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Mutismo seletivo

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O que é mutismo1 seletivo?

Mutismo1 seletivo ou mutismo1 eletivo2 é um transtorno psicológico raro (mais ou menos 0,7%) que afeta o desempenho comportamental da criança, caracterizado pela recusa de falar em determinadas situações, mas capaz de falar normalmente em outras, caracterizando assim que não se trata de uma incapacidade motora de emitir a voz.

O quadro foi descrito pela primeira vez em 1877 por Kussmaul como uma afasia3 voluntária. Em 1934, Tramer usou o termo mutismo1 eletivo2.

Quais são as causas do mutismo1 seletivo?

O mutismo1 seletivo tem causa obscura e parece ter origem multifatorial. Geralmente o mutismo1 envolve crianças tímidas, introvertidas e ansiosas que falam apenas com os pais, com outras crianças muito próximas e com animais, no entanto se recusam a falar com adultos “estranhos” (professores, médicos, dentistas, etc.) e mesmo com outras crianças desconhecidas.

A frequência do mutismo1 seletivo não varia muito com o gênero, mas é um pouco mais comum em meninas. Pode também acontecer na esquizofrenia4, histeria e autismo. A ausência da fala também pode dever-se à presença de um transtorno de comunicação, como tartamudez, dificuldade auditiva, transtorno de aprendizagem, transtorno de adaptação ou de separação ou depressão nervosa.

Também pode estar ligado a um trauma psicológico, violência física ou verbal ou uma grande decepção. Possivelmente há também uma influência genética, porque as estatísticas mostram que muitas crianças afetadas pelo transtorno têm um parente próximo com transtornos emocionais e a patologia5 é mais encontrada nos filhos de pais tímidos ou distantes.

Leia mais sobre "Esquizofrenia4", "Autismo", "Histeria", "Depressão em crianças" e "Gagueira".

Qual é o mecanismo fisiológico6 do mutismo1 seletivo?

Este transtorno se inicia na faixa etária entre 1 e 3 anos de idade, quando a criança já tem a fala adquirida. Geralmente é um quadro já plenamente estabelecido aos 8 anos. Pode ter origem genética e habitualmente está relacionado com a existência de um nível elevado de ansiedade, o qual pode estar associado com a atividade mais intensa da amígdala7 cerebelar e a traumas físicos ou emocionais.

Quais são as principais características clínicas do mutismo1 seletivo?

As pessoas com este tipo de distúrbio conseguem falar e compreender a linguagem, mas só o fazem em situações específicas, decididas por eles. Em outras áreas da personalidade, o desenvolvimento da pessoa costuma ser normal. Apesar disso, as crianças com mutismo1 seletivo apresentam dificuldades em manter contato visual, não costumam sorrir em público, movimentam-se de forma rígida, não são capazes de lidar com situações como saudações, despedidas ou agradecimentos, se preocupam exageradamente com todas as coisas, são mais sensíveis ao ruído que o comum e apresentam dificuldade em falar sobre si ou expressar sentimentos.

As crianças que aparentam esse distúrbio costumam falar em casa e brincar normalmente com os irmãos, mas se mantêm caladas na presença de estranhos, mesmo se forem outras crianças. Às vezes, essas crianças são tão tímidas que nem conseguem fazer solicitações básicas como pedir para usar o banheiro na escola. Contudo, apresentam maior sensibilidade aos pensamentos e emoções alheias, maior inteligência e percepção superior aos demais.

Como o médico diagnostica o mutismo1 seletivo?

Os pais acreditam, durante meses ou anos de mudez, tratar-se apenas de timidez normal, até que as demais manifestações clínicas se tornam evidentes. A atuação em conjunto com um psiquiatra da infância e adolescência é de extrema importância para se estabelecer um diagnóstico8 diferencial e tratar o caso de maneira adequada.

Um dos diferenciais mais importantes deve ser feito com a timidez, com o que é geralmente confundido, mas outros também se impõem: retardo mental, autismo, síndrome9 de Asperger, transtornos de expressão da linguagem, fobia10 social, depressão, transtorno de ajustamento e condições orgânicas (drogas, transtornos neurológicos, etc).

Como tratar o mutismo1 seletivo?

É comum usar fármacos para combater a ansiedade, a depressão e para aliviar os sintomas11 concomitantes. A terapia cognitivo12-comportamental apresenta bons resultados. É importante que a criança tenha um acompanhamento psicológico, com envolvimento da família e participação da escola.

Como evolui o mutismo1 seletivo?

O início ocorre entre 3 e 8 anos e pode ser insidioso ou abrupto após um trauma. A duração é variável, podendo se arrastar por meses ou anos. Em geral, o mutismo1 seletivo não está associado com a dificuldade de aprendizagem.

Uma criança que tenha tido o problema de mutismo1 seletivo e conseguido superá-lo pode voltar a tê-lo. Como esse distúrbio muitas vezes é provocado por um trauma, nada impede que a pessoa volte a desenvolvê-lo, em qualquer idade, diante de uma nova situação traumática.

Quais são as complicações possíveis do mutismo1 seletivo?

As complicações e dificuldades geradas pelo mutismo1 seletivo são muitas. Às vezes, essas crianças não conseguem nem mesmo pedir para ir ao banheiro ou beber água na escola.

Veja também sobre "Ansiedade infantil", "Ansiedade de separação", "Isolamento social" e "Dificuldades de adaptação das crianças à escola".

 

ABCMED, 2018. Mutismo seletivo. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/psicologia-e-psiquiatria/1315053/mutismo+seletivo.htm>. Acesso em: 10 dez. 2019.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Mutismo: Estado de não reatividade e de imobilidade, com uma especial ausência da necessidade de falar e de impulso verbal, que está presente em alguns casos de esquizofrenia e de histeria.
2 Eletivo: 1. Relativo à eleição, escolha, preferência. 2. Em medicina, sujeito à opção por parte do médico ou do paciente. Por exemplo, uma cirurgia eletiva é indicada ao paciente, mas não é urgente. 3. Cujo preenchimento depende de eleição (diz-se de cargo). 4. Em bioquímica ou farmácia, aquilo que tende a se combinar com ou agir sobre determinada substância mais do que com ou sobre outra.
3 Afasia: Sintoma neurológico caracterizado pela incapacidade de expressar-se ou interpretar a linguagem falada ou escrita. Pode ser produzida quando certas áreas do córtex cerebral sofrem uma lesão (tumores, hemorragias, infecções, etc.). Pode ser classificada em afasia de expressão ou afasia de compreensão.
4 Esquizofrenia: Doença mental do grupo das Psicoses, caracterizada por alterações emocionais, de conduta e intelectuais, caracterizadas por uma relação pobre com o meio social, desorganização do pensamento, alucinações auditivas, etc.
5 Patologia: 1. Especialidade médica que estuda as doenças e as alterações que estas provocam no organismo. 2. Qualquer desvio anatômico e/ou fisiológico, em relação à normalidade, que constitua uma doença ou caracterize determinada doença. 3. Por extensão de sentido, é o desvio em relação ao que é próprio ou adequado ou em relação ao que é considerado como o estado normal de uma coisa inanimada ou imaterial.
6 Fisiológico: Relativo à fisiologia. A fisiologia é estudo das funções e do funcionamento normal dos seres vivos, especialmente dos processos físico-químicos que ocorrem nas células, tecidos, órgãos e sistemas dos seres vivos sadios.
7 Amígdala: Designação comum a vários agregados de tecido linfoide, especialmente o que se situa à entrada da garganta; tonsila.
8 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
9 Síndrome: Conjunto de sinais e sintomas que se encontram associados a uma entidade conhecida ou não.
10 Fobia: Medo exagerado, falta de tolerância, aversão.
11 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
12 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
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