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Trepanação: o que é e para que serve?

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O que é trepanação?

Trepanação (do grego: trupanon = broca) é a intervenção cirúrgica que consiste em fazer uma perfuração regular em qualquer osso, com um trépano, que é uma espécie de broca neurocirúrgica. Na medicina atual, o termo trepanação é usado principalmente para se referir a um ou mais orifícios no crânio1 com finalidades terapêuticas. Mas não foi sempre assim.

No passado, a trepanação foi praticada com objetivos filosóficos, religiosos e místicos. Há evidências de que a trepanação tenha estado presente desde o período mesolítico e em quase todas as culturas antigas encontram-se cadáveres com sinais2 de trepanação. No museu geológico de Lisboa, encontram-se expostos crânios desse período, assim marcados, com um pequeno sol desenhado em redor do orifício, sugerindo uma prática ritual. Na França foi encontrado um crânio1 trepanado datado de cerca de 5000 a.C. Ainda hoje, a trepanação é realizada cerimonialmente em certas tribos africanas. Assim como as sangrias, a trepanação era um procedimento muitas vezes realizado com o objetivo de eliminar os maus espíritos e demônios do corpo do paciente, mas sem nenhum significado terapêutico prático.

Por que fazer uma trepanação craniana?

A trepanação craniana faz-se, principalmente, para descomprimir o cérebro3. Vários procedimentos neurocirúrgicos podem ser realizados através de um orifício de trepanação, como ventriculostomia endoscópica, drenagem4 de hematomas5 subdurais, propedêutica neurocirúrgica, descompressão6 microvascular, cirurgias estereotáxicas, etc.

Uma trepanação única serve para se criar uma abertura por onde se pode drenar um hematoma7 intracraniano ou se inserir um cateter. Numa craniotomia8, várias trepanações são feitas para se criar os vértices do polígono ósseo que deve ser retirado do crânio1, seccionado por uma serra especial, a partir desses furos.

Como é feita a trepanação?

O furo da trepanação craniana é feito com uma boca9 cirúrgica, instrumento inventado pelo neurocirurgião francês Paul Broca. Ele consta de um pino giratório cortante, movido à eletricidade, que produz furos de 2 a 5 centímetros de diâmetro. Durante a trepanação, utiliza-se soro10 fisiológico11 para resfriar a ponta da broca e para umidificar o pó de osso, de modo a torná-lo fácil de ser recolhido do local, uma vez que ele pode vir a ser usado para fechar novamente o orifício. Se a irrigação não for adequada, haverá liberação de calor, alterando a vitalidade e a viabilidade ósseas e mesmo necrose12 do material.

Várias técnicas e materiais são utilizados para ocluir os orifícios produzidos pela trepanação, depois de realizado o procedimento médico em causa. Os materiais usados podem ser autólogos (pó do próprio osso perfurado, músculo, aponeurose, periósteo13 e gordura14, por exemplo) ou heterólogos (placas15 e parafusos de titânio, cera para osso, gelfoam, botão de silicone, cerâmica de hidroxiapatita, etc.).

Leia nossos artigos relacionados sobre "Craniotomia8", "Hematoma7 subdural", "Tumores cerebrais" e "Hipertensão16 intracraniana"

Quais são as complicações possíveis da trepanação?

O material ósseo desvitalizado pelo aquecimento, usado para tentar ocluir os orifícios, pode predispor à infecção17 e/ou reabsorção no pós-operatório. A seguir, deve-se administrar profilaticamente um antibiótico e deixar o resíduo ósseo em local separado, até ser reutilizado.

Nas trepanações isoladas há uma dificuldade técnica para suturar e fechar a dura-máter18 que se encontra no fundo de um orifício pequeno, o que favorece a formação de uma fístula19 liquórica e o escape de líquido cefalorraquidiano20.

Alguns dos materiais heterólogos de fechamento podem apresentar reação de corpo estranho que exija a utilização de corticoides ou a retirada deles.

 

ABCMED, 2016. Trepanação: o que é e para que serve?. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/exames-e-procedimentos/1268173/trepanacao-o-que-e-e-para-que-serve.htm>. Acesso em: 22 out. 2019.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Crânio: O ESQUELETO da CABEÇA; compreende também os OSSOS FACIAIS e os que recobrem o CÉREBRO. Sinônimos: Calvaria; Calota Craniana
2 Sinais: São alterações percebidas ou medidas por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida.
3 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
4 Drenagem: Saída ou retirada de material líquido (sangue, pus, soro), de forma espontânea ou através de um tubo colocado no interior da cavidade afetada (dreno).
5 Hematomas: Acúmulo de sangue em um órgão ou tecido após uma hemorragia.
6 Descompressão: Ato ou efeito de descomprimir, de aliviar o que está sob efeito de pressão ou de compressão.
7 Hematoma: Acúmulo de sangue em um órgão ou tecido após uma hemorragia.
8 Craniotomia: Abertura cirúrgica do crânio realizada com o objetivo de se chegar ao encéfalo.
9 Boca: Cavidade oral ovalada (localizada no ápice do trato digestivo) composta de duas partes
10 Soro: Chama-se assim qualquer líquido de características cristalinas e incolor.
11 Fisiológico: Relativo à fisiologia. A fisiologia é estudo das funções e do funcionamento normal dos seres vivos, especialmente dos processos físico-químicos que ocorrem nas células, tecidos, órgãos e sistemas dos seres vivos sadios.
12 Necrose: Conjunto de processos irreversíveis através dos quais se produz a degeneração celular seguida de morte da célula.
13 Periósteo: Membrana de tecido conectivo que reveste exteriormente os ossos e da qual podem formar-se elementos ósseos.
14 Gordura: Um dos três principais nutrientes dos alimentos. Os alimentos que fornecem gordura são: manteiga, margarina, óleos, nozes, carnes vermelhas, peixes, frango e alguns derivados do leite. O excesso de calorias é estocado no organismo na forma de gordura, fornecendo uma reserva de energia ao organismo.
15 Placas: 1. Lesões achatadas, semelhantes à pápula, mas com diâmetro superior a um centímetro. 2. Folha de material resistente (metal, vidro, plástico etc.), mais ou menos espessa. 3. Objeto com formato de tabuleta, geralmente de bronze, mármore ou granito, com inscrição comemorativa ou indicativa. 4. Chapa que serve de suporte a um aparelho de iluminação que se fixa em uma superfície vertical ou sobre uma peça de mobiliário, etc. 5. Placa de metal que, colocada na dianteira e na traseira de um veículo automotor, registra o número de licenciamento do veículo. 6. Chapa que, emitida pela administração pública, representa sinal oficial de concessão de certas licenças e autorizações. 7. Lâmina metálica, polida, usualmente como forma em processos de gravura. 8. Área ou zona que difere do resto de uma superfície, ordinariamente pela cor. 9. Mancha mais ou menos espessa na pele, como resultado de doença, escoriação, etc. 10. Em anatomia geral, estrutura ou órgão chato e em forma de placa, como uma escama ou lamela. 11. Em informática, suporte plano, retangular, de fibra de vidro, em que se gravam chips e outros componentes eletrônicos do computador. 12. Em odontologia, camada aderente de bactérias que se forma nos dentes.
16 Hipertensão: Condição presente quando o sangue flui através dos vasos com força maior que a normal. Também chamada de pressão alta. Hipertensão pode causar esforço cardíaco, dano aos vasos sangüíneos e aumento do risco de um ataque cardíaco, derrame ou acidente vascular cerebral, além de problemas renais e morte.
17 Infecção: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
18 Dura-Máter: A mais externa das três MENINGES, uma membrana fibrosa de tecido conjuntivo que cobre o encéfalo e cordão espinhal.
19 Fístula: Comunicação anormal entre dois órgãos ou duas seções de um mesmo órgão entre si ou com a superfície. Possui um conduto de paredes próprias.
20 Líquido cefalorraquidiano: Líquido cefalorraquidiano (LCR), também conhecido como líquor ou fluido cérebro espinhal, é definido como um fluido corporal estéril, incolor, encontrado no espaço subaracnoideo no cérebro e na medula espinhal (entre as meninges aracnoide e pia-máter). Caracteriza-se por ser uma solução salina pura, com baixo teor de proteínas e células, atuando como um amortecedor para o córtex cerebral e a medula espinhal. Possui também a função de fornecer nutrientes para o tecido nervoso e remover resíduos metabólicos do mesmo. É sintetizado pelos plexos coroidais, epitélio ventricular e espaço subaracnoideo em uma taxa de aproximadamente 20 mL/hora. Em recém-nascidos, este líquido é encontrado em um volume que varia entre 10 a 60 mL, enquanto que no adulto fica entre 100 a 150 mL.
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