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Doenças metabólicas hereditárias e adquiridas: entenda as diferenças e quando suspeitar

Thursday, July 2, 2026
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Doenças metabólicas hereditárias e adquiridas: entenda as diferenças e quando suspeitar

O que são doenças metabólicas?

Doenças metabólicas são enfermidades causadas por alterações no conjunto de processos químicos que o organismo utiliza para transformar os alimentos em energia, construir e reparar tecidos e eliminar resíduos, processo conhecido como metabolismo. O metabolismo é responsável pela produção das substâncias necessárias ao funcionamento das células e pela manutenção de praticamente todas as funções vitais do organismo. Quando ocorre alguma alteração nesse processo, como deficiência ou ausência de uma enzima, alterações hormonais, defeitos em proteínas transportadoras, acúmulo de determinadas substâncias ou deficiência de outras, podem surgir as chamadas doenças metabólicas ou distúrbios metabólicos.

Há dois grandes grupos principais dessas doenças. O primeiro é formado pelas doenças metabólicas hereditárias, também chamadas de erros inatos do metabolismo, que geralmente são raras e costumam manifestar-se desde o nascimento ou durante a infância, embora algumas possam surgir apenas na adolescência ou na vida adulta. O segundo grupo corresponde às doenças metabólicas adquiridas, muito mais frequentes na população, que se desenvolvem ao longo da vida em consequência da interação entre fatores genéticos, alimentação inadequada, sedentarismo, excesso de peso, envelhecimento, alterações hormonais e outros fatores ambientais.

Quais são as principais doenças metabólicas hereditárias?

1. Fenilcetonúria

A fenilcetonúria é uma doença genética rara em que o organismo não consegue metabolizar adequadamente o aminoácido fenilalanina devido à deficiência da enzima fenilalanina-hidroxilase ou, mais raramente, por alterações no metabolismo da tetraidrobiopterina (BH4), cofator necessário para a atividade dessa enzima. O acúmulo de fenilalanina pode causar lesão cerebral progressiva, deficiência intelectual e alterações neurológicas quando a doença não é tratada desde os primeiros dias de vida.

O diagnóstico precoce é realizado por meio do teste do pezinho, permitindo o início imediato do tratamento. Embora não tenha cura, a doença pode ser controlada com dieta pobre em fenilalanina durante toda a vida, associada, em casos selecionados, ao uso de sapropterina, uma forma sintética de BH4, ou outras terapias específicas.

2. Doença de Gaucher

A doença de Gaucher é uma doença genética hereditária rara causada pela deficiência da enzima glicocerebrosidase (β-glicosidase ácida). Como consequência, ocorre acúmulo do glicocerebrosídeo principalmente no baço, fígado, medula óssea e, em alguns tipos da doença, no sistema nervoso.

Os pacientes podem apresentar aumento do fígado e do baço, anemia, redução das plaquetas, dores ósseas e fraturas. Embora não exista cura, a terapia de reposição enzimática e, em alguns casos, a terapia de redução de substrato permitem excelente controle da doença, melhorando significativamente a qualidade de vida e o prognóstico quando iniciadas precocemente.

3. Doença de Fabry

A doença de Fabry é uma doença genética rara causada por mutações no gene GLA, localizado no cromossomo X, que levam à deficiência da enzima alfa-galactosidase A. Como resultado, ocorre acúmulo progressivo de globotriaosilceramida (Gb3) em diferentes tecidos, especialmente vasos sanguíneos, rins, coração e sistema nervoso.

Por ser uma doença ligada ao cromossomo X, geralmente apresenta manifestações mais graves nos homens, embora muitas mulheres também possam desenvolver sintomas importantes. Entre as manifestações estão dor neuropática, diminuição da sudorese, lesões cutâneas (angioceratomas), insuficiência renal, cardiomiopatia e acidente vascular cerebral em idade precoce. O tratamento inclui terapia de reposição enzimática ou terapia oral com chaperona farmacológica (migalastate) em pacientes elegíveis, além do manejo das complicações.

4. Doenças mitocondriais

As doenças mitocondriais constituem um grupo heterogêneo de doenças genéticas causadas por mutações no DNA mitocondrial ou no DNA nuclear que comprometem a produção de energia pelas mitocôndrias. Como essas organelas são responsáveis pela geração de ATP por meio da fosforilação oxidativa, tecidos com elevada demanda energética, como cérebro, músculos, coração, olhos e fígado, costumam ser os mais afetados.

As manifestações clínicas são bastante variadas e podem incluir fraqueza muscular, intolerância ao exercício, convulsões, perda auditiva, cardiomiopatia, diabetes, alterações visuais e comprometimento neurológico progressivo.

5. Fibrose cística

A fibrose cística, também chamada de mucoviscidose, é uma doença genética crônica causada por mutações no gene CFTR, responsável pelo transporte de cloro e bicarbonato através das membranas celulares. Essa alteração provoca produção de secreções espessas e viscosas que acometem principalmente pulmões, pâncreas, intestino, fígado e aparelho reprodutor.

Embora seja tradicionalmente classificada como uma doença genética multissistêmica e não como um erro inato clássico do metabolismo, ela apresenta importantes repercussões metabólicas, especialmente relacionadas à insuficiência pancreática, desnutrição e alterações nutricionais. Atualmente, além do tratamento das complicações respiratórias e digestivas, muitos pacientes podem ser beneficiados pelos moduladores da proteína CFTR, que modificam a evolução da doença em indivíduos com mutações elegíveis.

6. Doença de Wilson

A doença de Wilson, também chamada de degeneração hepatolenticular, é um distúrbio hereditário do metabolismo do cobre causado por mutações no gene ATP7B, herdadas de forma autossômica recessiva.

Em indivíduos saudáveis, o excesso de cobre é eliminado pela bile. Na doença de Wilson, esse mecanismo encontra-se comprometido, levando ao acúmulo progressivo de cobre principalmente no fígado, cérebro, córnea e outros tecidos.

As manifestações podem incluir hepatite, cirrose, tremores e alterações psiquiátricas e neurológicas, além do anel de Kayser-Fleischer, observado em muitos pacientes com acometimento neurológico. O tratamento baseia-se em medicamentos quelantes do cobre, como penicilamina ou trientina, além do uso de sais de zinco em situações específicas, permitindo excelente controle da doença quando iniciado precocemente.

Leia também sobre "Síndrome cardiorrenal metabólica" e "Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina".

Quais são as principais doenças metabólicas adquiridas?

7. Diabetes mellitus tipo 2

O diabetes mellitus tipo 2 é uma doença metabólica crônica caracterizada por níveis elevados de glicose no sangue decorrentes principalmente da resistência à insulina e da perda progressiva da capacidade das células beta pancreáticas de produzir esse hormônio. A insulina permite a entrada da glicose nas células para produção de energia. Na resistência à insulina, os tecidos respondem menos à sua ação, levando inicialmente ao aumento compensatório da produção de insulina e, posteriormente, ao esgotamento parcial da função pancreática, resultando em hiperglicemia.

Os principais fatores de risco incluem excesso de peso, obesidade, sedentarismo, histórico familiar, idade avançada, hipertensão arterial, dislipidemia, síndrome metabólica, diabetes gestacional prévio e algumas condições étnicas e genéticas que aumentam a suscetibilidade à doença.

8. Obesidade

A obesidade é uma doença crônica complexa caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal capaz de comprometer a saúde. Atualmente é reconhecida como uma doença multifatorial, resultante da interação entre fatores genéticos, hormonais, ambientais, comportamentais e sociais.

O diagnóstico baseia-se principalmente no índice de massa corporal (IMC), sendo considerada obesidade quando o IMC é igual ou superior a 30 kg/m², classificada em graus I, II e III. Entretanto, a avaliação clínica deve incluir também a circunferência abdominal, a distribuição da gordura corporal e a presença de complicações associadas, uma vez que a gordura visceral está fortemente relacionada ao aumento do risco cardiovascular e metabólico.

9. Dislipidemias

As dislipidemias correspondem às alterações nos níveis sanguíneos de colesterol e triglicerídeos, incluindo elevação do colesterol LDL, redução do colesterol HDL e aumento dos triglicerídeos.

Essas alterações aumentam significativamente o risco de aterosclerose, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) e doença arterial periférica. Na maioria das vezes, não produzem sintomas, motivo pelo qual são frequentemente identificadas apenas durante exames laboratoriais de rotina.

As dislipidemias podem ser primárias (genéticas) ou secundárias, associadas a doenças como diabetes, hipotireoidismo, doença renal crônica ou ao uso de determinados medicamentos.

10. Esteatose hepática

A esteatose hepática consiste no acúmulo excessivo de gordura dentro dos hepatócitos. Considera-se esteatose quando a gordura representa mais de 5% do peso do fígado.

É uma das doenças hepáticas mais frequentes no mundo e está fortemente associada à obesidade, diabetes tipo 2, resistência à insulina e síndrome metabólica.

Atualmente, a terminologia mais moderna engloba a esteatose associada à disfunção metabólica sob a denominação de doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), anteriormente conhecida como doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA). Embora geralmente seja silenciosa, uma parcela dos pacientes pode evoluir com inflamação hepática, fibrose, cirrose e carcinoma hepatocelular.

11. Hipotireoidismo

O hipotireoidismo é uma condição caracterizada pela produção insuficiente dos hormônios tireoidianos, responsáveis pela regulação do metabolismo corporal.

A redução desses hormônios diminui a velocidade do metabolismo e pode comprometer praticamente todos os órgãos e sistemas, provocando sintomas como fadiga, ganho de peso, intolerância ao frio, pele seca, constipação intestinal, sonolência e lentificação dos reflexos.

A causa mais comum é a tireoidite de Hashimoto, uma doença autoimune. Outras causas incluem cirurgia da tireoide, tratamento com iodo radioativo, deficiência de iodo, alguns medicamentos e doenças da hipófise ou do hipotálamo.

12. Gota

A gota, também denominada artrite gotosa, é uma doença inflamatória causada pelo depósito de cristais de urato monossódico nas articulações e tecidos periarticulares.

O ácido úrico é um produto natural do metabolismo das purinas e normalmente é eliminado pelos rins. A doença pode surgir devido à diminuição da eliminação renal do ácido úrico, produção aumentada ou ambos os mecanismos.

Entre os fatores de risco estão obesidade, síndrome metabólica, doença renal crônica, dieta rica em purinas, consumo excessivo de bebidas alcoólicas, especialmente cerveja, bebidas adoçadas com frutose e uso de determinados medicamentos, como diuréticos.

13. Síndrome metabólica

A síndrome metabólica é um conjunto de alterações metabólicas e cardiovasculares que aumentam significativamente o risco de diabetes mellitus tipo 2, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e doença cardiovascular em geral.

O diagnóstico é estabelecido quando estão presentes critérios definidos por sociedades científicas, incluindo obesidade abdominal, hiperglicemia ou diabetes, hipertensão arterial, triglicerídeos elevados e redução do colesterol HDL. Esses fatores costumam estar relacionados à resistência à insulina, considerada um dos principais mecanismos fisiopatológicos da síndrome.

Veja mais em "O que significa o ganho de peso para o nosso organismo?"

 

Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da Mayo Clinic, da Encyclopedia Britannica e da BVS - Biblioteca Virtual em Saúde.

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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