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O medo do escuro

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O que é o medo do escuro?

O medo do escuro ou nictofobia (do grego: nyctus = noite ou escuridão + phobos = medo profundo) é o medo de que sofrem muitas crianças e alguns adultos da escuridão ou da noite. Esse medo, contudo, não é propriamente medo à falta de luminosidade, mas à imaginatividade apavorante que geralmente ela desencadeia.

Quais são as causas do medo do escuro?

O medo do escuro pode ter uma razão atávica, fundada na própria evolução. Nos primórdios da evolução humana, quando ainda não era possível clarear a noite, o escuro era realmente perigoso porque o indivíduo estava mais vulnerável a acidentes e aos seus predadores. Embora o homem não seja capaz de ver no escuro, muitos dos animais ferozes o são e, por isso, ficam em vantagem em relação a ele.

Pode ser também que o medo do escuro se origine de uma experiência traumática no passado do indivíduo: a criança pode ter sido deixada no escuro como um castigo ou irmãos e amigos também podem ter incutido nela o medo da escuridão. Filmes e programas de TV que descrevem horror, sangue1, fantasmas e outras atividades paranormais que ocorrem na ausência da luz do dia também são muitas vezes responsáveis pela criação do medo do escuro.

Traumas vividos pelas crianças no escuro (violência doméstica, abuso sexual, acidentes de carro e outros) também podem deixar na criança um medo persistente da noite ou da escuridão.

Saiba mais sobre "Abuso sexual de crianças" e "Acidentes de trânsito".

Qual é o mecanismo do medo do escuro?

Os antropólogos acreditam que os primeiros humanos foram aos poucos incorporando esse medo, adquirindo a noção de que a noite e o escuro favorecem o acontecimento de coisas ruins. Animais selvagens, ladrões, assassinos, enfim, quem quisesse fazer o mal, aproveitaria as sombras da noite. E, se algo trágico acontecesse de noite e não conseguissem culpar alguém, a atribuíam a algo sobrenatural.

Ao longo da história, o homem tem lutado para afastar a escuridão e todos os seus perigos, porque biologicamente o ser humano não tem visão2 noturna e sempre esteve em desvantagem diante de predadores que usam a escuridão para atos sinistros. Por isso, até certo ponto, o medo da escuridão é uma reação natural do ser humano, desenvolvida pela evolução para ajudar na sobrevivência3 dos homens à noite.

Quais são as principais características clínicas do medo do escuro?

A escuridão é inimiga da razão. O que é temido é algo que nunca aconteceu nem acontecerá, mas essa racionalidade não alivia o pânico causado pelo escuro. É comum que as crianças tenham um medo irracional do escuro. Nessa condição, o cérebro4 delas sugere imagens terríveis que as assusta.

No entanto, também não é incomum ver adultos sofrendo de nictofobia. Tal condição pode afetar grandemente o dia do sofredor, principalmente porque o indivíduo tende a estar deprimido, ansioso ou tenso o tempo todo. Muitas vezes a criança (e menos comumente o adulto) se recusa a sair depois de escurecer ou a dormir sozinho.

As crianças menores podem recorrer a chupar o dedo, ou fazer xixi na cama, se tornarem pegajosas e se recusarem a dormir sem uma lâmpada acesa ou insistirem em não dormir sozinhas. Elas podem também experimentar sintomas5 físicos como dores, respiração rápida e superficial, palpitações6 cardíacas, tremores, dores no peito7 ou sensação de asfixia8, náuseas9 e outros problemas gastrointestinais, choro, gritos e redução do apetite ou, inversamente, ter excessos alimentares.

Os sintomas5 psicológicos do medo da escuridão incluem pensamentos de morte, medo de ser atacado por fantasmas ou monstros, recusar-se a dormir sozinho ou a sair de casa depois do anoitecer, ficar acordado a noite toda ou acordar várias vezes durante a noite.

Nos adultos, a nictofobia pode afetar a qualidade do sono, conduzir ao estresse, afetar a produtividade no trabalho e impactar negativamente a sua qualidade de vida. Assim, a depressão e outros distúrbios mentais e físicos podem ser comuns em indivíduos com medo do escuro.

Leia sobre "Enurese10 noturna", "Estresse" e "Depressão".

Como tratar o medo do escuro?

Alguns adultos que sofrem de nictofobia percebem que seu medo é irracional, embora se sintam impotentes para superá-lo e temam a chegada da noite. Felizmente, há muitas terapias que podem ajudar a superar esta fobia11. A psicanálise ou a hipnoterapia pode ajudar a chegar ao fundo do medo da escuridão e, assim, superá-lo.

Além disso, também há técnicas de dessensibilização12 gradual. A terapia cognitivo13-comportamental é outra técnica eficaz muito utilizada para superar a nictofobia. Ela ajuda o indivíduo a manejar sua resposta de ansiedade quando confrontado com a escuridão ou noite. Alguns medicamentos podem ser usados para acalmar, tratar a ansiedade e/ou a depressão.

Como evolui em geral o medo do escuro?

Na maioria das vezes, os medos do escuro da infância são superados com o crescimento e amadurecimento do indivíduo. No entanto, em alguns casos, a nictofobia pode persistir na idade adulta.

Veja também sobre "Pesadelos", "Ciclos do sono", "Psicoterapias", "Ansiedade" e "Fobias14".

 

ABCMED, 2017. O medo do escuro. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/psicologia-e-psiquiatria/1305918/o+medo+do+escuro.htm>. Acesso em: 16 out. 2019.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Sangue: O sangue é uma substância líquida que circula pelas artérias e veias do organismo. Em um adulto sadio, cerca de 45% do volume de seu sangue é composto por células (a maioria glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). O sangue é vermelho brilhante, quando oxigenado nos pulmões (nos alvéolos pulmonares). Ele adquire uma tonalidade mais azulada, quando perde seu oxigênio, através das veias e dos pequenos vasos denominados capilares.
2 Visão: 1. Ato ou efeito de ver. 2. Percepção do mundo exterior pelos órgãos da vista; sentido da vista. 3. Algo visto, percebido. 4. Imagem ou representação que aparece aos olhos ou ao espírito, causada por delírio, ilusão, sonho; fantasma, visagem. 5. No sentido figurado, concepção ou representação, em espírito, de situações, questões etc.; interpretação, ponto de vista. 6. Percepção de fatos futuros ou distantes, como profecia ou advertência divina.
3 Sobrevivência: 1. Ato ou efeito de sobreviver, de continuar a viver ou a existir. 2. Característica, condição ou virtude daquele ou daquilo que subsiste a um outro. Condição ou qualidade de quem ainda vive após a morte de outra pessoa. 3. Sequência ininterrupta de algo; o que subsiste de (alguma coisa remota no tempo); continuidade, persistência, duração.
4 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
5 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
6 Palpitações: Designa a sensação de consciência do batimento do coração, que habitualmente não se sente. As palpitações são detectadas usualmente após um exercício violento, em situações de tensão ou depois de um grande susto, quando o coração bate com mais força e/ou mais rapidez que o normal.
7 Peito: Parte superior do tronco entre o PESCOÇO e o ABDOME; contém os principais órgãos dos sistemas circulatório e respiratório. (Tradução livre do original
8 Asfixia: 1. Dificuldade ou impossibilidade de respirar, que pode levar à anóxia. Ela pode ser causada por estrangulamento, afogamento, inalação de gases tóxicos, obstruções mecânicas ou infecciosas das vias aéreas superiores, etc. 2. No sentido figurado, significa sujeição à tirania; opressão e/ou cobrança de posições morais ou sociais que dão origem à privação de certas liberdades.
9 Náuseas: Vontade de vomitar. Forma parte do mecanismo complexo do vômito e pode ser acompanhada de sudorese, sialorréia (salivação excessiva), vertigem, etc .
10 Enurese: Definida como a perda involuntária de urina. Ocorre quando a pressão dentro da bexiga excede aquela que se verifica dentro da uretra, ou seja, há um aumento considerável da pressão para urinar dentro da bexiga, isso ocorre durante a fase de enchimento do ciclo de micção. Pode também ser designada de “incontinência urinária“. E ocorre com certa frequência à noite, principalmente entre os idosos.
11 Fobia: Medo exagerado, falta de tolerância, aversão.
12 Dessensibilização: É uma maneira de parar ou diminuir a resposta a reações alérgicas a algumas coisas. Por exemplo, se uma pessoa apresenta uma reação alérgica a alguma substância, o médico dá a esta pessoa uma pequena quantidade desta substância para aumentar a sua tolerância e vai aumentando esta quantidade progressivamente. Após um período de tempo, maiores doses são oferecidas antes que a dose total seja dada. É uma maneira de ajudar o organismo a prevenir as reações alérgicas.
13 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
14 Fobias: Medo exagerado, falta de tolerância, aversão.
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