Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina: por que a antiga SOP está mudando de nome?

O que é a Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina?
A Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP) é uma condição endocrinometabólica crônica caracterizada pela associação entre disfunção ovulatória, hiperandrogenismo e alterações metabólicas, especialmente resistência à insulina.
Nos últimos anos, grupos internacionais passaram a discutir a necessidade de modificar o nome clássico da doença. O termo “Síndrome dos Ovários Policísticos” (SOP) passou a ser considerado biologicamente limitado, pois muitas mulheres afetadas não apresentam ovários policísticos à ultrassonografia, enquanto mulheres sem a síndrome podem apresentar morfologia ovariana policística sem alterações clínicas ou hormonais relevantes.
Além disso, o nome antigo enfatiza excessivamente um aspecto ovariano anatômico e deixa em segundo plano os importantes componentes metabólicos, hormonais, inflamatórios e cardiovasculares envolvidos na doença. A proposta da nomenclatura “Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina” procura refletir de forma mais fiel a natureza sistêmica e multifatorial da condição.
Confira no infográfico abaixo um resumo sobre a condição (clique sobre a imagem para visualizá-la ampliada). Continue lendo o artigo para tirar todas as suas dúvidas sobre a SOMP.
A SOMP é uma doença frequente?
Trata-se de uma das endocrinopatias mais comuns em mulheres em idade reprodutiva. Estima-se que a síndrome acometa aproximadamente 6% a 13% das mulheres. A frequência da doença aumentou nas últimas décadas, especialmente em associação à obesidade, ao sedentarismo e ao crescimento global da resistência à insulina. Entretanto, a síndrome também pode ocorrer em mulheres magras e metabolicamente menos comprometidas.
O que causa a Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina?
A SOMP possui origem multifatorial, envolvendo predisposição genética associada a fatores hormonais, metabólicos, ambientais e inflamatórios. A resistência à insulina desempenha papel central em grande parte dos casos. Quando os tecidos do organismo respondem inadequadamente à ação da insulina, o pâncreas aumenta sua produção para compensar essa dificuldade. A hiperinsulinemia resultante estimula diretamente as células da teca ovariana a produzirem mais androgênios, como testosterona e androstenediona.
Ao mesmo tempo, a insulina reduz a produção hepática da globulina ligadora dos hormônios sexuais (SHBG), aumentando a quantidade de testosterona livre circulante. O excesso de androgênios interfere na maturação folicular normal e contribui para anovulação crônica, irregularidade menstrual e infertilidade.
Também parecem participar da fisiopatologia alterações do eixo hipotálamo-hipófise-ovariano, inflamação crônica de baixo grau, disfunção do tecido adiposo, alterações do microbioma intestinal e fatores epigenéticos.
Por que os ovários ficam “policísticos”?
Apesar do nome tradicional, os chamados “cistos” não são cistos verdadeiros. O que ocorre é o acúmulo de múltiplos pequenos folículos ovarianos que interrompem seu desenvolvimento antes da ovulação. Esses folículos ficam distribuídos principalmente na periferia do ovário, produzindo o aspecto ultrassonográfico clássico.
Essa alteração, porém, não é obrigatória para o diagnóstico da síndrome e pode ocorrer isoladamente em mulheres saudáveis, especialmente adolescentes e mulheres jovens.
Quais são os principais sintomas?
Os sintomas variam bastante entre as pacientes. Algumas apresentam manifestações predominantemente reprodutivas, enquanto outras desenvolvem alterações metabólicas mais importantes.
A irregularidade menstrual é uma das manifestações mais comuns e pode incluir oligomenorreia, amenorreia ou ciclos anovulatórios frequentes.
O hiperandrogenismo pode provocar acne persistente, oleosidade excessiva da pele, queda capilar de padrão androgenético e hirsutismo, especialmente em face, tórax, abdome inferior e região lombar.
Muitas mulheres apresentam dificuldade para emagrecer, aumento da gordura abdominal e fadiga persistente. Também são frequentes ansiedade, depressão, alterações da imagem corporal e piora da qualidade de vida.
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A síndrome pode causar infertilidade?
A anovulação crônica é uma das principais causas de infertilidade associadas à SOMP. Sem ovulação regular, a fecundação torna-se mais difícil. No entanto, isso não significa infertilidade definitiva. Grande parte das mulheres consegue engravidar após tratamento adequado, principalmente com melhora metabólica e indução da ovulação quando necessário.
A SOMP aumenta o risco de diabetes e doenças cardiovasculares?
Mulheres com SOMP apresentam maior prevalência de resistência à insulina, intolerância à glicose, diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia, síndrome metabólica e esteatose hepática metabólica.
Há evidências crescentes de aumento do risco cardiovascular a longo prazo, especialmente em pacientes com obesidade visceral e hiperinsulinemia importantes.
Mulheres magras também podem apresentar a síndrome?
Existe um fenótipo conhecido informalmente como “SOMP magra”. Nessas pacientes, o índice de massa corporal pode ser normal, mas ainda existem alterações hormonais e metabólicas relevantes. Mesmo sem obesidade, pode haver resistência à insulina em nível hepático e muscular. Por esse motivo, mulheres magras com irregularidade menstrual e hiperandrogenismo também devem ser investigadas.
Como é feito o diagnóstico?
Os critérios diagnósticos mais utilizados ainda são os Critérios de Rotterdam, posteriormente refinados pelas diretrizes internacionais modernas. O diagnóstico é estabelecido quando a paciente apresenta pelo menos dois dos seguintes critérios:
- Disfunção ovulatória
- Hiperandrogenismo clínico ou laboratorial
- Morfologia ovariana policística à ultrassonografia
É fundamental excluir outras doenças que podem produzir manifestações semelhantes, como hiperplasia adrenal congênita não clássica, hiperprolactinemia, hipotireoidismo, síndrome de Cushing e tumores secretores de androgênios.
Quais exames costumam ser solicitados?
A investigação hormonal geralmente inclui testosterona total e livre, SHBG, DHEAS, LH, FSH, prolactina e TSH. Do ponto de vista metabólico, frequentemente são solicitados glicemia de jejum, hemoglobina glicada, perfil lipídico e, em muitos casos, teste oral de tolerância à glicose.
A ultrassonografia transvaginal pode demonstrar aumento do número de folículos ovarianos e aumento do volume ovariano.
Com a evolução tecnológica dos aparelhos de ultrassonografia, houve necessidade de atualização dos critérios diagnósticos relacionados à contagem folicular. Consensos recentes passaram a utilizar limites maiores de folículos por ovário, reduzindo o risco de sobrediagnóstico.
Como é feito o tratamento?
O tratamento depende dos sintomas predominantes e dos objetivos da paciente, especialmente desejo reprodutivo, controle metabólico e manejo do hiperandrogenismo.
Mudanças no estilo de vida permanecem como base terapêutica. Alimentação equilibrada, atividade física regular, melhora da composição corporal e redução da gordura visceral podem melhorar significativamente ovulação, sensibilidade à insulina e parâmetros metabólicos. Mesmo perdas entre 5% e 10% do peso corporal podem produzir melhora clínica importante.
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Quais medicamentos podem ser utilizados?
Os anticoncepcionais hormonais combinados continuam sendo uma das principais opções para mulheres sem desejo imediato de gestação. Eles ajudam a reduzir a produção ovariana de androgênios, regularizar o ciclo menstrual e melhorar acne e hirsutismo. Formulações contendo progestagênios menos androgênicos costumam ser preferidas.
A metformina permanece amplamente utilizada, especialmente em pacientes com resistência à insulina, obesidade, pré-diabetes ou intolerância à glicose. O medicamento melhora a sensibilidade insulínica e pode contribuir para regularização menstrual e perda de peso.
Em pacientes com hirsutismo importante, podem ser utilizados antiandrogênios, como espironolactona, geralmente associados à contracepção adequada devido ao risco de feminização fetal.
Medicamentos modernos para obesidade podem ajudar?
Agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida, e agonistas duplos GIP/GLP-1, como tirzepatida, vêm sendo cada vez mais estudados em mulheres com SOMP associada à obesidade. Esses medicamentos podem promover perda ponderal significativa, melhora da resistência à insulina e redução da inflamação metabólica. Em algumas pacientes, observa-se inclusive melhora da função ovulatória.
O tratamento deve ser individualizado e ainda não existe recomendação para uso universal desses medicamentos em todas as pacientes com a síndrome.
Como é tratado o desejo de engravidar?
Nas pacientes com infertilidade anovulatória, o tratamento costuma envolver indução da ovulação. Atualmente, o letrozol é frequentemente considerado primeira escolha em muitos consensos internacionais, por apresentar melhores taxas de ovulação e nascidos vivos em comparação ao citrato de clomifeno em diversos estudos.
A metformina pode ser associada em casos selecionados, especialmente quando existe resistência à insulina importante.
Mulheres com SOMP precisam de acompanhamento contínuo?
A síndrome não deve ser encarada apenas como um problema ginecológico ou reprodutivo. Existe necessidade de acompanhamento longitudinal devido ao risco metabólico, cardiovascular e emocional associado à doença. O monitoramento deve incluir avaliação de peso corporal, circunferência abdominal, glicemia, perfil lipídico, pressão arterial e saúde mental.
Por que a terminologia antiga, “Síndrome dos Ovários Policísticos”, está sendo substituída?
A principal razão é que o nome antigo passou a ser considerado cientificamente incompleto. O termo reduz uma condição sistêmica complexa a um achado anatômico ovariano e não representa adequadamente seus componentes metabólicos, hormonais e inflamatórios. A mudança também procura aumentar a conscientização sobre os riscos metabólicos e cardiovasculares frequentemente subestimados.
O que permanece igual no diagnóstico?
Os pilares diagnósticos permanecem essencialmente os mesmos, e os Critérios de Rotterdam continuam sendo a principal base diagnóstica internacional. Portanto, a mudança atual é predominantemente conceitual e terminológica.
O que mudará na prática clínica?
A principal mudança será a forma de compreender e comunicar a doença. A nova nomenclatura tende a valorizar os componentes metabólicos da síndrome, reduzir o foco excessivo na ultrassonografia ovariana, estimular abordagem multidisciplinar e favorecer avaliação cardiovascular precoce.
Também existe expectativa de que a mudança reduza atrasos diagnósticos e melhore a compreensão da doença pelas pacientes.
Como será feita a substituição da nomenclatura?
A transição deverá ocorrer gradualmente. Inicialmente, diretrizes, artigos científicos e sociedades médicas provavelmente utilizarão os dois termos simultaneamente, como “Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (antiga SOP)”. Com o tempo, a tendência é que o novo termo se consolide em publicações acadêmicas, materiais educacionais e prática clínica.
Esse processo é semelhante ao que ocorreu com diversas outras doenças cuja nomenclatura foi atualizada para refletir melhor os avanços científicos modernos.
A mudança de nome altera a doença?
Não. A condição clínica permanece essencialmente a mesma. O que muda é a forma científica de descrevê-la, buscando representar de maneira mais precisa sua natureza sistêmica, metabólica e endócrina.
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