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Folie à deux” (Loucura a dois)

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O que é "Folie à deux" (Loucura a dois)?

Folie à deux”, "loucura de dois", psicose1 induzida ou psicose1 compartilhada são algumas denominações de uma síndrome2 psiquiátrica rara em que os sintomas3 de uma crença delirante e, menos comumente, alucinações4, são transmitidas de um indivíduo acometido de uma doença psiquiátrica para outro, susceptível.

Ela pode ser compartilhada por três (“folie à trois”), quatro (“folie à quatre”) ou mais pessoas, chegando a acometer toda uma família (“folie en famille”) e mesmo todo um grande grupo de pessoas (“folie à plusieurs"). Embora a literatura psiquiátrica continue a usar a denominação original em francês, as classificações psiquiátricas recentes referem-se à síndrome2 como transtorno delirante induzido (CID-10) ou transtorno psicótico compartilhado (DSM-5).

Essa desordem foi inicialmente conceituada na psiquiatria francesa em 1877 por Charles Lasègue e Jean-Pierre Falret e por isso é conhecida também como síndrome2 de Lasègue-Falret.

Quais são as causas da "Folie à deux" (Loucura a dois)?

Fatores genéticos parecem estar envolvidos, mas fatores ambientais também ajudam a determinar o desenvolvimento desta doença, pois é necessário o convívio íntimo entre os parceiros para que ela ocorra. Em vista disso, relações pessoais próximas, duradouras e isoladas socialmente são o maior fator de risco5 para o desenvolvimento desta condição.

Saiba mais sobre "Isolamento social", "Psicose1 reativa" e "Alucinose orgânica".

Quais são as principais características clínicas da "Folie à deux" (Loucura a dois)?

Como dito, essa síndrome2 ocorre mais comumente quando dois ou mais indivíduos envolvidos são muito próximos, estão social ou fisicamente isolados e têm pouca interação com outras pessoas. A “folie à deux” é um transtorno psicótico compartilhado no qual o doente consegue "convencer" a outra pessoa das suas próprias crenças psicóticas, embora esta segunda pessoa não apresente distúrbios psicológicos.

Várias subclassificações foram propostas para descrever como a crença delirante vem a ser sustentada por mais de uma pessoa:

  1. Folie imposée” (loucura imposta)  uma pessoa dominante, conhecida como "primária", "indutora" ou "principal", forma inicialmente uma crença ilusória durante um episódio psicótico e a impõe a outra pessoa ou pessoas, conhecidas como "secundárias" ou "receptoras".
  2. Folie simultanée” (loucura simultânea) — descreve a situação em que duas pessoas que sofrem independentemente de psicose1 influenciam o conteúdo das ilusões uma da outra, tornando-se idênticas ou surpreendentemente semelhantes.
  3. Folie communiquée” (loucura comunicada) — após longo período de resistência, a pessoa saudável acaba sendo envolvida, mas a psicose1 persiste mesmo quando a pessoa secundária é separada da causadora.
  4. Folie induite” (loucura induzida)  um paciente com psicose1 grave adiciona ideias delirantes a um paciente susceptível à psicose1.

O indivíduo que é o verdadeiro psicótico (agente “primário”) geralmente é de caráter mais enérgico e ativo que o indivíduo induzido (agente “secundário”), mas este também exerce um papel ativo. O indivíduo que sofre a influência do indutor é mais tímido, mais passivo e com menor autoestima que o doente primário e costuma viver uma relação constante com esse último, de forma praticamente isolada de outras pessoas, alheio, portanto, à uma rede mais ampla de contatos sociais significativos.

Ele se engaja na sua loucura em função de algum interesse pessoal. A natureza desse interesse parece apontar para uma recompensa em termos do apoio e de intimidade que se fortalecem com o desenvolvimento da loucura a dois. As ideias delirantes de ambos participantes se retroalimentam e eles passam a compartilhar um sistema comum de crenças.

A esquizofrenia6 parece ser o diagnóstico7 mais comum do caso primário, embora possa haver também outros diagnósticos. Num arremedo menos incisivo dessa ocorrência, os transtornos paranoides ou histéricos costumam ser seguidos, pelo menos transitoriamente e até certo ponto, por um indivíduo sadio.

O conteúdo das crenças delirantes compartilhadas pode depender do diagnóstico7 do caso primário e incluir delírios relativamente bizarros, delírios congruentes com o humor ou delírios não-bizarros característicos do Transtorno Delirante.

Leia sobre "Psicoses", "Esquizofrenia6", "Paranoia" e "Histeria".

Como tratar a "Folie à deux" (Loucura a dois)?

Frequentemente é necessário começar o tratamento separando os dois ou mais indivíduos envolvidos. A simples separação dos indivíduos envolvidos quase sempre já é suficiente para curar a pessoa induzida a acreditar na psicose1.

O agente “primário” geralmente exige tratamento medicamentoso com antipsicóticos. O agente “secundário” na maioria dos casos pode ser tratado com psicoterapia, mas se seu comprometimento for especialmente grave e ele for excessivamente susceptível à psicose1 pode também exigir medicação, caso o afastamento não seja suficiente.

Como evolui a "Folie à deux" (Loucura a dois)?

As pessoas de idade avançada parecem ser mais vulneráveis à essa condição. Sem intervenção terapêutica8, o curso pode ser crônico9, uma vez que o transtorno ocorre com maior frequência em relacionamentos de longa duração e resistentes a mudanças. Com a separação do agente primário, as crenças delirantes do outro indivíduo desaparecem, às vezes rapidamente e, outras vezes, bem lentamente.

Veja também sobre "Antipsicóticos", "Psicoterapia" e "Alucinações4".

 

ABCMED, 2018. “Folie à deux” (Loucura a dois). Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/psicologia-e-psiquiatria/1319433/folie+a+deux+loucura+a+dois.htm>. Acesso em: 19 jun. 2019.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Psicose: Grupo de doenças psiquiátricas caracterizadas pela incapacidade de avaliar corretamente a realidade. A pessoa psicótica reestrutura sua concepção de realidade em torno de uma idéia delirante, sem ter consciência de sua doença.
2 Síndrome: Conjunto de sinais e sintomas que se encontram associados a uma entidade conhecida ou não.
3 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
4 Alucinações: Perturbações mentais que se caracterizam pelo aparecimento de sensações (visuais, auditivas, etc.) atribuídas a causas objetivas que, na realidade, inexistem; sensações sem objeto. Impressões ou noções falsas, sem fundamento na realidade; devaneios, delírios, enganos, ilusões.
5 Fator de risco: Qualquer coisa que aumente a chance de uma pessoa desenvolver uma doença.
6 Esquizofrenia: Doença mental do grupo das Psicoses, caracterizada por alterações emocionais, de conduta e intelectuais, caracterizadas por uma relação pobre com o meio social, desorganização do pensamento, alucinações auditivas, etc.
7 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
8 Terapêutica: Terapia, tratamento de doentes.
9 Crônico: Descreve algo que existe por longo período de tempo. O oposto de agudo.
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