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Resistência aos antibióticos

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O que são antibióticos?

Antibióticos são substâncias químicas ou compostos naturais que têm a capacidade de combater infecções1 causadas por bactérias. A humanidade passou muitos milênios sem conhecer os antibióticos, mas a descoberta deles revolucionou a história da medicina. A partir de sua descoberta, os antibióticos passaram a ser os medicamentos basilares usados no tratamento das infecções1 causadas por bactérias, capazes de eliminá-las ou impedir a sua multiplicação.

O primeiro antibiótico descoberto foi a penicilina, em 1928, na Inglaterra, pelo médico bacteriologista Alexander Fleming, mas só na década de 1940 ela passou a ser produzida em larga escala e usada com fins terapêuticos. A partir daí, surgiram novas substâncias químicas com efeitos antibióticos, produzidas por microrganismos, como fungos e bactérias, ou sintetizadas em laboratório.

Os antibióticos existentes atualmente agem de dois modos diferentes:

  1. Impedindo o crescimento das bactérias (antibióticos bacteriostáticos2)
  2. Matando as bactérias (antibióticos bactericidas3)

Em ambos os casos, ajudam o sistema imunológico4 a combater a infecção5. Essa divisão, contudo, não tem caráter absoluto, porque os bacteriostáticos podem também matar algumas espécies bacterianas e os bactericidas, às vezes, só podem inibir o crescimento de algumas espécies bacterianas susceptíveis.

O que é resistência aos antibióticos?

A resistência aos antibióticos é um fenômeno em que as bactérias, que são os organismos-alvo dos antibióticos, desenvolvem mecanismos para sobreviver e se multiplicar mesmo na presença desses medicamentos. O uso incorreto ou excessivo de antibióticos pode levar ao desenvolvimento de resistência bacteriana, tornando esses medicamentos menos eficazes no combate às bactérias.

Para a Organização Mundial da Saúde6 (OMS) a situação é preocupante, porque se as bactérias continuarem desenvolvendo resistência, mesmo infecções1 banais podem vir a deixar de responder aos tratamentos. Por outro lado, é alarmante a rápida disseminação que têm tido as bactérias resistentes (“superbactérias”). Se não forem mudadas as formas como os novos antibióticos são usados, os novos medicamentos descobertos terão o mesmo destino que os atuais.

Veja sobre “Perigos da automedicação7”, “Posso beber tomando remédios?” e “Quais medicamentos podem ou não ser tomados durante a gravidez8”.

Por que acontece a resistência aos antibióticos?

A resistência aos antibióticos pode ocorrer naturalmente devido às mutações genéticas aleatórias que ocorrem nas bactérias, as quais podem conduzir à síntese de enzimas capazes de levar à inativação de tais substâncias. O uso inadequado e excessivo de antibióticos na medicina humana também tem acelerado o processo de desenvolvimento da resistência bacteriana. Quando os antibióticos são usados de forma indiscriminada, as bactérias mais suscetíveis são eliminadas, enquanto as mais resistentes sobrevivem e se reproduzem, transmitindo seus genes de resistência para as gerações a seguir. Isso faz com que as bactérias resistentes se tornem predominantes.

A resistência aos antibióticos constitui uma preocupação significativa em saúde6 pública, uma vez que pode levar ao fracasso do tratamento de infecções1 bacterianas comuns. Além disso, a resistência bacteriana pode se espalhar entre diferentes bactérias e elas podem vir a ser transmitidas de pessoa para pessoa, tornando os antibióticos menos eficazes em níveis populacionais.

Mecanismos de resistência aos antibióticos

Os mecanismos de resistência das bactérias aos antibióticos são determinados por certos genes dessas células9 que promovem falha no mecanismo de ação desses medicamentos. Algumas bactérias podem expressar resistência intrínseca a determinada espécie de antibiótico ou resistência adquirida, seja a partir de mutações nos próprios genes ou pela aquisição de genes de resistência de outras bactérias.

Assim, os mecanismos de resistência aos antibióticos são divididos de acordo com a forma de inativação deles.

  1. Produção de enzimas que degradam ou modificam antibióticos: enzimas que degradam antibióticos inativam esses antimicrobianos pela catálise hidrolítica das moléculas dessas drogas.
  2. Redução da permeabilidade10 da membrana externa: para atingir seu alvo, os antibióticos devem atravessar a membrana externa ou toda a parede da célula11 e agir dentro dela. As bactérias gram-negativas são intrinsecamente menos permeáveis a muitos antibióticos por possuírem uma membrana externa na constituição de sua parede celular, o que não existe na parede celular de bactérias gram-positivas. Dessa forma, a redução da permeabilidade10 da membrana externa é um mecanismo de resistência exclusivo de bactérias gram-negativas.
  3. Sistemas de efluxo hiperexpressos: são mecanismos naturais de excreção de substâncias celulares tóxicas resultantes do metabolismo12 bacteriano, que se localizam na parede celular das bactérias e, geralmente, são codificados por genes. Alterações nesse sistema podem incrementar a resistência aos antibióticos.
  4. Alteração nos alvos de ligação de um antibiótico: a maioria dos antibióticos liga-se especificamente a um ou mais alvos na célula11 bacteriana. Alterações na estrutura do alvo de ligação do antibiótico impedem a eficiente ligação ou diminuem a afinidade dessa interação, de modo que o antibiótico não reconhece mais o alvo na célula11 bacteriana. Geralmente, alterações do alvo têm origem em mutações de genes da própria bactéria13 e podem funcionar pela produção de enzimas ou pela presença de estruturas celulares bacterianas que impedem a ligação dos antibióticos aos seus alvos.

Como combater a resistência aos antibióticos?

Para combater a resistência aos antibióticos, é essencial promover o uso racional dessas substâncias, limitando sua prescrição apenas quando necessário e garantindo o cumprimento correto do regime prescrito. Para isso, o Ministério da Saúde6 e o conselho da Organização Mundial as Saúde6 (OMS) estabeleceram que no Brasil os antibióticos só podem ser vendidos com prescrição médica que determine a quantidade e o modo de utilização deles. Isso evita a automedicação7 e o uso abusivo e desnecessário desse tipo de medicamento

O uso de doses insuficientes de antibióticos e sua utilização por um tempo menor que o recomendável também podem aumentar a resistência bacteriana, uma vez que apenas as bactérias mais sensíveis são atingidas e as mais resistentes continuam existindo e mantendo a infecção5.

Pesquisas vêm produzindo antibióticos cada vez mais específicos e mais potentes com vistas a vencer a resistência bacteriana habitual, mas eles têm, em geral, a desvantagem de exigirem aplicações mais complexas e de possuírem maiores efeitos colaterais14.

Leia também sobre “Polifarmácia”, “Iatrogenia” e “Intoxicações medicamentosas”.

 

Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da Organização Mundial da Saúde (OMS), do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e do European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC).

ABCMED, 2023. Resistência aos antibióticos. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/vida-saudavel/1441700/resistencia-aos-antibioticos.htm>. Acesso em: 16 abr. 2024.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Infecções: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
2 Antibióticos bacteriostáticos: Impedem o crescimento das bactérias, detendo sua multiplicação. Mas não eliminam as bactérias, não as matam.
3 Antibióticos bactericidas: Destroem a parede bacteriana, eliminando a bactéria.
4 Sistema imunológico: Sistema de defesa do organismo contra infecções e outros ataques de micro-organismos que enfraquecem o nosso corpo.
5 Infecção: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
6 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
7 Automedicação: Automedicação é a prática de tomar remédios sem a prescrição, orientação e supervisão médicas.
8 Gravidez: Condição de ter um embrião ou feto em desenvolvimento no trato reprodutivo feminino após a união de ovo e espermatozóide.
9 Células: Unidades (ou subunidades) funcionais e estruturais fundamentais dos organismos vivos. São compostas de CITOPLASMA (com várias ORGANELAS) e limitadas por uma MEMBRANA CELULAR.
10 Permeabilidade: Qualidade dos corpos que deixam passar através de seus poros outros corpos (fluidos, líquidos, gases, etc.).
11 Célula: Unidade funcional básica de todo tecido, capaz de se duplicar (porém algumas células muito especializadas, como os neurônios, não conseguem se duplicar), trocar substâncias com o meio externo à célula, etc. Possui subestruturas (organelas) distintas como núcleo, parede celular, membrana celular, mitocôndrias, etc. que são as responsáveis pela sobrevivência da mesma.
12 Metabolismo: É o conjunto de transformações que as substâncias químicas sofrem no interior dos organismos vivos. São essas reações que permitem a uma célula ou um sistema transformar os alimentos em energia, que será ultilizada pelas células para que as mesmas se multipliquem, cresçam e movimentem-se. O metabolismo divide-se em duas etapas: catabolismo e anabolismo.
13 Bactéria: Organismo unicelular, capaz de auto-reproduzir-se. Existem diferentes tipos de bactérias, classificadas segundo suas características de crescimento (aeróbicas ou anaeróbicas, etc.), sua capacidade de absorver corantes especiais (Gram positivas, Gram negativas), segundo sua forma (bacilos, cocos, espiroquetas, etc.). Algumas produzem infecções no ser humano, que podem ser bastante graves.
14 Efeitos colaterais: 1. Ação não esperada de um medicamento. Ou seja, significa a ação sobre alguma parte do organismo diferente daquela que precisa ser tratada pelo medicamento. 2. Possível reação que pode ocorrer durante o uso do medicamento, podendo ser benéfica ou maléfica.
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