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O desafio das famílias que convivem com a doença mental

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A nova realidade do tratamento das doenças mentais

Até há alguns anos, os recursos de tratamentos para as doenças mentais eram muito escassos. Como decorrência disso, algumas enfermidades evoluíam até estágios muito graves e incompatíveis com a convivência familiar. De um modo geral, os pacientes passavam longos períodos em hospitais, principalmente nos períodos mais agudos e mais problemáticos das enfermidades, ou eram deixados lá de forma permanente. Assim, as famílias eram poupadas dos desafios maiores representados pelo convívio com pessoas enfermas, embora tivessem que suportar a amarga ausência do ente querido.

A terapêutica1 das doenças mentais talvez seja a que tenha feito maiores progressos nos últimos anos, abrangendo a ansiedade, a depressão, os delírios e as alucinações2. Nos dias de hoje, os pacientes que sofrem de doenças mentais dispõem de tratamentos que, aplicados no início das suas enfermidades, dispensam a hospitalização. Isto, no entanto, tem sido feito à custa de novos e maiores envolvimentos familiares com o paciente.

Saiba mais sobre "Ansiedade", "Depressões", "Alucinações2" e "Diferenças entre delírio3, delirium4 e delirium tremens5".

Qual é o desafio das famílias que convivem com a doença mental?

É muito grande o número de famílias que têm de conviver com a doença mental. A Organização Mundial de Saúde6 (OMS) estima que uma em cada quatro famílias em todo o mundo tenha pelo menos um membro com transtorno mental. Em geral, as famílias são caracterizadas por relacionamentos interpessoais íntimos e, em consequência disso, a doença em um membro da família resulta em um ônus substancial para todos os seus membros, sendo um evento estressante para todos.

Com a recente política de desospitalização dos doentes mentais houve, nos últimos anos, uma maior humanização e participação dos familiares no manejo a longo prazo dos pacientes com doenças mentais. Dependendo da condição mórbida envolvida e do momento da enfermidade, a família passa a precisar destacar, de forma transitória ou permanente, um de seus próprios membros ou alguém de fora como cuidador do paciente.

Atualmente, há um volume crescente de literatura sobre a sobrecarga de familiares e desse cuidador e de como aliviar o fardo do cuidado. Também tem-se afirmado que tanto a família quanto esse cuidador passaram a fazer parte do tratamento e da reabilitação psiquiátrica do paciente.

As dificuldades se fazem maiores porque, em geral, as famílias têm pouco conhecimento prévio sobre as doenças mentais e descobrem que elas precisam lidar com muitos sintomas7 e situações que lhes são estranhos. Além disso, há o estigma sobre doenças mentais que geram ideias pré-concebidas e errôneas.

Não há dúvida de que as famílias das pessoas com transtornos mentais são afetadas pela condição de seus entes queridos, mas que, mais do que ajuda prática e cuidados pessoais, oferecem apoio emocional importante para a reabilitação deste ente querido com transtorno mental.

Essas demandas podem criar níveis significativos de sobrecarga emocional para os familiares e afetar a qualidade de vida deles, incluindo trabalho, vida social e relacionamentos, podendo, eles próprios, sofrerem problemas psicológicos significativos. Afinal, cuidar de um parente com um problema de saúde6 mental não é um processo estático, uma vez que os recebedores de cuidados mudam rapidamente conforme sua condição muda.

Cuidar de um paciente com doença mental pode ser debilitante, estressante e muito oneroso. Em contrapartida, a prestação de cuidados a familiares com doenças crônicas ou incapacitados pode ter também um impacto positivo nos cuidadores familiares, como aumento do auto respeito ou da satisfação pessoal por cumprir uma responsabilidade e saber dar amor ao seu próximo. Ser capaz de se doar por amor é um exercício de auto respeito e de respeito com o outro, o que é muito diferente de querer mudar uma outra pessoa ou a si mesmo só para agradar alguém.

Leia sobre "Depressão maior", "Depressão em crianças" e "Diferenças entre as depressões típica e atípica".

Os desafios que o cuidador do doente mental geralmente tem de enfrentar

Os desafios que o cuidador do doente mental tem de enfrentar depende de vários fatores, entre os quais a natureza e gravidade da enfermidade. De um modo geral, são importantes:

  • Prestar assistência e ajuda nas atividades diárias (banho, escovação dos dentes, lavagem das mãos8, horário de comer e de dormir, oferecimento de refeições saudáveis, etc.) que alguns pacientes já não podem executar sozinhos.
  • Prestar assistência financeira a alguns pacientes que perdem a noção dos valores do dinheiro.
  • Motivar o paciente para o trabalho doméstico que ele possa executar.
  • Fiscalizar e motivar o paciente em seus hábitos de limpeza e higiene, que alguns deles abandonam quando adoecem.
  • Procurar contornar possíveis atos de violência, que embora menos frequente do que supõe o imaginário popular, podem acontecer com certos pacientes.
  • Evitar ou contornar comportamentos embaraçosos, como andar nu ou praticar cenas obscenas.
  • Evitar ou tentar solucionar conflitos familiares decorrentes do estado anormal do paciente.
  • Incentivar e conduzir o paciente para participar em grupos específicos, como grupos de dependentes de drogas, bipolares, etc.
  • Estar sempre vigilante quanto à possibilidade de suicídio, evitando deixar o paciente sozinho, sobretudo quando deprimido.
  • Controlar e contornar comportamentos irrazoáveis como, por exemplo, fugir de casa.

Os cuidados com um doente mental podem ser muito exaustivos, tanto emocional como fisicamente. Sempre que o cuidador for um membro da família, ele deve ser substituído regularmente.

Veja também sobre "Terapia cognitivo9 comportamental" e "Psicoterapia".

 

ABCMED, 2019. O desafio das famílias que convivem com a doença mental. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/psicologia-e-psiquiatria/1339793/o-desafio-das-familias-que-convivem-com-a-doenca-mental.htm>. Acesso em: 10 dez. 2019.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Terapêutica: Terapia, tratamento de doentes.
2 Alucinações: Perturbações mentais que se caracterizam pelo aparecimento de sensações (visuais, auditivas, etc.) atribuídas a causas objetivas que, na realidade, inexistem; sensações sem objeto. Impressões ou noções falsas, sem fundamento na realidade; devaneios, delírios, enganos, ilusões.
3 Delírio: Delirio é uma crença sem evidência, acompanhada de uma excepcional convicção irrefutável pelo argumento lógico. Ele se dá com plena lucidez de consciência e não há fatores orgânicos.
4 Delirium: Alteração aguda da consciência ou da lucidez mental, provocado por uma causa orgânica. O delirium tem causa orgânica e cessa se a causa orgânica cessar. Ele pode acontecer nos traumas cranianos, nas infecções etc. Os exemplos mais típicos são o delirium do alcoólatra crônico e o delirium febril.
5 Delirium tremens: Variedade de delírio associado ao consumo ou abstinência de álcool.
6 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
7 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
8 Mãos: Articulação entre os ossos do metacarpo e as falanges.
9 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
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