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Delírio de perseguição

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O que é delírio1 de perseguição?

A pessoa com delírio1 de perseguição sustenta a crença incorrigível de que alguém ou algum grupo deseja fazer algo contra ela, ou que está sendo acusada de fazer alguma coisa terrível que na realidade ela nunca fez. Apesar de bizarra e irracional, a convicção a respeito dessa crença é mais firme e estável que a que se refere às crenças razoáveis das pessoas normais e não é corrigível por argumentos lógicos, por mais improvável ou impossível que ela possa parecer.

Ao se dizer a uma pessoa normal que ela não tem exatamente a idade que supõe ter, porque seu registro de nascimento contém um erro, somos capazes de, pelo menos, deixá-la em dúvida; mas para um paciente que se crê perseguido pelo exército romano, não faz nenhuma diferença alegar-se que o exército romano já não existe há mais de 2000 anos.

Saiba mais sobre "Paranoia", "Psicose2 reativa", "Psicose2 pós-parto" e "Megalomania".

Quais são as causas do delírio1 de perseguição?

Não se conhece exatamente a causa dos delírios em geral, mas os especialistas acreditam que eles tenham causas genéticas, ambientais e em anormalidades cerebrais. Embora os delírios mais bem elaborados ocorram na esquizofrenia3, eles podem também ocorrer em outras desordens psicóticas, na doença de Alzheimer4, nas demências, na epilepsia5 e nas intoxicações por drogas.

Experiências de vida estressantes e traumas podem ser gatilhos importantes para pessoas desenvolverem transtornos delirantes. Estudos têm demonstrado que pessoas que experimentaram delírios persecutórios em geral foram vítimas de abuso emocional ou negligência6 quando crianças, e associam o delírio1 com baixa autoestima e pensamentos negativos sobre si mesmas.

Quais são as características clínicas do delírio1 de perseguição?

Alguns delírios de perseguição partem de interpretações errôneas de percepções reais. Por exemplo, o olhar inocente de uma pessoa qualquer pode ser interpretado como ameaçador; um policial que esteja na rua, fazendo sua ronda, é visto como alguém que está vigiando a pessoa; a sirene ocasional de um veículo policial é interpretada como sendo um carro que veio prendê-lo; etc.

Outras vezes, as crenças são mais esdrúxulas e parecem surgir do nada: o delirante pode acreditar, por exemplo, que o vigiam por meio da televisão que tem em casa, que estão controlando seus pensamentos à distância, que foi abduzido por um disco voador, etc.

Por vezes, as crenças delirantes podem parecer altamente improváveis, mas não impossíveis. Os delirantes podem, por exemplo, alegar que seus vizinhos os estejam espionando ou temer que a polícia queira prendê-los. Outras vezes, os delírios são claramente irracionais e impossíveis, como acreditar que um espírito maligno deseja se apossar de seu corpo.

Com frequência, os delírios de perseguição estão associados com delírios de grandeza, e muitas vezes a pessoa se sente perseguida justamente em razão da sua suposta grandiosidade. Essas crenças absurdas afetam a maneira como a pessoa se comporta e pode levá-la a atos incompreensíveis e, por vezes, criminosos.

Uma pessoa que, por exemplo, creia que está sendo perseguida por marcianos que desejam matá-la sustentará essa crença por anos a fio e, se identificar alguém como sendo um marciano, pode tentar esconder-se dessa pessoa ou tomar atitudes violentas contra ela.

Como os delírios costumam ter evolução progressiva, há alguns anos, quando não existia medicações para combatê-los, as construções delirantes chegavam a formar temas complexos e extensos, altamente bizarros e inusitados. Atualmente, é mais difícil vê-los evoluírem até esse ponto porque os processos delirantes costumam ser abortados em seu início pelas medicações antipsicóticas existentes.

Como o médico diagnostica do delírio1 de perseguição?

Não há nenhum exame que confirme que o paciente tem um transtorno delirante, de modo que o diagnóstico7 tem que ser eminentemente8 clínico e deve contar com a colaboração de familiares do paciente. A exacerbada adesão do paciente às suas convicções delirantes é um aspecto que pode ser investigado.

Como o médico trata o delírio1 de perseguição?

O tratamento do delírio1 de perseguição depende da sua causa e da intensidade dos sintomas9, mas geralmente envolve medicações, psicoterapia e, às vezes, requer hospitalização.

A medicação é constituída principalmente de drogas antipsicóticas, estabilizadores do humor e antidepressivos, conforme o caso. A psicoterapia é usada para ajudar o paciente a manejar suas ideias delirantes e tem por objetivos controlar os delírios, reconhecer melhor a realidade, reduzir ansiedade e melhorar os desempenhos sociais. A hospitalização se torna impositiva quando os sintomas9 são muito intensos ou o paciente gera perigo para si próprio, para terceiros ou expressa ideias suicidas.

A ajuda não médica das pessoas que convivem com o paciente deve consistir em ouvi-lo sem aprovar ou reprovar suas ideias delirantes. As pessoas devem também tentar redirecionar as situações apresentadas pelo delirante. Por exemplo: se a pessoa diz que um carro estacionado está ali para vigiá-la, pode-se apresentar uma outra possibilidade e dizer que o veículo talvez esteja ali enquanto uma pessoa está fazendo compras pela vizinhança.

Leia também sobre "Sentimentos de solidão", "Ideação suicida" e "Suicídio".

Como evolui o delírio1 de perseguição?

Se a causa do delírio1 de perseguição for passível de solução, o delírio1 pode ceder inteiramente, sem deixar sequelas10. No entanto, quando se trata de esquizofrenia3, as medicações utilizadas podem dar fim ao processo delirante, mas o paciente permanece com alguma alteração de personalidade como, por exemplo, certo grau de isolamento social, apragmatismo e pouco ou nenhum interesse pelas atividades do dia a dia, inclusive aquelas que antes eram praticadas com entusiasmo.

Quais são as complicações com o delírio1 de perseguição?

O medo de ser prejudicado por alguém pode levar o delirante ao comprometimento de seu comportamento. Muitas pessoas podem funcionar bem por um longo tempo, mas o medo e a ansiedade podem levá-los a uma significativa reclusão. Um indivíduo com esses delírios pode ficar com muito medo de sair de casa para suas atividades, como estudar ou ir trabalhar. Em alguns casos, delírios persecutórios podem levar a comportamentos suicidas, homicidas ou à hospitalização.

 

Referências:

As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da Cleveland Clinic e da Mayo Clinic.

ABCMED, 2022. Delírio de perseguição. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/psicologia-e-psiquiatria/1429095/delirio+de+perseguicao.htm>. Acesso em: 6 dez. 2022.
Nota ao leitor:
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Complementos

1 Delírio: Delirio é uma crença sem evidência, acompanhada de uma excepcional convicção irrefutável pelo argumento lógico. Ele se dá com plena lucidez de consciência e não há fatores orgânicos.
2 Psicose: Grupo de doenças psiquiátricas caracterizadas pela incapacidade de avaliar corretamente a realidade. A pessoa psicótica reestrutura sua concepção de realidade em torno de uma idéia delirante, sem ter consciência de sua doença.
3 Esquizofrenia: Doença mental do grupo das Psicoses, caracterizada por alterações emocionais, de conduta e intelectuais, caracterizadas por uma relação pobre com o meio social, desorganização do pensamento, alucinações auditivas, etc.
4 Doença de Alzheimer: É uma doença progressiva, de causa e tratamentos ainda desconhecidos que acomete preferencialmente as pessoas idosas. É uma forma de demência. No início há pequenos esquecimentos, vistos pelos familiares como parte do processo normal de envelhecimento, que se vão agravando gradualmente. Os pacientes tornam-se confusos e por vezes agressivos, passando a apresentar alterações da personalidade, com distúrbios de conduta e acabam por não reconhecer os próprios familiares e até a si mesmos quando colocados frente a um espelho. Tornam-se cada vez mais dependentes de terceiros, iniciam-se as dificuldades de locomoção, a comunicação inviabiliza-se e passam a necessitar de cuidados e supervisão integral, até mesmo para as atividades elementares como alimentação, higiene, vestuário, etc..
5 Epilepsia: Alteração temporária e reversível do funcionamento cerebral, que não tenha sido causada por febre, drogas ou distúrbios metabólicos. Durante alguns segundos ou minutos, uma parte do cérebro emite sinais incorretos, que podem ficar restritos a esse local ou espalhar-se. Quando restritos, a crise será chamada crise epiléptica parcial; quando envolverem os dois hemisférios cerebrais, será uma crise epiléptica generalizada. O paciente pode ter distorções de percepção, movimentos descontrolados de uma parte do corpo, medo repentino, desconforto no estômago, ver ou ouvir de maneira diferente e até perder a consciência - neste caso é chamada de crise complexa. Depois do episódio, enquanto se recupera, a pessoa pode sentir-se confusa e ter déficits de memória. Existem outros tipos de crises epilépticas.
6 Negligência: Falta de cuidado; incúria. Falta de apuro, de atenção; desleixo, desmazelo. Falta de interesse, de motivação; indiferença, preguiça. Inobservância e descuido na execução de ato.
7 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
8 Eminentemente: De modo eminente; em alto grau; acima de tudo.
9 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
10 Sequelas: 1. Na medicina, é a anomalia consequente a uma moléstia, da qual deriva direta ou indiretamente. 2. Ato ou efeito de seguir. 3. Grupo de pessoas que seguem o interesse de alguém; bando. 4. Efeito de uma causa; consequência, resultado. 5. Ato ou efeito de dar seguimento a algo que foi iniciado; sequência, continuação. 6. Sequência ou cadeia de fatos, coisas, objetos; série, sucessão. 7. Possibilidade de acompanhar a coisa onerada nas mãos de qualquer detentor e exercer sobre ela as prerrogativas de seu direito.
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