Demência LATE: quando o declínio cognitivo não é Alzheimer

O que é demência LATE?
A demência LATE (do inglês Limbic-predominant Age-related TDP-43 Encephalopathy) é uma condição clínico-patológica descrita formalmente em 2019, que tem ganhado grande relevância no estudo das demências em indivíduos muito longevos.
Trata-se de uma encefalopatia neurodegenerativa associada ao envelhecimento, caracterizada pelo acúmulo anormal da proteína TDP-43 (TAR DNA-binding protein 43) predominantemente em estruturas límbicas do cérebro. Ela acomete principalmente pessoas com mais de 80 anos, sendo uma causa frequente e ainda sub-reconhecida de declínio cognitivo nessa faixa etária.
Quais são as causas da demência LATE?
As causas exatas da demência LATE ainda não são completamente esclarecidas, mas estão fortemente associadas ao processo de envelhecimento cerebral. Diferentemente de outras demências, como a doença de Alzheimer, não há uma etiologia única bem definida.
Entre os fatores associados ao desenvolvimento da LATE, destacam-se:
- o envelhecimento avançado, sendo incomum antes dos 75–80 anos;
- a predisposição genética, especialmente variantes em genes como GRN e TMEM106B, além do alelo APOE ε4, embora essa associação seja menos consistente do que na doença de Alzheimer;
- os processos neurodegenerativos relacionados à proteína TDP-43, que também está implicada em condições como a esclerose lateral amiotrófica e algumas formas de demência frontotemporal;
- a presença de comorbidades vasculares, como hipertensão arterial, diabetes mellitus e aterosclerose, que aumentam a vulnerabilidade cerebral;
- e a coexistência com outras patologias neurodegenerativas ou cerebrovasculares, o que potencializa o impacto clínico do declínio cognitivo.
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Qual é a fisiopatologia da demência LATE?
A fisiopatologia da demência LATE é marcada pelo acúmulo patológico da proteína TDP-43 no citoplasma neuronal. Em condições normais, essa proteína encontra-se predominantemente no núcleo celular, onde desempenha papel fundamental na regulação do RNA e na homeostase neuronal. Na LATE, a TDP-43 sofre alterações conformacionais anormais, migra para o citoplasma e forma agregados insolúveis e neurotóxicos, levando à perda de sua função nuclear e à toxicidade citoplasmática.
Esses depósitos ocorrem principalmente em regiões límbicas, como a amígdala, o hipocampo, o córtex entorrinal e o giro do cíngulo, estruturas essenciais para a memória, a regulação emocional e o comportamento. O acúmulo progressivo de TDP-43 resulta em disfunção sináptica, perda neuronal e atrofia cerebral. Com a progressão da doença, outras áreas corticais podem ser secundariamente envolvidas, contribuindo para o agravamento do comprometimento cognitivo global.
Diferentemente da doença de Alzheimer, a LATE não é caracterizada primariamente pela deposição de beta-amiloide ou pela formação de emaranhados neurofibrilares de tau, embora essas alterações frequentemente coexistam no mesmo indivíduo, especialmente em idades mais avançadas.
Quais são as características clínicas da demência LATE?
A demência LATE pode se manifestar de forma muito semelhante à doença de Alzheimer de início tardio, especialmente no que se refere ao comprometimento progressivo da memória. No entanto, trata-se de uma condição distinta, com mecanismos patológicos próprios. Com frequência, a LATE coexiste com outras patologias neurodegenerativas ou vasculares, o que dificulta ainda mais seu reconhecimento clínico isolado.
As manifestações clínicas se desenvolvem de maneira insidiosa e lentamente progressiva, sendo o sintoma inicial mais comum o comprometimento da memória episódica, o que frequentemente leva à confusão diagnóstica com a doença de Alzheimer. São características típicas:
- o déficit de memória recente, com dificuldade para aprender e reter novas informações;
- a desorientação temporal progressiva;
- dificuldade na evocação de palavras, associada à lentificação do pensamento;
- a preservação relativa de outras funções cognitivas nas fases iniciais;
- alterações comportamentais geralmente leves, como apatia, retraimento social ou irritabilidade;
- e o declínio funcional gradual, inicialmente afetando atividades instrumentais da vida diária.
Nas fases mais avançadas, podem surgir prejuízos cognitivos mais difusos, incluindo comprometimento visuoespacial, maior alteração da linguagem e aumento progressivo da dependência funcional.
Como o médico diagnostica a demência LATE?
Atualmente, o diagnóstico da demência LATE em vida é presuntivo e clínico, uma vez que a confirmação definitiva da patologia relacionada à TDP-43 ainda depende de exame neuropatológico pós-morte. O processo diagnóstico envolve:
- uma avaliação clínica detalhada, com história de declínio cognitivo progressivo;
- testes neuropsicológicos que geralmente evidenciam um padrão amnéstico predominante;
- exames de imagem cerebral, especialmente a ressonância magnética, que pode mostrar atrofia hipocampal desproporcional;
- a exclusão de outras causas de demência, como doença de Alzheimer típica, demência vascular, demência frontotemporal e causas potencialmente reversíveis;
- e o uso de biomarcadores, quando disponíveis, principalmente para afastar a presença de doença de Alzheimer, como marcadores amiloides negativos no líquor ou em exames de PET.
A hipótese de LATE é frequentemente levantada diante de um quadro clínico compatível com Alzheimer, mas sem evidência de patologia amiloide significativa ou com resposta limitada às terapias clássicas.
Como o médico trata a demência LATE?
Até o momento, não existe tratamento específico ou modificador da doença para a demência LATE. A abordagem terapêutica é essencialmente sintomática e de suporte, com foco na qualidade de vida do paciente e de seus cuidadores. Em muitos casos, são utilizados medicamentos empregados na doença de Alzheimer, como os inibidores da acetilcolinesterase e a memantina, embora a resposta clínica seja variável e, em geral, modesta.
Além disso, é fundamental o controle rigoroso das comorbidades clínicas, especialmente fatores de risco cardiovascular; a implementação de programas de estimulação cognitiva adaptados ao nível funcional; o acompanhamento multiprofissional, envolvendo neurologia, geriatria, psicologia, terapia ocupacional e fonoaudiologia; e o suporte familiar e psicossocial, que desempenha papel central no manejo da progressão da doença.
Como evolui a demência LATE?
A demência LATE apresenta uma evolução lentamente progressiva, com declínio cognitivo que ocorre ao longo de anos. Em muitos casos, a progressão pode ser mais lenta do que em formas típicas de doença de Alzheimer, especialmente quando a LATE ocorre de maneira relativamente isolada.
Entretanto, quando associada a outras patologias neurodegenerativas ou vasculares, a evolução tende a ser mais rápida e clinicamente mais incapacitante. Com o avanço da doença, ocorre perda progressiva da autonomia, necessidade crescente de supervisão e, eventualmente, dependência para atividades básicas da vida diária.
Quais são as complicações possíveis com a demência LATE?
As complicações da demência LATE decorrem principalmente do avanço do comprometimento cognitivo e funcional. São frequentes:
- a perda de autonomia e a dependência funcional;
- o aumento do risco de quedas e acidentes domésticos;
- a desnutrição e a desidratação em fases avançadas;
- infecções recorrentes, especialmente pneumonias aspirativas e infecções do trato urinário;
- a sobrecarga física e emocional dos cuidadores;
- e o impacto negativo significativo na qualidade de vida do paciente e de sua família.
Em síntese, a demência LATE representa uma causa relevante, ainda pouco reconhecida, de declínio cognitivo em idosos muito longevos. O reconhecimento dessa condição é fundamental para compreender melhor a heterogeneidade das demências na velhice avançada e para orientar, no futuro, o desenvolvimento de estratégias diagnósticas e terapêuticas mais específicas.
Embora não exista cura até o momento, o diagnóstico adequado, o acompanhamento clínico cuidadoso e o manejo multidisciplinar podem contribuir de forma significativa para a manutenção da qualidade de vida do paciente e de seus cuidadores.
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Referências:
As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da Revista Pesquisa FAPESP, da Academia Brasileira de Neurologia e da Oxford Academic.
