade pessoal pode sofrer mudanças?

Já ouviram falar da faca de Janot? Janot tinha uma faca: “a faca de Janot”. Como a lâmina ficou muito velha mandou trocá-la. Com a troca, percebeu que o cabo também estava velho e incompatível com a nova lâmina e mandou trocar também o cabo. A nova faca continuou sendo “a faca de Janot”. Algo permaneceu constante, apesar das mudanças. E isso porque a identidade profunda das coisas ou das pessoas tem uma grande estabilidade. As possibilidades de mudanças dela são raras e sempre muito tumultuosas e catastróficas.

Mudanças superficiais da identificação (nem se poderia falar apropriadamente de identidade) das pessoas, nem por isso simples, acontecem em certas circunstâncias da vida comum: mudanças radicais de carreira, mudanças de gênero, emigração nacional, adoções, etc. De uma maneira mais radical, as mudanças da identidade só podem acontecer a partir de eventos catastróficos, como na esquizofrenia3, em que a pessoa rompe com seu passado e institui uma nova identidade pessoal, agora delirante. Ou em quadros delirantes ou casos de doenças ou acidentes que impliquem numa grande alteração mental, ou numa grande deformidade corporal.

Mas, mesmo nesses casos, ela ainda mostra sua firmeza. Pessoas mutiladas ou com deficiências adquiridas são representadas nos seus sonhos como tendo a morfologia e as capacidades funcionais de antes, mesmo decorridos vários anos após sua mudança. Mesmo pessoas que se submeteram a uma cirurgia plástica tão ansiosamente esperada custam a assumir sua “nova” identidade, quando não experimentam uma depressão em razão de seus resultados “positivos”. O que para outras pessoas externas à questão parecem ser mudanças bem-vindas, podem ser ignoradas ou negadas pela própria pessoa.

E isto porque a identidade pessoal tem, por um lado, um aspecto objetivo que pode ser observado pelas demais pessoas e que pode ser mensurado e, por outro lado, um aspecto subjetivo que corresponde à percepção da própria pessoa e ao significado que as mudanças assumem para ela. Por exemplo: se colocarmos no meio de um salão um grupo de pessoas e começarmos a comandar ordens: “os baixos para a direita; os altos para a esquerda”, “os louros para a direta; os morenos para esquerda”, “os gordos para a direita; os magros para a esquerda”, etc., veremos as pessoas se colocarem em posições muito diferentes das que correspondem à observação das outras pessoas.

Uma situação extremada pela patologia4 é a anorexia5 mental, quadro mórbido em que a paciente (geralmente são adolescentes ou mulheres jovens), apesar de muito magra e até caquética, continua se sentindo gorda mesmo desmentida pela balança e pelo espelho.

Há casos de múltipla personalidade nos quais a aparente falta de unidade mental deixa dúvidas se o corpo é ocupado sempre pela mesma personalidade. Mas tais casos são excepcionais; a personalidade é mentalmente unificada e individual.

Artigos relacionados: "Esquizofrenia3", "Personalidade borderline", "Personalidade narcisista" e "Personalidade histriônica".

Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente do site da Encyclopedia Britannica.

ABCMED, 2022. Identidade pessoal - Como ela é construída?. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/psicologia-e-psiquiatria/1429005/identidade-pessoal-como-ela-e-construida.htm>. Acesso em: 6 dez. 2022.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Olhos:
2 Pele: Camada externa do corpo, que o protege do meio ambiente. Composta por DERME e EPIDERME.
3 Esquizofrenia: Doença mental do grupo das Psicoses, caracterizada por alterações emocionais, de conduta e intelectuais, caracterizadas por uma relação pobre com o meio social, desorganização do pensamento, alucinações auditivas, etc.
4 Patologia: 1. Especialidade médica que estuda as doenças e as alterações que estas provocam no organismo. 2. Qualquer desvio anatômico e/ou fisiológico, em relação à normalidade, que constitua uma doença ou caracterize determinada doença. 3. Por extensão de sentido, é o desvio em relação ao que é próprio ou adequado ou em relação ao que é considerado como o estado normal de uma coisa inanimada ou imaterial.
5 Anorexia: Perda do apetite ou do desejo de ingerir alimentos.
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