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Autismo. Conhecendo melhor esta condição.

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O que é autismo?

O autismo parece ser uma disfunção cerebral que se reflete no desenvolvimento global e que afeta a capacidade de comunicação, a socialização e o comportamento adequado ao ambiente.

Algumas crianças autistas apresentam inteligência e fala normais, mas outras apresentam problemas no desenvolvimento dessas áreas. Alguns parecem isolados e distantes e outros parecem presos a padrões de comportamento rígidos e restritos. Se, por exemplo, uma criança autista fica isolada em seu canto observando as outras crianças brincarem, não é necessariamente porque ela não está interessada nessas brincadeiras, pode ser que ela tenha dificuldade de manter uma conversação.

Quando adultos, os problemas de comunicação e socialização dos autistas causam frequentes dificuldades em várias áreas da vida e eles precisam de encorajamento e apoio na sua luta por uma vida independente.

Um mito comum consiste em crer que a pessoa autista tenha um retardo mental ou que apenas saiba poucas palavras. Isto até acontece, mas nem todos os autistas são assim. Na verdade, alguns indivíduos com autismo possuem inteligência acima da média.

Quais são as principais características das pessoas autistas?

Nem todos os autistas exibem as mesmas características e nem elas têm a mesma intensidade em todos eles, o que faz com que cada caso seja diferente de outro.

Segundo a Sociedade Americana de Autismo, os indivíduos autistas exibem pelo menos metade das seguintes características:

  1. Dificuldade de relacionamento com outras pessoas.
  2. Riso inapropriado ou imotivado.
  3. Pouco ou nenhum contato visual com as outras pessoas.
  4. Aparente insensibilidade à dor.
  5. Isolamento, modos arredios, solidão.
  6. Brincar de forma inadequada ou bizarra com os objetos.
  7. Fixação inapropriada e esdrúxula em objetos.
  8. Extrema hiperatividade ou inatividade. Problemas de sono.
  9. Falta de reação aos métodos de ensino. Muitos precisam de material adaptado.
  10. Resistências às mudanças de rotina.
  11. Falta de consciência das situações que envolvem perigo.
  12. Poses e comportamentos bizarros.
  13. Ecolalia1 (repetição de palavras ou frases ouvidas).
  14. Recusa de colo2 ou afagos. Bebês3 preferem ficar no chão que no colo2.
  15. Age como surdo, não respondendo nem mesmo se chamado pelo próprio nome.
  16. Dificuldade em expressar necessidades pela fala ou por gestos.
  17. Acessos de raiva4, sem razão aparente.
  18. Habilidades motoras especiais, por exemplo, não chutar uma bola, mas empilhar blocos.
  19. Hipo ou hipersensibilidade sensorial.
  20. Não mantém nenhuma referência social (adulto, pai, mãe, etc.).

Quais são as causas do autismo?

Não há uma causa única do autismo que, por sua vez, parece não ser também uma entidade única. Cada pessoa tem diferentes características, com diferentes intensidades. O autismo parece obedecer a uma combinação de fatores genéticos e ambientais.

Do lado genético, pode-se mostrar uma grande coincidência da doença em gêmeos (60 a 90% de chance em gêmeos idênticos; aproximadamente 3% em gêmeos não idênticos). Pais que têm um filho autista têm de 2 a 8% de chance de ter outro filho com essa mesma condição (75 vezes maior que na população geral). Além disso, os membros de famílias com crianças autistas estão mais sujeitos a terem outros transtornos neuropsíquicos, como atrasos na linguagem, dificuldades sociais e transtornos mentais.

Do lado ambiental, têm sido associadas ao autismo as infecções5 virais e a exposição a substâncias como o mercúrio, o chumbo ou o difenilpoliclorinado. Algumas pesquisas apontam a exposição pré-natal a substâncias como talidomida ou o ácido valproico. A vacina6 tríplice chegou a ser relacionada com o autismo, mas atualmente não se crê nisso, embora a discussão sobre vacinas e autismo ainda continue.

Como diagnosticar o autismo?

O diagnóstico7 do autismo é eminentemente8 clínico. Não existem testes, escalas ou marcadores capazes de estabelecer em definitivo o diagnóstico7. Algumas características comportamentais do autismo já podem ser notadas aos 12-24 meses de idade, mas tornam-se mais evidentes depois dos três anos.

O diagnóstico7 preciso deve ser realizado por um profissional qualificado, baseado no comportamento, observação clínica e informações dos familiares. Recomenda-se atentar bem para a história médica pregressa, a história familiar de doenças neurológicas, psiquiátricas ou genéticas, realizar avaliações complementares e investigar a presença de comorbidades9. Muitas vezes, o autismo pode ser facilmente confundido com outras síndromes ou com outros transtornos globais do desenvolvimento, pelo fato de não haver aspectos sindrômicos específicos.

Exames do nível mental ou de fonoaudiologia podem ser realizados para descartar (ou confirmar) transtornos auditivos ou intelectuais.

Como o autismo deve ser tratado?

Existem diversas abordagens psicológicas e comportamentais, algumas melhor embasadas cientificamente que outras. O tratamento do autismo depende da gravidade do transtorno.

Em crianças pequenas, normalmente a prioridade do tratamento é o desenvolvimento da fala e da interação familiar e social. Com adolescentes, o tratamento é voltado para o desenvolvimento de habilidades sociais e de uma sexualidade saudável. Com adultos, o foco é o desenvolvimento da autonomia e o ensino de regras de convivência.

Os indivíduos com autismo têm uma expectativa de longevidade normal e algumas formas de autismo podem exigir acompanhamento pelo resto da vida. Na verdade, o autismo nunca desaparece completamente, mas os cuidados adequados podem tornar o indivíduo tão adaptado socialmente que os traços autísticos ficam imperceptíveis para aqueles que não conheçam a trajetória de desenvolvimento desses indivíduos.

Um tratamento adequado deve levar em consideração os transtornos eventualmente associados a cada caso. A terapêutica10 pressupõe uma equipe multi e interdisciplinar – pediatra, psiquiatra, psicólogo, fonoaudiólogo, pedagogo11, terapeuta ocupacional12. O sucesso do tratamento depende igualmente do empenho e qualificação desses profissionais e dos estímulos feitos pelos cuidadores no ambiente familiar.

O quadro clínico do autismo não é estático e alguns sintomas13 modificam-se com o tempo e outros podem amenizar ou desaparecer e novas características podem surgir com a evolução do indivíduo.

Os medicamentos continuam sendo importantes em um programa de tratamento, porém nem todos os indivíduos autistas necessitarão deles. Medicamentos que atuam na dopamina14 e serotonina podem ajudar em alguns sintomas13 como redução de estereotipias, retraimento15 social e comportamento agressivo ou autoagressivo.

ABCMED, 2012. Autismo. Conhecendo melhor esta condição.. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/saude-da-crianca/299850/autismo-conhecendo-melhor-esta-condicao.htm>. Acesso em: 16 nov. 2019.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Ecolalia: Repetição patológica e aparentemente sem sentido (“fazer eco“) de uma palavra ou frase recém falada por outra pessoa.
2 Colo: O segmento do INTESTINO GROSSO entre o CECO e o RETO. Inclui o COLO ASCENDENTE; o COLO TRANSVERSO; o COLO DESCENDENTE e o COLO SIGMÓIDE.
3 Bebês: Lactentes. Inclui o período neonatal e se estende até 1 ano de idade (12 meses).
4 Raiva: 1. Doença infecciosa freqüentemente mortal, transmitida ao homem através da mordida de animais domésticos e selvagens infectados e que produz uma paralisia progressiva juntamente com um aumento de sensibilidade perante estímulos visuais ou sonoros mínimos. 2. Fúria, ódio.
5 Infecções: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
6 Vacina: Tratamento à base de bactérias, vírus vivos atenuados ou seus produtos celulares, que têm o objetivo de produzir uma imunização ativa no organismo para uma determinada infecção.
7 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
8 Eminentemente: De modo eminente; em alto grau; acima de tudo.
9 Comorbidades: Coexistência de transtornos ou doenças.
10 Terapêutica: Terapia, tratamento de doentes.
11 Pedagogo: Educador profissional capaz de atuar em espaços escolares e não-escolares, na promoção da aprendizagem de sujeitos em diferentes fases de desenvolvimento humano, em diversos níveis e modalidades do processo educativo. Suas funções são planejar, executar, coordenar, acompanhar e avaliar tarefas próprias do setor da educação como a docência do ensino infantil e fundamental, coordenação pedagógica, orientação educacional e gestão e, ainda, acompanhar e avaliar projetos e experiências educativas em ambientes não escolares como empresas, ONGs, sindicatos, movimentos sociais, hospitais, etc. 2. Pessoa que emprega a pedagogia, que ensina; mestre, professor. 3. Aquele que tem a prática de ensinar. 4. Uso informal, pejorativo: pessoa que julga ter o que ensinar a todos.
12 Terapeuta ocupacional: É o profissional que trabalha com a Terapia Ocupacional. A terapia ocupacional trabalha com a reabilitação das pessoas para as atividades que elas deixaram de fazer devido a algum problema físico (derrame, amputação, tetraplegia), psiquiátrico (esquizofrenia, depressão), mental (Síndrome de Down, autismo), geriátrico (Doença de Alzheimer, Doença de Parkinson) ou social (ex-presidiários, moradores de rua), objetivando melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. Além disso, ela faz a organização e as adaptações do domicílio para facilitar o trânsito dessa pessoa e as medidas preventivas para impedir o aparecimento de deformidades nos braços fazendo exercícios e confeccionando órteses (aparelhos confeccionados sob medida para posicionar partes do corpo).
13 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
14 Dopamina: É um mediador químico presente nas glândulas suprarrenais, indispensável para a atividade normal do cérebro.
15 Retraimento: 1. Ato ou efeito de retrair (-se); retração, contração, encolhimento. 2. Atitude reservada; reserva, timidez, acanhamento. 3. Estado ou condição de quem se encontra só; solidão, isolamento, retiro. 4. Lugar ermo ou solitário; retiro. 5. Retração. 6. Retirada.
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Comentários

13/08/2013 - Comentário feito por josecleide
Re: Autismo. Conhecendo melhor esta condição.
Olha para quem tem duvidas o texto é muito esclarecedor,agora tenho quase certeza que meu filho de 4 anos é uma criança com altismo mas graças a Deus ele tem uma equipe de profissionais o acompanhando e tenho certeza que vai dar tudo certo,parabéns pelo texto é muito importante pra quem ainda está na dúvida.

27/05/2012 - Comentário feito por Rosana
Re: Autismo. Conhecendo melhor esta condição.
Realmente um texto bastante esclarecedor! Pois ainda sentimos muita dificuldade em encontrar profissionais especializados no assunto para fazer um diagnostico, qunado desconfiamos que existe algo errado com o nosso filho.

25/05/2012 - Comentário feito por Rose
Re: Autismo. Conhecendo melhor esta condição.
Realmente o mais importante é, mesmo sem um diagnóstico preciso, sempre procurar por profissionais que acompanhem e estimulem o desenvolvimento da criança, seja Terapia Ocupacional, Estimulação Precoce, Fono, Psicólogo... E que os pais aceitem que a criança tem algo diferente e precisa de ajuda. "O pior cego é aquele que não deseja ver".

24/05/2012 - Comentário feito por Larissa
Re: Autismo. Conhecendo melhor esta condição.
Muto boa a reportagem, também estou tendo uma certa dificuldade em encontrar uma resposta para o caso do meu filho. Os especialistas que já levei tem opniões diferentes, até hoje o mais perto que já cheguei foi numa conversa com a fono do meu filho em que ela disse que há possibilidades dele ter sim características autísticas, mas que só poderia ser confirmado num conjunto de avaliações por uma série de profissionais, como diz aqui mesmo nessa reportagem, neuro, psicologo, psiquiatra e etc... mas já levei a neuro e ela não gostou quando eu disse que a fono pediu para que eu o levasse pois ele poderia ser autista, ela disse que ele não tem autismo através de uma avaliação esdruxula daquelas famosas perguntas a criança, qual seu nome, quem é sua mãe, chamando-o pelo nome para ver se ele atende e etc... ao final da consulta eu conversando com ela e a questionando sobre algumas atitudes dele, ela chegou a conclusão que ele tinha um autismo mas leve e passou remédio pra ele, hum, acha que eu dei??? Como vou confiar num profissional desses?? Levei ele a psicóloga de um posto de saúde que teve 2 encontros que somados deram quase que 30 minutos e na semana que vem vou retornar pois ela já vai me passar uma avaliação dele, como??? Acho que ela vai dizer a mesma coisa, que ele não tem nada, e eu torço por isso mas eu sinto que não é bem assim. Pesquiso muito sobre o assunto já li várias reportagens e em algumas dela haviam coisas que se encaixavam no comportamento do meu filho, a chamada Síndrome de Asperguer, vocês poderiam fazer uma reportagem sobre o assunto pois essa síndrome é do espectro autista, é o autismo em um grau muito leve, que é o que eu acho que o meu filho tem.

24/05/2012 - Comentário feito por Roberta
Re: Autismo. Conhecendo melhor esta condição.
Excelente reportagem.
Senti falta de uma reportagem simples e abrangente como esta quando me deparei com a possibilidade do autismo no meu filho de 4 anos, confirmada depois de muita luta pela falta de profissionais especializados no assunto.
Obrigada!!

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