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Como é o sono? Quais são os principais transtornos do sono?

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Como é o sono?

O sono é um fenômeno fisiológico1 que envolve uma alteração do sistema nervoso2, suspendendo parcialmente as relações do indivíduo com o mundo externo, por cerca de 1/3 da vida. É de pensar-se, pois, que o sono tem alguma função orgânica, embora ela ainda não seja conhecida.

Desde o início, duas correntes de pensamento marcaram os estudos sobre o sono. Uma delas o considerava um fenômeno passivo, resultante da não estimulação do cérebro3; a outra, uma decorrência de mecanismos ativos que podem produzir manifestações fisiológicas4 diversas e sonhos. Os estudos recentes mostram que o dormir é um processo ativo, que se realiza por ciclos mais ou menos típicos durante a vida, indo de uma fase policíclica no bebê, passando por outra, bicíclica, na criança pequena, até converter-se em monocíclica, no adulto.

Descrevem-se quatro ciclos, nomeados de estágios I, II, III e IV, após os quais ocorre o chamado sono paradoxal5 ou sono R.E.M. (rapid eyes moviments), durante o qual há uma atividade eletroencefolográfica parecida à da vigília, pelo que esse período do sono também é conhecido como sono rápido, sono ativado, sono dessincronizado6 ou sono paradoxal5. Esse período do sono é marcado por um sono profundo e por ocorrências fisiológicas4 marcantes (aceleração da respiração, elevação da tensão arterial e da temperatura, secreção de hormônios e ereção7 de pênis8 etc), surtos de movimentos rápidos dos olhos9 e incidência10 de sonhos. No adulto, ele ocupa 20 a 25% do total do sono. Após este período se completa um ciclo de sono e se repetem os estágios anteriores. Durante uma noite de sono, cada pessoa faz de quatro a seis ciclos de sono com duração média de 80 minutos. A percentagem de sono R.E.M tende a ser tão constante que, se houver privação do mesmo em um ciclo, ocorre uma compensação no ciclo seguinte. Ele se inicia mais prontamente e se torna mais longo. Isso sugere que ele tenha uma função biológica necessária.

Quais são os principais transtornos do sono?

Os principais transtornos do sono são:

Insônias

A insônia constitui uma “inabilidade crônica para obter a quantidade ou qualidade de sono necessária para manter um adequado comportamento diurno”. Pode-se reconhecer os seguintes tipos de insônias: insônia inicial, dificuldade de começar a dormir; insônia intermitente11, a pessoa começa bem o sono, mas acorda muito e tem dificuldade de voltar a dormir; insônia terminal, o despertar ocorre pela madrugada. A insônia é frequente em todas as situações onde existam ansiedade ou depressão. Os benzodiazepínicos, usados por vezes no tratamento das insônias, proporcionam melhora subjetiva na qualidade do sono, mas encurtam o que parece ser a parte repousante ou restauradora do sono.

Parassonias

Parassonias são transtornos causados ou exagerados pelo sono. As mais comuns são:

  • Enurese12: é um distúrbio mais frequente em crianças emocionalmente perturbadas. Às vezes tem causas orgânicas, como diabetes13, cistites, anomalias do trato urinário14, epilepsia15, etc. Ocorre mais em crianças do sexo masculino do que feminino. Podem também ocorrer em adultos jovens ou em idosos.
  • Sonambulismo: caracterizado pelo exercício de atividades motoras bem coordenadas, embora o indivíduo esteja dormindo. De início a pessoa mantém os olhos9 abertos e a expressão vazia e podem ocorrer murmúrios, fala incoerente e respostas monossilábicas. Em casos especiais, as pessoas executam atividades complexas como fazer café, andar de bicicleta, etc. Deixada a si, usualmente a pessoa retorna para a cama e no dia seguinte não se lembra do ocorrido, nem relata um sonho. O sonambulismo é mais frequente no primeiro terço da noite, em que predominam os estágios III e IV, de ondas lentas, e nas famílias de enuréticos (a enurese12 também ocorre nestes estágios), parecendo haver alguma correlação entre esses dois distúrbios.
  • Comportamento R.E.M. anormal: há um desequilíbrio entre a atividade mental do sonho e a ausência da inibição motora relacionada ao conteúdo onírico, fazendo com que o indivíduo "realize" o seu sonho. Esta atividade motora pode atingir a(o) companheira(o) e resultar em traumatismos diretos. Tais pacientes, embora não sejam agressivos quando acordados, podem sê-lo durante o sono. Além disso, costumam relatar sonhos intensos e vívidos, frequentemente com conteúdo agressivo. Nota-se um sono agitado, que pode ocorrer todos os dias, frequentemente no final da noite, quando predomina o sono REM. Pode ser precipitado pelo uso de inibidores da recaptação da noradrenalina16, sendo mais frequente em homens e idosos.
  • Pavor noturno: talvez seja o mais bem estudado dos transtornos do sono. Cerca de trinta minutos após o início do sono a pessoa (em geral uma criança, mas também pode ser um adulto) senta na cama, grita, sua e tem a expressão aterrorizada. As tentativas de acalmá-la, feitas por outras pessoas habitualmente não têm sucesso. Em geral, não se guarda memória do episódio na manhã seguinte.
  • Incubus: parassonia relacionada ao pavor noturno, que ocorre com menor frequência no adulto e é caracterizada por opressão respiratória, paralisia17 parcial e ansiedade.

Sonhos terroríficos

São sonhos de conteúdo assustador ou desconfortável que ocorrem repetidamente em quase todas ou mesmo em todas as noites, às vezes fazendo com que a pessoa tenha medo de dormir. Inversamente à maioria dos distúrbios anteriores, acontecem na fase R.E.M., ocorrem mais na parte terminal do sono, são acompanhados de imagens oníricas e são recordados no dia seguinte. Ao contrário dos fenômenos que ocorrem nas fases de ondas lentas, não tendem a diminuir com a idade, nem são influenciados pelas medicações que afetam aqueles outros transtornos.

Apneia18 do sono

É constituída por episódios de pausas da respiração durante o sono que duram de 15 a 30 segundos, mas que podem levar ao despertar. Em algumas ocasiões ela é devida a uma falta de estímulo central (apneia18 central), a obstruções das vias respiratórias superiores (apneia18 obstrutiva) ou a uma combinação das duas (apneia18 mista). Seja qual for a causa, a paralisia17 ocasiona elevação de gás carbônico e diminuição de oxigênio no sangue19. Embora esse acordar dure apenas uns poucos segundos e quase nunca seja percebido pelo indivíduo, pode chegar a várias centenas numa noite! Pode ocorrer em todas as idades e na maioria das vezes está associada à obesidade20.

Narcolepsia

O principal sintoma21 dessa parassonia é um ataque irresistível de sono que dura de 5 a 30 minutos e que às vezes acontece abruptamente e sem aviso, nas mais inusitadas situações. Outras manifestações são: perda abrupta do tônus muscular22; reação parecida a um desmaio, chamada cataplexia23; paralisias musculares generalizadas ao acordar; alucinações24 hipnagógicas25 (ao acordar); latência26 para o sono diminuída (tempo necessário para continuar a dormir). Durante um acesso típico ocorre queda da mandíbula27, a cabeça28 projeta-se para frente, os braços pendem e os joelhos dobram. Uma das consequências graves da narcolepsia é a morte durante a direção de máquinas ou veículos, por exemplo. Os ataques podem ser precipitados por emoções como raiva29, medo e excitação sexual. O caso típico é o da pessoa enraivecida que de repente cai ao solo, paralisada. Há um forte componente hereditário na causa da narcolepsia, embora em geral seu efeito só se manifeste na segunda década da vida.

ABCMED, 2012. Como é o sono? Quais são os principais transtornos do sono?. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/psicologia-e-psiquiatria/328550/como-e-o-sono-quais-sao-os-principais-transtornos-do-sono.htm>. Acesso em: 16 jun. 2019.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Fisiológico: Relativo à fisiologia. A fisiologia é estudo das funções e do funcionamento normal dos seres vivos, especialmente dos processos físico-químicos que ocorrem nas células, tecidos, órgãos e sistemas dos seres vivos sadios.
2 Sistema nervoso: O sistema nervoso é dividido em sistema nervoso central (SNC) e o sistema nervoso periférico (SNP). O SNC é formado pelo encéfalo e pela medula espinhal e a porção periférica está constituída pelos nervos cranianos e espinhais, pelos gânglios e pelas terminações nervosas.
3 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
4 Fisiológicas: Relativo à fisiologia. A fisiologia é estudo das funções e do funcionamento normal dos seres vivos, especialmente dos processos físico-químicos que ocorrem nas células, tecidos, órgãos e sistemas dos seres vivos sadios.
5 Paradoxal: Que contém ou se baseia em paradoxo(s), que aprecia paradoxo(s). Paradoxo é o pensamento, proposição ou argumento que contraria os princípios básicos e gerais que costumam orientar o pensamento humano, ou desafia a opinião consabida, a crença ordinária e compartilhada pela maioria. É a aparente falta de nexo ou de lógica; contradição.
6 Dessincronizado: Que perdeu a sincronização, a identidade de movimentos, ação, etc.
7 Ereção: 1. Ato ou efeito de erigir ou erguer. 2. Inauguração, criação. 3. Levantamento ou endurecimento do pênis.
8 Pênis: Órgão reprodutor externo masculino. É composto por uma massa de tecido erétil encerrada em três compartimentos cilíndricos fibrosos. Dois destes compartimentos, os corpos cavernosos, ficam lado a lado ao longo da parte superior do órgão. O terceiro compartimento (na parte inferior), o corpo esponjoso, abriga a uretra.
9 Olhos:
10 Incidência: Medida da freqüência em que uma doença ocorre. Número de casos novos de uma doença em um certo grupo de pessoas por um certo período de tempo.
11 Intermitente: Nos quais ou em que ocorrem interrupções; que cessa e recomeça por intervalos; intervalado, descontínuo. Em medicina, diz-se de episódios de febre alta que se alternam com intervalos de temperatura normal ou cujas pulsações têm intervalos desiguais entre si.
12 Enurese: Definida como a perda involuntária de urina. Ocorre quando a pressão dentro da bexiga excede aquela que se verifica dentro da uretra, ou seja, há um aumento considerável da pressão para urinar dentro da bexiga, isso ocorre durante a fase de enchimento do ciclo de micção. Pode também ser designada de “incontinência urinária“. E ocorre com certa frequência à noite, principalmente entre os idosos.
13 Diabetes: Nome que designa um grupo de doenças caracterizadas por diurese excessiva. A mais frequente é o Diabetes mellitus, ainda que existam outras variantes (Diabetes insipidus) de doença nas quais o transtorno primário é a incapacidade dos rins de concentrar a urina.
14 Trato Urinário:
15 Epilepsia: Alteração temporária e reversível do funcionamento cerebral, que não tenha sido causada por febre, drogas ou distúrbios metabólicos. Durante alguns segundos ou minutos, uma parte do cérebro emite sinais incorretos, que podem ficar restritos a esse local ou espalhar-se. Quando restritos, a crise será chamada crise epiléptica parcial; quando envolverem os dois hemisférios cerebrais, será uma crise epiléptica generalizada. O paciente pode ter distorções de percepção, movimentos descontrolados de uma parte do corpo, medo repentino, desconforto no estômago, ver ou ouvir de maneira diferente e até perder a consciência - neste caso é chamada de crise complexa. Depois do episódio, enquanto se recupera, a pessoa pode sentir-se confusa e ter déficits de memória. Existem outros tipos de crises epilépticas.
16 Noradrenalina: Mediador químico do grupo das catecolaminas, liberado pelas fibras nervosas simpáticas, precursor da adrenalina na parte interna das cápsulas das glândulas suprarrenais.
17 Paralisia: Perda total da força muscular que produz incapacidade para realizar movimentos nos setores afetados. Pode ser produzida por doença neurológica, muscular, tóxica, metabólica ou ser uma combinação das mesmas.
18 Apnéia: É uma parada respiratória provocada pelo colabamento total das paredes da faringe que ocorre principalmente enquanto a pessoa está dormindo e roncando. No adulto, considera-se apnéia após 10 segundos de parada respiratória. Como a criança tem uma reserva menor, às vezes, depois de dois ou três segundos, o sangue já se empobrece de oxigênio.
19 Sangue: O sangue é uma substância líquida que circula pelas artérias e veias do organismo. Em um adulto sadio, cerca de 45% do volume de seu sangue é composto por células (a maioria glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). O sangue é vermelho brilhante, quando oxigenado nos pulmões (nos alvéolos pulmonares). Ele adquire uma tonalidade mais azulada, quando perde seu oxigênio, através das veias e dos pequenos vasos denominados capilares.
20 Obesidade: Condição em que há acúmulo de gorduras no organismo além do normal, mais severo que o sobrepeso. O índice de massa corporal é igual ou maior que 30.
21 Sintoma: Qualquer alteração da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. O sintoma é a queixa relatada pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
22 Tônus muscular: Estado de tensão elástica (contração ligeira) que o músculo apresenta em repouso e que lhe permite iniciar a contração imediatamente depois de receber o impulso dos centros nervosos. Num estado de relaxamento completo (sem tônus), o músculo levaria mais tempo para iniciar a contração.
23 Cataplexia: Na medicina, é o mesmo que apoplexia ou perda repentina do tono muscular provocada por emoção forte, às vezes associada a um irresistível desejo de dormir. Prostração por súbito ataque de uma doença, sono hipnótico. Em veterinária, entre animais, é uma emoção forte que produz rigidez muscular. Em zoologia, aparência de morte simulada por certos animais como estratégia de defesa.
24 Alucinações: Perturbações mentais que se caracterizam pelo aparecimento de sensações (visuais, auditivas, etc.) atribuídas a causas objetivas que, na realidade, inexistem; sensações sem objeto. Impressões ou noções falsas, sem fundamento na realidade; devaneios, delírios, enganos, ilusões.
25 Hipnagógicas: 1. Que provoca o sono; hipnótico, sonífero. 2. Referente ou associado ao entorpecimento que precede o sono. 3. Paralisias rápidas e transitórias que acometem a pessoa quando ela está pegando no sono.
26 Latência: 1. Estado, caráter daquilo que se acha latente, oculto. 2. Por extensão de sentido, é o período durante o qual algo se elabora, antes de assumir existência efetiva. 3. Em medicina, é o intervalo entre o começo de um estímulo e o início de uma reação associada a este estímulo; tempo de reação. 4. Em psicanálise, é o período (dos quatro ou cinco anos até o início da adolescência) durante o qual o interesse sexual é sublimado; período de latência.
27 Mandíbula: O maior (e o mais forte) osso da FACE; constitui o maxilar inferior, que sustenta os dentes inferiores. Sinônimos: Forame Mandibular; Forame Mentoniano; Sulco Miloióideo; Maxilar Inferior
28 Cabeça:
29 Raiva: 1. Doença infecciosa freqüentemente mortal, transmitida ao homem através da mordida de animais domésticos e selvagens infectados e que produz uma paralisia progressiva juntamente com um aumento de sensibilidade perante estímulos visuais ou sonoros mínimos. 2. Fúria, ódio.
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