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Superproteção: como os pais (sem querer) prejudicam o desenvolvimento dos filhos

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Em geral, todo pai e mãe desejam que seus filhos tenham um desenvolvimento normal e feliz. Isto, contudo, não é tarefa fácil. Muitas das atitudes dos pais que pretensamente facilitariam que isso acontecesse, tem efeito contrário e acabam por prejudicar esse processo, sem que eles queiram ou percebam. Muitas vezes, tais atitudes, ao invés de facilitar a aquisição de sentimentos de independência e segurança dos filhos, têm o efeito inverso, de inibi-los.

Todas as crias de animais dependem de cuidados dos pais durante um certo tempo, até poderem levar a vida por si mesmas. As crianças humanas, especialmente, necessitam dos cuidados e proteção dos pais por um tempo excepcionalmente longo. Enquanto nos demais animais a intensidade e a duração dos cuidados e proteções necessárias são reguladas instintivamente, no homem elas dependem de atitudes racionais e emocionais dos pais e dos filhos, o que as deixa muito mais vulneráveis a falhas.

Proteção e superproteção

A proteção é benéfica e vital para os filhos pequenos; a superproteção, não. Até mesmo os animais cuidam e protegem instintivamente os seus filhos por um certo tempo. E tanto os homens quanto os animais, quando são capazes de se cuidarem sozinhos devem começar a sua jornada pelo mundo por si mesmos. No caso dos seres humanos, a proteção necessária dura um tempo maior e muitas vezes o que a princípio serviu para proteger os filhos torna-se, com o tempo, prejudicial para o desenvolvimento deles. No entanto, nem sempre é fácil determinar os limites entre proteção e superproteção.

Superproteger é ir além de proteger; seja se excedendo em satisfazer as necessidades e cuidados com os filhos, seja realizando isso por um tempo além do necessário. Superproteger é pensar pelo filho, tomar decisões por ele e solucionar todos os seus problemas, viver pelo filho. Os pais, contudo, devem “ajudar os filhos a fazer”; não fazer por eles.

Não devem também incutir neles medos, inseguranças e sentimentos de perigo inadequados. Assim, poderão evitar que se crie reações de defesa que farão falta no decorrer da vida. Em suma, é necessário que a criança viva situações perigosas e de medo, para aprender a manejá-las. Pais superprotetores são aqueles que vivem repetindo em excesso e ante mínimos riscos: “Não faça isto, você pode se machucar”, “Você não vai dormir na casa do seu amigo, porque eu não conheço essa família”, “Você não vai para essa excursão porque os animais podem ser perigosos”. Assim, se essas reações são extremadas, podem criar filhos inseguros, dependentes, medrosos e incompetentes para enfrentar situações difíceis na vida.

Por outro lado, pais que não se preocupam com uma proteção necessária, tendem a ser muito permissivos e não conseguem estabelecer regras claras que as crianças possam internalizar. Não conseguem também estabelecer consequências definidas se os filhos violam essas regras. Nesse caso, os filhos tendem a ser desorganizados, descontrolados, desrespeitosos e invasivos. Muitos pais acham que com essas atitudes disfuncionais1 estão protegendo os filhos e cuidando da sua autoestima e da sua saúde2 mental, quando, na verdade, não os estão preparando para a vida.

Quais são as principais consequências da superproteção?

Se os pais estiverem a todo momento alertando os filhos sobre perigos, por mais improváveis ou insignificantes que sejam, criam pessoas excessivamente medrosas e com dificuldades de enfrentar as inevitáveis situações físicas ou interpessoais arriscadas. Se fazem tudo prontamente para eles, tornam-os dependentes, com baixa tolerância à frustração, incapazes de desenvolver capacidades pessoais e de resolverem seus problemas por si mesmos. O fato de sempre dependerem de alguém para tomar e executar as próprias decisões e gerenciar a própria vida, os torna pessoas despreparadas para a vida, sem autonomia ante coisas mínimas. Isto abate a autoestima dessas pessoas, que se sentirão “inúteis” porque estão sempre precisando de alguém junto delas.

As pessoas superprotegidas não aprendem a tolerar as frustrações que a vida inevitavelmente impõe. Não aprendem que na vida as coisas nem sempre acontecem como se quer. Esperam que as demais pessoas sempre estarão a postos quando precisarem, o que nem sempre acontecerá. Cedo ou tarde a vida lhes mostrará que não é assim e que existem coisas que vão causar frustração. Se os pais não deixarem a criança errar para aprender, estarão anulando a sua capacidade de aprendizagem, porque boa parte do que uma criança aprende deve-se às consequências positivas e negativas de suas experiências.

Por isso, é necessário que a criança experimente o mundo para aprender a lidar melhor com ele. Uma criança precisa ser livre para seguir suas próprias inclinações sem sentir-se errada, culpada ou envergonhada. No entanto, precisa também saber até onde pode ir sem interferir nos direitos de outras pessoas. Precisa ter limites, o que implica que os pais devem equilibrar suas atitudes de incentivar e conter as crianças. Do contrário, ela se tornará “entrona”, abusada, deseducada e grosseira.

Leia sobre "Dificuldades de adaptação das crianças à escola", "Depressão em crianças" e "Ansiedade de separação".

 

ABCMED, 2017. Superproteção: como os pais (sem querer) prejudicam o desenvolvimento dos filhos. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/saude-da-crianca/1306028/superprotecao-como-os-pais-sem-querer-prejudicam-o-desenvolvimento-dos-filhos.htm>. Acesso em: 10 dez. 2019.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Disfuncionais: 1. Funcionamento anormal ou prejudicado. 2. Em patologia, distúrbio da função de um órgão.
2 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
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