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Urgências em Psiquiatria - como devem ser reconhecidas e tratadas? Quais são e como se apresentam os quadros mais frequentes?

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O que são urgências em Psiquiatria?

As urgências em psiquiatria podem ser definidas como qualquer mudança de natureza psíquica em que ocorram alterações agudas do estado mental, as quais resultam em risco significativo de morte ou injúria grave para o paciente ou para terceiros.

Estas situações podem incluir comportamentos agressivos, suicídios e tentativas de suicídio, quadros orgânicos que levam a alterações mentais, abuso de substâncias psicoativas, ataques de pânico, surtos psicóticos, estresse agudo1 ou outras mudanças bruscas de comportamento.

Saiba mais sobre "Suicídio", "Transtorno do pânico", "Psicose2 reativa" e "Estresse".

Como o médico trata as urgências em Psiquiatria?

É relevante que o profissional de saúde3 se apresente, esclareça os objetivos do atendimento, transmita confiança, segurança e consistência em suas ações e não emita julgamentos pessoais. Assim, o profissional deve se expressar com clareza, evitar expressões ambíguas, abstrações, bem como deve utilizar perguntas e respostas claras e diretas.

Os pacientes de emergência4 psiquiátrica podem ser tratados em ambulatório ou por meio de um curto período de hospitalização. O hospital geral deve lidar com a urgência5 psiquiátrica em cooperação com divisões psiquiátricas ou clínicas, já que pode ser necessário recorrer a centros de ressuscitação, laboratórios de toxicologia, departamentos de cuidados intensivos, departamentos de cardiologia, etc.

Alguns quadros clínicos mais frequentes nas urgências psiquiátricas

Comportamento agressivo:

A agressão pode ser definida como o ato intencional que causa dano físico ou mental a alguém. O comportamento agressivo pode estar presente em diversos quadros psiquiátricos e em certas patologias orgânicas. Mas, ao contrário do que julga o senso comum, a maioria dos transtornos mentais não é relacionada à violência.

É importante diferenciar a agressividade da agitação psicomotora6. Essa última é uma atividade psíquica e motora desordenada e improdutiva, sem uma intencionalidade definida. Embora a agitação psicomotora6 possa eventualmente resultar em agressão, nem sempre estará relacionada a ela, nem tem esse fim por objetivo.

A agressividade pode dirigir-se à própria pessoa (autoagressão) ou a uma outra pessoa (heteroagressão). Os sintomas7 comportamentais que prenunciam a possibilidade de uma agressividade são: agitação motora, violência dirigida a objetos, dentes e punhos cerrados, tom de voz elevado, afeto desafiador e hostil, além de sintomas7 psiquiátricos específicos como impulsividade, pensamento desorganizado, baixa tolerância a frustrações, pensamento persecutório, etc.

Na avaliação do paciente, deve ser considerado se há alguma doença orgânica, intoxicação ou abstinência que requeira intervenção específica.

Veja mais sobre "Agressividade" e "Síndrome8 de abstinência".

Suicídio:

O suicídio é uma morte autoinduzida, que comporta provas suficientes de que o desejo da pessoa era morrer. É um fenômeno enigmático e um tabu na sociedade atual, por mais que existam teorias a respeito. Praticamente, não há quem não tenha pensado em suicídio em algum momento da vida, mesmo reconhecendo essa ideia como de pequeno potencial efetivo. Entre diferentes crenças religiosas, há variantes entre punições e recompensas para o comportamento suicida e a Psicologia possui diferentes modelos e hipóteses que buscam compreender o comportamento suicida.

O suicídio e a verdadeira tentativa de suicídio são muito frequentes nos serviços de urgências psiquiátricas. Segundo a Organização Mundial da Saúde3, no mundo, ele está entre as três primeiras causas de morte na faixa etária entre 15 e 34 anos. O suicídio sempre causa um grande impacto social na família e no círculo de relações próximas do indivíduo. O comportamento suicida é mais abrangente do que o suicídio, pois inclui as tentativas de suicídio, qualquer que seja o verdadeiro grau de intenção letal. As tentativas de suicídio são mais comuns em mulheres, enquanto o suicídio consumado é mais observado em homens.

Quadros orgânicos que se manifestam com alterações do estado mental:

Um dos principais objetivos do atendimento é o reconhecimento da situação que esteja se manifestando com alterações mentais e comportamentais. Por se assemelharem a alterações decorrentes de transtornos mentais, esses quadros orgânicos podem ser tratados de forma inadequada. Assim, o não reconhecimento dessas alterações orgânicas pode colocar o paciente seriamente em risco, pois se a causa fisiológica9 que provoca os sintomas7 não for o alvo da assistência, há risco de complicação clínica.

Existem características que estão relacionadas às alterações psiquiátricas que são causadas por quadros orgânicos: início agudo1, geralmente primeiro episódio, idade avançada, presença de doença ou lesão10 orgânica atual, abuso de substâncias psicoativas, alucinações11 geralmente não-auditivas (táteis, visuais, gustativas, olfativas), alterações cognitivas e alterações da fala ou dos movimentos, incluindo a marcha, e sem histórico psiquiátrico.

Emergências relacionadas ao uso ou abstinência de substâncias psicoativas:

 Atualmente, os transtornos por uso de substâncias são prevalentes entre as emergências psiquiátricas ou gerais. O cuidado em emergências devidas ao uso de substâncias deve conter uma avaliação médica geral e psiquiátrica, o tratamento dos quadros diagnosticados e a motivação do paciente para o tratamento.

O atendimento em urgências e emergências requer que sejam reconhecidas a substância utilizada, a estimativa da quantidade, a frequência e duração do uso e último consumo, histórico do uso de substâncias pelo paciente no presente e no passado, história médica geral e psiquiátrica, exame físico, história familiar e social, triagem da substância utilizada por meio do sangue12, da respiração ou urina13 e testes laboratoriais para avaliar complicações associadas.

Os efeitos provocados pela intoxicação variam de acordo com a substância utilizada. Os psicoestimulantes (cocaína e outros) podem causar hipertensão arterial14, taquicardia15, taquipneia16 (aceleração da respiração), hipertermia, dilatação pupilar, estado de alerta elevado e aumento da psicomotricidade17. A maconha leva a sintomas7 psicóticos, episódios agudos de ansiedade e, em alguns casos, agressividade. Os opioides, quando tomados em excesso (superdosagem), geram miose18 (contração das pupilas) e bradicardia19 (diminuição da frequência cardíaca) acentuadas, depressão respiratória, estupor ou coma20. Os solventes agrupam uma variedade de substâncias com mecanismos de ação variados, mas, em geral, possuem efeitos depressores sobre o sistema nervoso central21.

Os sintomas7 de abstinência são causados pela interrupção ou redução abrupta do uso da substância utilizada, na maioria dos casos relacionada a um consumo prévio crônico22 e abusivo. A abstinência de uma substância comumente produz efeitos opostos aos que são provocados originalmente pela droga.

Um caso especial, pela sua frequência e tipicidade, é a abstinência do álcool. A síndrome8 de abstinência alcoólica é desencadeada quando o indivíduo diminui ou cessa abruptamente a ingestão de álcool. Os sintomas7 da síndrome8 de abstinência do álcool se iniciam dentro de 4 a 12 horas após a interrupção ou a diminuição do uso de álcool e atingem um pico no segundo dia. A gravidade da síndrome8 determinará o manejo clínico e medicamentoso dos pacientes e a necessidade ou não de internação hospitalar. Os sinais23 e sintomas7 mais comuns da abstinência de álcool são: ansiedade, tremores, alteração do sono, desconforto gastrointestinal, irritabilidade, sudorese24, aumento da frequência cardíaca, do pulso e da temperatura.

A síndrome8 grave de abstinência de álcool, chamada delírium tremens, inclui redução do nível de consciência, alterações cognitivas, alucinações11, tremores marcantes, delírios, agitação, agressividade, ansiedade, hipertensão arterial14, taquicardia15 e temperatura elevada. A mortalidade25 do delirium tremens26 atinge de 5 a 10% dos casos.

Leia sobre "Alucinações11", "Dependência de cocaína", "Maconha" e "Ansiedade".

Ataques de pânico:

 O ataque de pânico é o nível extremo de ansiedade que se caracteriza como um período de intenso medo e desconforto. Os sintomas7 do ataque de pânico incluem sentimentos de catástrofe iminente, medo de enlouquecer ou perder o controle, desrealização, despersonalização e sintomas7 físicos como dispneia27, sudorese24, taquicardia15, dor ou desconforto torácico, desconforto abdominal, tontura28, sensação de sufocamento, formigamento, rubor ou palidez facial.

Os ataques têm início súbito e duração limitada a alguns minutos (10 a 30 minutos). A atenção aos ataques de pânico compreende medidas de tranquilização e relaxamento. Em crises mais intensas ou prolongadas podem ser prescritos e administrados benzodiazepínicos de ação curta.

Psicose2 aguda:

A psicose2 aguda, por vezes chamada de surto psicótico, pode ser definida como a perda súbita de contato com a realidade e se manifesta pelos delírios e alucinações11. Os delírios são falsas crenças, não fundamentadas na realidade, e não compartilhadas por outros membros do grupo cultural do indivíduo. As alucinações11 são percepções sem objeto, acompanhada da crença íntima na realidade do percebido (como, por exemplo, ouvir vozes sem que haja estímulo real).

Algumas psicoses, mesmo de início brusco, não se enquadram entre as emergências psiquiátricas por apresentarem sintomas7 de pequena gravidade ou risco. A psicose2 aguda define-se como uma emergência4 psiquiátrica apenas se o prejuízo no contato com a realidade é muito grosseiro, a ponto de representar riscos.

Transtorno de estresse agudo1:

O transtorno de estresse agudo1 agrupa um conjunto de reações características:

(1) revivência: sensação de reviver um evento traumático;
(2) esquiva: evitar tudo o que possa relembrar o evento traumático;
(3) excitabilidade aumentada;
(4) sintomas7 dissociativos: sentimento subjetivo de anestesia29, distanciamento, ausência de resposta emocional, redução da consciência quanto a coisas que o rodeiam;
(5) desrealização;
(6) despersonalização;
(7) amnésia30 dissociativa.

A perturbação causa sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional.

Veja também sobre "Antidepressivos" e "Oxicodona" e "Usos e abusos dos tranquilizantes".

 

ABCMED, 2019. Urgências em Psiquiatria - como devem ser reconhecidas e tratadas? Quais são e como se apresentam os quadros mais frequentes?. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/psicologia-e-psiquiatria/1332188/urgencias-em-psiquiatria-como-devem-ser-reconhecidas-e-tratadas-quais-sao-e-como-se-apresentam-os-quadros-mais-frequentes.htm>. Acesso em: 26 abr. 2019.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Agudo: Descreve algo que acontece repentinamente e por curto período de tempo. O oposto de crônico.
2 Psicose: Grupo de doenças psiquiátricas caracterizadas pela incapacidade de avaliar corretamente a realidade. A pessoa psicótica reestrutura sua concepção de realidade em torno de uma idéia delirante, sem ter consciência de sua doença.
3 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
4 Emergência: 1. Ato ou efeito de emergir. 2. Situação grave, perigosa, momento crítico ou fortuito. 3. Setor de uma instituição hospitalar onde são atendidos pacientes que requerem tratamento imediato; pronto-socorro. 4. Eclosão. 5. Qualquer excrescência especializada ou parcial em um ramo ou outro órgão, formada por tecido epidérmico (ou da camada cortical) e um ou mais estratos de tecido subepidérmico, e que pode originar nectários, acúleos, etc. ou não se desenvolver em um órgão definido.
5 Urgência: 1. Necessidade que requer solução imediata; pressa. 2. Situação crítica ou muito grave que tem prioridade sobre outras; emergência.
6 Psicomotora: Própria ou referente a qualquer resposta que envolva aspectos motores e psíquicos, tais como os movimentos corporais governados pela mente.
7 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
8 Síndrome: Conjunto de sinais e sintomas que se encontram associados a uma entidade conhecida ou não.
9 Fisiológica: Relativo à fisiologia. A fisiologia é estudo das funções e do funcionamento normal dos seres vivos, especialmente dos processos físico-químicos que ocorrem nas células, tecidos, órgãos e sistemas dos seres vivos sadios.
10 Lesão: 1. Ato ou efeito de lesar (-se). 2. Em medicina, ferimento ou traumatismo. 3. Em patologia, qualquer alteração patológica ou traumática de um tecido, especialmente quando acarreta perda de função de uma parte do corpo. Ou também, um dos pontos de manifestação de uma doença sistêmica. 4. Em termos jurídicos, prejuízo sofrido por uma das partes contratantes que dá mais do que recebe, em virtude de erros de apreciação ou devido a elementos circunstanciais. Ou também, em direito penal, ofensa, dano à integridade física de alguém.
11 Alucinações: Perturbações mentais que se caracterizam pelo aparecimento de sensações (visuais, auditivas, etc.) atribuídas a causas objetivas que, na realidade, inexistem; sensações sem objeto. Impressões ou noções falsas, sem fundamento na realidade; devaneios, delírios, enganos, ilusões.
12 Sangue: O sangue é uma substância líquida que circula pelas artérias e veias do organismo. Em um adulto sadio, cerca de 45% do volume de seu sangue é composto por células (a maioria glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). O sangue é vermelho brilhante, quando oxigenado nos pulmões (nos alvéolos pulmonares). Ele adquire uma tonalidade mais azulada, quando perde seu oxigênio, através das veias e dos pequenos vasos denominados capilares.
13 Urina: Resíduo líquido produzido pela filtração renal no organismo, estocado na bexiga e expelido pelo ato de urinar.
14 Hipertensão arterial: Aumento dos valores de pressão arterial acima dos valores considerados normais, que no adulto são de 140 milímetros de mercúrio de pressão sistólica e 85 milímetros de pressão diastólica.
15 Taquicardia: Aumento da frequência cardíaca. Pode ser devido a causas fisiológicas (durante o exercício físico ou gravidez) ou por diversas doenças como sepse, hipertireoidismo e anemia. Pode ser assintomática ou provocar palpitações.
16 Taquipneia: Aceleração do ritmo respiratório.
17 Psicomotricidade: Integração das funções motoras e psíquicas em consequência da maturidade do sistema nervoso.
18 Miose: Contração da pupila, que pode ser fisiológica, patológica ou terapêutica.
19 Bradicardia: Diminuição da freqüência cardíaca a menos de 60 batimentos por minuto. Pode estar associada a distúrbios da condução cardíaca, ao efeito de alguns medicamentos ou a causas fisiológicas (bradicardia do desportista).
20 Coma: 1. Alteração do estado normal de consciência caracterizado pela falta de abertura ocular e diminuição ou ausência de resposta a estímulos externos. Pode ser reversível ou evoluir para a morte. 2. Presente do subjuntivo ou imperativo do verbo “comer.“
21 Sistema Nervoso Central: Principais órgãos processadores de informação do sistema nervoso, compreendendo cérebro, medula espinhal e meninges.
22 Crônico: Descreve algo que existe por longo período de tempo. O oposto de agudo.
23 Sinais: São alterações percebidas ou medidas por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida.
24 Sudorese: Suor excessivo
25 Mortalidade: A taxa de mortalidade ou coeficiente de mortalidade é um dado demográfico do número de óbitos, geralmente para cada mil habitantes em uma dada região, em um determinado período de tempo.
26 Delirium tremens: Variedade de delírio associado ao consumo ou abstinência de álcool.
27 Dispnéia: Falta de ar ou dificuldade para respirar caracterizada por respiração rápida e curta, geralmente está associada a alguma doença cardíaca ou pulmonar.
28 Tontura: O indivíduo tem a sensação de desequilíbrio, de instabilidade, de pisar no vazio, de que vai cair.
29 Anestesia: Diminuição parcial ou total da sensibilidade dolorosa. Pode ser induzida por diferentes medicamentos ou ser parte de uma doença neurológica.
30 Amnésia: Perda parcial ou total da memória.
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