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Hiperlexia: seu filho aprendeu a ler quando era muito novo?

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O que é hiperlexia?

A hiperlexia (grego: hiper = super + léxis = palavra) é uma síndrome1 caracterizada pela capacidade precoce de leitura da criança, também conhecida como a síndrome1 da leitura precoce. Foi definida inicialmente como a capacidade precoce de ler palavras sem treinamento prévio, aprendendo a ler tipicamente antes dos 5 anos de idade, mas, surpreendentemente, já pode acontecer a partir de 18-24 meses.

As crianças com hiperlexia têm uma capacidade de decodificação de palavras significativamente maior do que seus níveis de compreensão de leitura. Elas também apresentam um fascínio intenso por material escrito (letras e números) em uma idade muito precoce. Contudo, a criança hiperléxica consegue ler de maneira mecânica sem compreender o que está escrito. Elas são extremamente aptas a decodificar a linguagem e, assim, muitas vezes desenvolvem facilidades para ler.

A hiperlexia foi inicialmente identificada por Norman E. Silberberg e Margaret C. Silberberg, em1967.

Quais são as causas da hiperlexia?

Embora uma causa específica ainda não seja conhecida, pesquisas em genética e estudos funcionais de ressonância magnética2 podem fornecer algumas informações. A presença de hiperlexia, assim como outros distúrbios do desenvolvimento, reflete uma diferença na organização neurológica do cérebro3.

Existe uma forte relação entre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e a Hiperlexia, porém, cabe esclarecer que ela não está presente em todos os quadros de TEA, bem como não é verdade que todas as hiperlexias estão dentro do espectro autista.

Saiba mais sobre "Autismo", "Sintomas4 precoces de autismo" e "Síndrome1 de Asperger".

Como se desenvolve a hiperlexia?

Embora as crianças com hiperlexia usualmente aprendam a ler de maneira não comunicativa, vários estudos mostraram que elas podem adquirir compreensão de leitura e linguagem comunicativa após o início da hiperlexia. Apesar da capacidade de leitura precoce, as crianças com hiperlexia podem precisar se esforçar para se comunicar. Muitas vezes elas aprenderão a falar apenas por repetições rotineiras e também poderão ter dificuldade em aprender as regras da linguagem a partir de exemplos ou de tentativas e erros, o que pode resultar em problemas sociais.

Sua linguagem pode se desenvolver usando apenas a ecolalia5 (repetição das palavras ouvidas), muitas vezes repetindo palavras e frases ouvidas, sem entendê-las bem. A criança costuma ter um amplo vocabulário e pode identificar muitos objetos e imagens, mas não consegue usar bem suas habilidades de fala. Falta linguagem espontânea e sua fala pragmática é adiada.

Em boa parte dos casos, as crianças com hiperlexia fazem grandes progressos na comunicação entre as idades de 4 e 5 anos. No entanto, é preciso um cuidado especial em relação às habilidades sociais, pois geralmente elas têm muito menos interesse em brincar e se relacionar com outras crianças.

Quais são as principais características da hiperlexia?

Alguns especialistas acreditam que as crianças com hiperlexia se encontram no espectro do autismo, embora nem sempre isso ocorra. Embora não seja algo tão comum relacioná-las ao autismo, é verdade que existem casos em que ambos podem, sim, estar associados.

Essas crianças são caracterizadas por terem um quociente intelectual (QI6) médio ou acima da média e capacidade de leitura de palavras bem acima do que seria esperado para a idade. Elas podem aprender a escrever palavras longas (como “elefante”, por exemplo) antes dos dois anos de idade e aprender a ler frases inteiras antes de completarem três anos. Algumas, no entanto, têm dificuldade em entender a fala.

Outra característica é a dificuldade que têm para se relacionar com outras pessoas da mesma faixa etária que elas, devido à limitação de sua linguagem. O paciente com hiperlexia não é adepto de situações novas, demonstra gosto pelas rotinas e tem pouca atenção por qualquer conversa ou atividade que não seja de seu estrito interesse. A Síndrome1 de Asperger também pode estar relacionada aos casos de hiperlexia.

De uma maneira mais direta, a hiperlexia pode ser suspeitada ante os seguintes sinais7 e sintomas4: capacidade precoce de leitura; dificuldade em entender e usar a linguagem verbal; dificuldade em responder a perguntas; fortes habilidades de memória e para o pensamento concreto e dificuldades com habilidades sociais, como iniciar e manter conversas, por exemplo.

Ver também sobre "Isolamento social", "Distúrbios de aprendizagem escolar" e "Dificuldades de adaptação das crianças à escola".

Como reconhecer a hiperlexia?

O sinal8 que mais chama a atenção nas crianças hiperléxicas é a precocidade com que aprendem a leitura, mas deve-se também estar atento aos demais sintomas4. Embora estes sintomas4 tendam a diminuir com o tempo, o estilo de aprendizagem característico permanece até a idade adulta.

Um fonoaudiólogo deve completar as avaliações formais e informais da linguagem, observando as habilidades de codificação e reconhecimento visual de palavras, o conhecimento de vocabulário, sua capacidade de responder a perguntas de conversação e questões de compreensão de leitura e outras habilidades de linguagem receptiva e expressiva.

Como tratar a hiperlexia?

O tratamento dependerá da gravidade do distúrbio cognitivo9, da capacidade da aprendizagem de linguagem e das habilidades sociais associadas à hiperlexia. A terapia envolverá o uso dos pontos fortes da criança, como, por exemplo, as habilidades de memorização, como base para aprender novas habilidades.

Assim, a aprendizagem de línguas pode ser suportada pela linguagem escrita e, quando a criança começa a compreender a linguagem verbal, a linguagem escrita pode ser usada com menos frequência. Outras áreas de fraqueza, como o convívio com crianças com idades semelhantes, serão explicitamente ensinadas e praticadas.

Leia sobre "Fonoaudiologia" e "Dislexia".

 

ABCMED, 2019. Hiperlexia: seu filho aprendeu a ler quando era muito novo?. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/saude-da-crianca/1338493/hiperlexia-seu-filho-aprendeu-a-ler-quando-era-muito-novo.htm>. Acesso em: 19 jul. 2019.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Síndrome: Conjunto de sinais e sintomas que se encontram associados a uma entidade conhecida ou não.
2 Ressonância magnética: Exame que fornece imagens em alta definição dos órgãos internos do corpo através da utilização de um campo magnético.
3 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
4 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
5 Ecolalia: Repetição patológica e aparentemente sem sentido (“fazer eco“) de uma palavra ou frase recém falada por outra pessoa.
6 QI: O QI é utilizado para dimensionar a inteligência humana em relação à faixa etária a que um sujeito pertence. Em 1905, os franceses Alfred Binet e Theodore Simon desenvolveram uma ferramenta para avaliar os potenciais cognitivos dos estudantes, tentando detectar entre eles aqueles que precisavam de um auxílio maior de seus mestres, criando a Escala de Binet-Simon. Outros estudiosos aperfeiçoaram esta metodologia. William Stern foi quem, em 1912, propôs o termo “QI“. O Quociente de Inteligência é a razão entre a Idade Mental e a Cronológica, multiplicada por 100 para se evitar a utilização dos decimais. Seguindo-se este indicador, é possível avaliar se um infante é precoce ou se apresenta algum retardamento no aprendizado. Os que apresentam o quociente em torno de 100 são considerados normais, os acima deste resultado revelam-se precoces e os que alcançam um valor mais inferior (cerca de 70) são classificados como retardados. Uma alta taxa de QI não indica que o indivíduo seja mentalmente são, ou mesmo feliz, e também não avalia outros potenciais e capacidades, tais como as artísticas e as de natureza espiritual. O QI mede bem os talentos linguísticos, os pensamentos lógicos, matemáticos e analíticos, a facilidade de abstração em construções teóricas, o desenvolvimento escolar, o saber acadêmico acumulado ao longo do tempo. Os grandes gênios do passado, avaliados dessa forma, apresentavam uma taxa de aproximadamente 180, o que caracteriza um superdotado.
7 Sinais: São alterações percebidas ou medidas por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida.
8 Sinal: 1. É uma alteração percebida ou medida por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida. 2. Som ou gesto que indica algo, indício. 3. Dinheiro que se dá para garantir um contrato.
9 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
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