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Trauma psicológico - causas, mecanismos, características mentais, tratamento e evolução

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O que é trauma psicológico?

O trauma psicológico é um tipo de dano à mente que ocorre como resultado de um evento angustiante vivenciado pela pessoa. Muitas vezes, ele é o resultado de uma quantidade esmagadora de estresse que excede a capacidade da pessoa de lidar com o problema ou de integrar as emoções envolvidas com essa experiência, fazendo-a sentir-se desamparada em um mundo perigoso.

As experiências traumáticas geralmente envolvem uma ameaça à vida ou à segurança, mas qualquer situação que leva a pessoa a se sentir emocionalmente sobrecarregada e isolada pode resultar em trauma psicológico.

Leia sobre "Depressão maior", "Maneiras de lidar com o estresse" e "Ansiedade infantil".

Quais são as causas do trauma psicológico?

O trauma pode resultar de uma única experiência angustiante ou de eventos recorrentes que podem ocorrer em semanas, anos ou mesmo décadas, levando a consequências negativas graves e de longo prazo. As reações a um evento angustiante variam de um indivíduo para outro. A discrepância na taxa de risco pode ser atribuída a fatores individuais de proteção que alguns indivíduos podem ter e que lhes permite lidar com o trauma de diferentes maneiras, relacionadas a fatores temperamentais e ambientais, entre outros.

Entre os eventos passíveis de gerar um trauma psicológico estão acontecimentos desastrosos únicos, como acidentes, ferimentos ou ataques violentos ou estresse continuado. Outros são mais duradouros ou permanentes, como viver em um bairro assolado por crimes, lutar contra uma doença com risco de vida, intimidação, constante violência doméstica ou negligência1 continuada na infância. Outras causas comumente desconsideradas podem ser cirurgia, morte súbita de alguém próximo, rompimento de um relacionamento significativo ou uma experiência profundamente decepcionante.

Embora seja altamente improvável que uma pessoa determinada seja vítima direta de um ataque terrorista, um acidente de avião ou um tiroteio em massa, por exemplo, ela é regularmente bombardeada por notícias desses eventos e vive ameaçada por essas possibilidades, estando em permanente guarda contra elas e isso pode sobrecarregar sua mente e criar estresse traumático.

Qual é o mecanismo psicológico do trauma psicológico?

Algumas teorias sugerem que o trauma na infância pode aumentar o risco de transtornos mentais, incluindo transtorno de estresse pós-traumático, depressão e abuso de substâncias. A adversidade na infância está associada à neurose2 durante a idade adulta.

Partes do cérebro3 de uma criança em crescimento estão se desenvolvendo em uma ordem sequencial e hierárquica, da menos complexa à mais complexa. Os neurônios4 do cérebro3 mudam em resposta aos sinais5 e estímulos externos constantes, recebendo e armazenando novas informações. Isso permite que o cérebro3 responda normal e continuamente ao ambiente, procurando promover a sobrevivência6.

Os cinco sentidos perceptivos tradicionais (visão7, audição, paladar8, olfato e tato) contribuem para o desenvolvimento da estrutura e função cerebrais. Bebês9 e crianças começam a criar representações internas de seu ambiente externo e, em particular, das relações-chave de apego, logo após o nascimento. Figuras de apego violento e vitimizador afetam as representações internas de bebês9 e crianças pequenas.

Quanto mais frequente um padrão específico de neurônios4 cerebrais for ativado, mais permanente se torna a representação interna associada a ele. Isso causa sensibilização no cérebro3 para a rede neural específica. Por causa dessa sensibilização, o padrão neural pode ser ativado por estímulos externos cada vez menores. É assim que as experiências da infância, normais ou traumáticas, formarão a personalidade adulta.

Saiba mais sobre "Transtorno do Estresse Pós-Traumático", "Depressões", "Dependência às drogas" e "Neurose2".

Quais são as principais características mentais do trauma psicológico?

O trauma e a disposição a se traumatizar difere entre os indivíduos de acordo com suas experiências subjetivas e, por isso, as pessoas reagem a eventos traumáticos semelhantes de maneiras diferentes. Encontrar rastros de uma onça na floresta tem efeitos diferentes para o indígena e para indivíduos que vivem na cidade. São as circunstâncias subjetivas que determinam se um evento é ou não traumático para a pessoa. Quanto mais assustada e desamparada se sentir, maior a probabilidade de estar traumatizada.

Não existe, pois, um modo "certo" ou "errado" de pensar, sentir ou responder.

Alguns eventos só adquirem efeitos traumáticos a longo prazo, depois do desenvolvimento de estágios mais críticos da pessoa, que conferem a eles significados especiais. Assim, por exemplo, um abuso sexual na infância, se não causa sofrimento físico imediato, só se tornará um trauma quando a criança se tornar capaz de avaliar o significado moral da situação.

Os sintomas10 emocionais e psicológicos podem ser choque11 e negação da situação; confusão e dificuldade de concentração; raiva12, irritabilidade ou alteração do humor; ansiedade e medo; culpa e vergonha; afastamento dos outros; sentir-se triste ou sem esperança e sentir-se desconectado ou entorpecido. Os sintomas10 físicos são insônia ou pesadelos, fadiga13, batimentos cardíacos aumentados, agitação, dores pelo corpo e tensão muscular.

Um aspecto especial é representado pelo trauma na infância. O trauma infantil pode resultar de qualquer coisa que perturbe a sensação de segurança de uma criança, incluindo um ambiente instável ou inseguro, separação dos pais, doença grave prolongada e incapacitante, procedimentos médicos intrusivos, abuso sexual, físico ou verbal, violência doméstica ou negligência1. Passar por um trauma na infância pode resultar em um efeito severo que perdure pela vida afora. Uma sensação de medo e desamparo se transfere para a vida adulta, preparando o terreno para novos traumas.

Veja mais sobre "Abuso sexual de crianças" e "Ansiedade".

Como tratar o trauma psicológico?

A fim de curar-se de traumas psicológicos e emocionais, a pessoa precisará livrar-se dos sentimentos e memórias desagradáveis que carrega dentro de si e que por muito tempo procurou evitar, buscando esquivar-se de energias reprimidas. Precisará também aprender a regular emoções fortes e reconstruir a capacidade de confiar em outras pessoas.

A experiência somática concentra-se no que está acontecendo no corpo e em sensações que ele emite. A pessoa pode liberar energia relacionada ao trauma acumulado por meio de tremores, choro e outras formas de liberação física. A terapia cognitivo14-comportamental ajuda a processar e avaliar os pensamentos e sentimentos sobre o trauma.

Mesmo que o trauma tenha acontecido há anos, existem passos que a pessoa pode tomar para superar a dor, aprender a confiar e se conectar com os outros novamente e recuperar seu senso de equilíbrio emocional. A psicoterapia de longa duração é o método principal.

Como evolui o trauma psicológico?

Os sintomas10 do trauma duram de alguns dias a meses, desaparecendo gradualmente, mas também podem ter repercussão vida afora. Diante de um evento traumático, a pessoa tem de lidar, pelo menos temporariamente, com a perda do seu senso de segurança. A reação natural a essa perda é a tristeza. Mas, mesmo quando estiver se sentindo melhor, a pessoa poderá se incomodar de vez em quando com lembranças ou emoções dolorosas, especialmente em resposta a gatilhos, como um aniversário do evento ou algo que lembre o trauma.

Se os sintomas10 não aliviarem ou se tornarem ainda piores, a pessoa pode estar sofrendo de Transtorno de Estresse Pós-Traumático, caso no qual precisa ser adequadamente tratada.

Leia também sobre "Terapia cognitivo14-comportamental", "Psicoterapias" "Insônia" e "Fobias15".

 

ABCMED, 2019. Trauma psicológico - causas, mecanismos, características mentais, tratamento e evolução. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/psicologia-e-psiquiatria/1335988/trauma-psicologico-causas-mecanismos-caracteristicas-mentais-tratamento-e-evolucao.htm>. Acesso em: 19 fev. 2020.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Negligência: Falta de cuidado; incúria. Falta de apuro, de atenção; desleixo, desmazelo. Falta de interesse, de motivação; indiferença, preguiça. Inobservância e descuido na execução de ato.
2 Neurose: Doença psiquiátrica na qual existe consciência da doença. Caracteriza-se por ansiedade, angústia e transtornos na relação interpessoal. Apresenta diversas variantes segundo o tipo de neurose. Os tipos mais freqüentes são a neurose obsessiva, depressiva, maníaca, etc., podendo apresentar-se em combinação.
3 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
4 Neurônios: Unidades celulares básicas do tecido nervoso. Cada neurônio é formado por corpo, axônio e dendritos. Sua função é receber, conduzir e transmitir impulsos no SISTEMA NERVOSO. Sinônimos: Células Nervosas
5 Sinais: São alterações percebidas ou medidas por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida.
6 Sobrevivência: 1. Ato ou efeito de sobreviver, de continuar a viver ou a existir. 2. Característica, condição ou virtude daquele ou daquilo que subsiste a um outro. Condição ou qualidade de quem ainda vive após a morte de outra pessoa. 3. Sequência ininterrupta de algo; o que subsiste de (alguma coisa remota no tempo); continuidade, persistência, duração.
7 Visão: 1. Ato ou efeito de ver. 2. Percepção do mundo exterior pelos órgãos da vista; sentido da vista. 3. Algo visto, percebido. 4. Imagem ou representação que aparece aos olhos ou ao espírito, causada por delírio, ilusão, sonho; fantasma, visagem. 5. No sentido figurado, concepção ou representação, em espírito, de situações, questões etc.; interpretação, ponto de vista. 6. Percepção de fatos futuros ou distantes, como profecia ou advertência divina.
8 Paladar: Paladar ou sabor. Em fisiologia, é a função sensorial que permite a percepção dos sabores pela língua e sua transmissão, através do nervo gustativo ao cérebro, onde são recebidos e analisados.
9 Bebês: Lactentes. Inclui o período neonatal e se estende até 1 ano de idade (12 meses).
10 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
11 Choque: 1. Estado de insuficiência circulatória a nível celular, produzido por hemorragias graves, sepse, reações alérgicas graves, etc. Pode ocasionar lesão celular irreversível se a hipóxia persistir por tempo suficiente. 2. Encontro violento, com impacto ou abalo brusco, entre dois corpos. Colisão ou concussão. 3. Perturbação brusca no equilíbrio mental ou emocional. Abalo psíquico devido a uma causa externa.
12 Raiva: 1. Doença infecciosa freqüentemente mortal, transmitida ao homem através da mordida de animais domésticos e selvagens infectados e que produz uma paralisia progressiva juntamente com um aumento de sensibilidade perante estímulos visuais ou sonoros mínimos. 2. Fúria, ódio.
13 Fadiga: 1. Sensação de enfraquecimento resultante de esforço físico. 2. Trabalho cansativo. 3. Redução gradual da resistência de um material ou da sensibilidade de um equipamento devido ao uso continuado.
14 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
15 Fobias: Medo exagerado, falta de tolerância, aversão.
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